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“Derrota de Orbán na Hungria também é uma derrota para Trump”

19/04/2026 Marcos A. Ferreira
Divulgação

Após 16 anos no poder na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán (Fidesz) perdeu as eleições no domingo (12) para um ex-aliado, Péter Magyar, do partido Tisza (centro-direita), que conquistou 137 das 199 cadeiras do Parlamento. Ainda que pouco se saiba sobre os planos de Magyar, a derrota de Orbán é comemorada como forte golpe nos projetos da extrema-direita no mundo, que tinha no líder húngaro uma lideranças modelar, na Europa e fora dela. Ainda no calor do acontecimento, na noite de domingo, o especialista em Relações Internacionais Gilberto Rodrigues (Universidade Federal do ABC) falou com o Jornal da Orla sobre o assunto.

O que significa a derrota de Viktor Orbán?
Foram 16 anos de um governo progressivamente autoritário. O Orbán saiu de um lugar de ser um governo que era visto como exótico dentro da União Europeia (EU) – exótico, porque de ultradireita, autocrático, dentro de um ambiente democrático – e a UE não foi capaz de enquadrá-lo dentro dos cânones democráticos do bloco. Ao contrário, ele acabou influenciando outros partidos de ultradireita que cresceram em outros países. E ele sai então dessa situação de ser um governo exótico para ser uma referência da ultradireita, inclusive aqui no Brasil, tendo em vista que o governo do Bolsonaro teve boas relações e chegou a ensaiar um possível pedido de asilo político na embaixada húngara.

O resultado da eleição altera essa situação?
O resultado dessa eleição tem dois elementos importantes a destacar. O primeiro é a vitória em si, a derrota do Orbán depois de 16 anos. Ele se fortaleceu muito, mudou a Constituição, restringiu liberdades, mudou as normas eleitorais para favorecê-lo. Ele fez tudo que os governos autocráticos normalmente fazem, mas muitos não conseguem levar adiante; o Orbán conseguiu levar adiante praticamente tudo que ele pretendia. Então essa vitória do opositor em si é um elemento a destacar. O segundo elemento é que essa vitória traz uma chamada super maioria para o governo que vai entrar. Isso significa que com essa super maioria, o novo governo vai poder mudar novamente a Constituição, reformar, vai poder restabelecer leis e situações governamentais anteriores, inclusive, ao governo do Orbán. Então, isso está sendo festejado bastante na Hungria e na Europa.

Mas o vencedor Péter Magyar surge no governo Orbán, não é?
É, o Péter Maggi, até pouco tempo, era do mesmo partido do Orbán (Fidesz), era colaborador. Ele rompe com o Orbán a partir de um escândalo político, inclusive envolvendo a mulher dele (do Péter), eles se separaram em 2023, e ele sai do governo, funda um novo partido (Tisza). Aí, se elege como deputado do Parlamento Europeu, se torna um eurodeputado em 2024 e passa a ter uma ascensão meteórica, considerando que trabalhava no governo do Orbán, era aliado e de repente tem uma carreira meteórica como opositor. Péter é um advogado, um diplomata, também trabalhou com relações internacionais e é jovem, tem 45 anos. Então, com esse perfil, que não é propriamente um perfil de uma pessoa que tenha militado na oposição ao Orbán, e talvez até por isso ele tenha conseguido sobreviver até hoje, uma vez que o Orbán foi perseguindo e foi minando todas as lideranças de oposição contra ele. Este líder político jovem consegue uma vitória transcendente. São alguns elementos que eu vejo no calor da hora, a partir das análises das notícias e também de algumas informações que recebi de um amigo que vive em Budapeste, é húngaro e que realmente comemorou muito. Ele trabalha com direitos humanos e todas as pessoas que estão na área de direitos humanos sofreram muito com o governo Orbán. Segundo esse meu amigo, se o Orbán tivesse vencido não haveria mais nenhuma ONG de direitos humanos na Hungria.

As notícias mostram que a relação Orbán-Putin também influenciou no resultado. Como?
Acho que é importante mencionar essa relação do Orbán com o Putin. Isso certamente influenciou negativamente a campanha de reeleição, porque a Hungria foi um satélite da União Soviética durante toda a existência da União Soviética. Sofreu intervenção também por parte do governo soviético e se transformou num país anticomunista. Depois da Guerra Fria, é um dos países onde mais se combate qualquer tipo de ideologia, não só comunista, socialista, mas de esquerda – a Hungria e a Polônia. E não por acaso foram dois países bastante afetados pelo comunismo, pelas intervenções soviéticas. Então, essa proximidade com o Putin também pode ter gerado uma perda do capital político do Orbán nessa eleição. E o seu distanciamento da UE. Apesar da UE não ter conseguido enquadrá-lo, como eu disse, a população húngara estava já se ressentindo por estar à margem da UE, devido a essa postura autoritária.

Em relação aos Estados Unidos, o que muda?
O vice-presidente americano esteve na Hungria fazendo proselitismo político para o Orbán. E tendo em vista que a derrota foi fragorosa, essa visita do James David Vance certamente também causou impressão negativa no eleitorado. Estamos pensando mais no eleitorado urbano, em Budapeste, as grandes cidades. O Orbán tem apoio na população rural da Hungria, mas a população urbana é majoritária, do ponto de vista do voto. Uma população que acompanha as questões internacionais. Essa visita do Vance também foi um tiro pela culatra que o presidente Donald Trump deu.

Até que ponto é, também, uma derrota do Trump?
A derrota do Orbán também é uma derrota para o Trump, porque o Orbán é um bom aliado para ele na Europa. Acho que se a gente pensar no projeto de uma internacional de direita, da qual o Steve Bannon é o cabeça, a maior liderança dentro dos Estados Unidos, essa derrota do Orbán é um elemento importante a ser contabilizado no enfraquecimento dessa internacional de direita. Agora, especificamente para o movimento MAGA (Make América Great Again – fazer a América grande novamente), dentro dos Estados Unidos, não me parece que vá sofrer alguma perda necessariamente por conta da derrota na Hungria. Eu acho que o que está ocorrendo hoje em relação ao MAGA tem muito mais a ver com uma cizânia que ocorreu devido à guerra do Irã, pois o Trump havia se comprometido a não embarcar em novas guerras. Ele embarcou, inclusive, numa guerra sem nenhum planejamento, de uma forma aleatória, improvisada, sem planejamento minimamente racional, até onde a gente consegue entender, até pelas dificuldades que os Estados Unidos estão tendo de derrotar o Irã, sem prejuízo das virtudes que o Irã tem na sua resistência e na sua resiliência. Eu não creio que essa derrota do Orbán seja um elemento relevante para a fragmentação do MAGA ou algum redirecionamento. Eu acho que a própria discussão interna nos Estados Unidos sobre o governo Trump embarcar em novas guerras, e o próprio caso Epstein, são elementos que estão gerando uma dinâmica nova no MAGA, não necessariamente positiva para o Trump.