
A escritora e historiadora Mary Del Priore escreveu mais de 50 livros e a cada nova obra ela nos surpreende. Agora, conseguiu embalar o difícil tema envelhecer com textos saborosos, muita informação e casos curiosos que mostram como a velhice foi vivenciada e representada ao longo dos tempos em nosso país, do século XVI ao século XX. “Uma história da velhice no Brasil” retrata diversas realidades e épocas, ligando pontos que vão reconstruindo a trajetória desde os primeiros habitantes indígenas até os desafios contemporâneos de um país envelhecendo: dados do IBGE apontam que até 2070, cerca de 37,8% da população brasileira será composta por pessoas com 60 anos ou mais. E o mais curioso é constatar que perdemos a naturalidade com o envelhecimento e com a morte, como eram vividos pelos nossos ancestrais. “Hoje o envelhecer virou um processo muito complicado”, diz Mary.
Por que escolheu esse tema?
Fico muito atenta aos temas da sociedade que buscam dialogar com o que no momento está absorvendo a atenção da sociedade brasileira. O etarismo é um fato, temos um país de cabeças brancas, a geração baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) está com dor nos joelhos, passando pela morte de parentes e amigos próximos, como eu. Resolvi juntar o que eu já vinha pesquisando e procurar mais. Espero que o tema daqui para a frente inspire os historiadores.
O que encontrou?
Entre tantas descobertas aparecem, por exemplo, a participação ativa de José Bonifácio defendendo o envelhecer digno e até a forma como vários escritores clássicos trataram o assunto. É uma viagem pelo humor do cotidiano, afetos, hábitos e das formas de driblar os problemas da velhice de nossos antepassados, usando documentos históricos, jornais, memórias, correspondências e depoimentos literários para traçar um painel da velhice de homens e mulheres ao longo de quatro séculos de história. Tem casos interessantes, personagens que viveram e aceitaram a passagem do tempo com tranquilidade.
O que deu mais trabalho?
Às vezes, encontrava uma frase em 300 páginas, mas acho que o trabalho vale a pena por reconstituir a existência desses nossos ancestrais que deixaram uma mensagem de dignidade e suavidade na maneira de encarar a velhice, que para eles era algo inelutável. É como se fosse água que corresse, a coisa vinha e as pessoas iam enfrentando até onde podiam. Temos o exemplo de Dona Maria, Rainha de Portugal e do Brasil, que até os 80 anos levou com muito garbo sua posição e que morreu silenciosamente, saiu do baile da vida discretamente. O velho não era julgado velho por anos, enquanto ele tivesse força física para sobreviver. E eu acho incrível o caso daqueles viajantes do século XIX que encontravam velhinhos nos locais distantes do Brasil e que os acolhiam, faziam sopinha; estavam sozinhos, mas rachavam lenha e buscavam água no poço.

Foi difícil encontrar documentação?
São anos de pesquisa, vamos nos familiarizando com documentos, com memórias, cartas, retratos, jornais. Comecei buscando o que pudesse existir nos arquivos. No início, era como boiar num mar calmo onde nada acontecia. A palavra ‘velho’ ou ‘velha’, assim como ‘velhice’, é quase invisível nos documentos até bem recentemente. É como se idosos não existissem e, talvez, nem fossem vistos. Nas sociedades indígenas pré-coloniais, por exemplo, os anciãos eram considerados sábios e tinham funções fundamentais dentro das tribos, como conselheiros e guardiões da memória coletiva.
O que veio depois?
Com a chegada dos colonizadores europeus, o conceito de velhice passou a ser influenciado pelas concepções cristãs e renascentistas, que ligavam o envelhecimento à decadência do corpo e ao pecado. Nos séculos seguintes, a velhice esteve frequentemente associada à marginalização e à pobreza, sem sistemas previdenciários até o século XX. A velhice não é um estado meramente biológico, mas um fenômeno social e cultural que se transforma ao longo do tempo. Diferentes sociedades tiveram distintas formas de encarar o envelhecimento, de acordo com seus valores, crenças e modos de vida.
Quando ocorreram as principais mudanças?
Podemos perceber na própria documentação no século XIX, quando o velho começa a aparecer como personagem da sociedade. Ele se torna primeiro o homem político, que tem que ser velho ou parecer velho: vestes sisudas, barba, óculos. E o consumo: compra da dentadura, da bengala, do guarda-chuva; hábitos de sociabilidade e a melancolia. Isso foi o que mais impressionou, diante do passar do tempo. Os registros de Joaquim Nabuco em seu diário nos emocionam, ele conta da surdez, do mal-estar dias antes de morrer, sofre com a velhice dos amigos, do sogro, dos escravizados. No final do Século XIX foi o outono dos patriarcas que tinham poder sobre uma família larga.
E o que trouxe o século XX?
O mundo moderno traz o aposentado de pijama diante de sua melhor amiga, a televisão. Até que chegamos no final do século, quando a questão da geriatria começa a cutucar esse velho. A nova onda da chamada feliz idade trata o velho sem limitações, como se não tivéssemos dores ou não sofrêssemos a perda dos melhores amigos. Mostram o velho de 80 anos que trepa, que surfa, que tem dentes de titânio, como se isso fosse o normal. Verissimo e Ruy Castro tem textos bem-humorados sobre isso. Tentei falar com humor e delicadeza para fazer pensar.
O que o envelhecer de outras épocas tem de atual?
Tem uma bela carta do Joaquim Nabuco para Machado de Assis, logo depois da morte de sua mulher, em que se colocava à disposição para apoiar e comentava a importância dos amigos, fato que hoje está como um dos principais fatores para uma vida mais feliz no envelhecer. Outra revelação foi saber que os centenários no Brasil, sobretudo na época colonial, eram pessoas que se alimentavam pouquíssimo e mantinham uma rotina sem excessos, como hoje é recomendado pelos geriatras, mas ao mesmo tempo levavam uma vida com movimento.
Como foi o papel da mulher nessa história do envelhecimento?
A mulher foi sendo protagonista das suas histórias. Ela começou a envelhecer desde o Renascimento, quando entrava na menopausa, o que lhe dava outros poderes. De simples reprodutora ela passou a ser uma líder familiar, está por trás do homem conduzindo a família, vai administrar novos casamentos, nora, genros, controlava os bens da família. Estudando a História, eu sempre vejo mulheres muito à frente em suas decisões e opções. A longevidade da mulher era alimentada pelo trabalho que desenvolvia na vida doméstica, em movimento o tempo todo. Agora todos nós estamos vivendo mais por conta da Medicina e medicamentos; cirurgia plástica que antes era escondida e envergonhava as mulheres e tornou assunto das redes sociais. Fomos perdendo a agilidade física e procurando formas caras para disfarçar a passagem do tempo.
Que papel queremos para os nossos velhos?
Temos que nos inspirar nos exemplos dos nossos ancestrais. Os velhos que me circundam jamais se queixaram, estamos em uma sociedade alimentada por muito vitimismo, todo mundo é vítima de alguma coisa o tempo todo. A imagem idealizada do velho como consumidores, viajantes e até influenciadores digitais não reflete toda a realidade do envelhecimento no Brasil, onde muitos ainda enfrentam desafios como a solidão, a falta de acesso à saúde e a dependência financeira. O preconceito etário, conhecido como “ageismo” (ou ainda “etarismo”), ainda é grande. Precisamos pensar no futuro. Como podemos construir uma sociedade que valorize todas as idades? Como garantir qualidade de vida para uma população que envelhece rapidamente?
E como encarar a morte?
Termino o livro dizendo que quem fez a revolução sexual foi a nossa geração e é ela que também vai fazer a revolução da morte, temos que pensar na questão da morte assistida que ainda é um tabu. A velhice é uma nova espécie de escravatura à espera da abolição. Escravizados à vida e agrilhoados a ela, teremos que viver todos os períodos neste mundo mesmo, porque não adianta querer morrer. A melhor solução é se manter digno, firme, viver em liberdade e ter liberdade para viver. É o jeito, penso eu, de desestruturar essa imagem de uma velhice genial que aos 100 anos deveria estar pulando corda… Não é assim, a serenidade vai consistir em reconhecer a que horas queremos sair do baile. Devemos fugir dessa fantasia e olhar com serenidade para a morte. Vi minha mãe morrendo com 100 anos, foi um grande aprendizado, uma experiência única, ela era uma pessoa feliz, uma labareda de vida. Estamos enterrando os nossos pais e isso nos ensina a aceitar melhor o nosso final.
Você sempre foi e continua sendo uma mulher bonita. O teste do espelho incomoda?
Eu encaro com naturalidade e me cuido como toda mulher, mas sem exageros, eu gosto de envelhecer cercada pela natureza, por livros. Tenho a sorte de ter um companheiro que pensa como eu, que acha bobagem a preocupação com as marcas do tempo. Vamos caminhando juntos, tudo é normal, faz parte do nosso cotidiano construído em todos esses anos.



Muito oportuna e necessária essa reflexão. Gostei de conhecer o trabalho dessa historiadora. Vou ler ser livro com muita atenção! Obrigada Ivani !
Obrigada Cleide , beijo grande