
A alimentação como expressão de identidade, memória, território e transformação social é o eixo central de Boca Livre, série documental idealizada pela roteirista e diretora Cibele Appes ao lado da chef vegana e bióloga Isis Appes. Misturando audiovisual, ativismo e cultura alimentar, a produção transforma a comida em ferramenta de reflexão social, política e afetiva.
Com oito episódios, a série percorre diferentes culturas alimentares brasileiras e apresenta uma gastronomia acessível, diversa e conectada aos saberes de povos tradicionais. Apresentado por Isis, o programa reúne depoimentos de quilombolas, lideranças indígenas, agricultores, refugiados, ativistas, artistas, cozinheiras e pesquisadores da gastronomia, compondo um mosaico de experiências atravessadas pela relação entre alimento, ancestralidade e território.
A conexão das criadoras com o tema nasce da própria trajetória familiar. “Crescemos em uma família vegetariana. Não era só sobre não comer carne, mas sobre pensar a alimentação de forma mais integral, menos industrializada. Esse assunto sempre esteve presente. É uma pauta de vida”, afirma Cibele.
Para a diretora, o audiovisual surgiu como caminho natural para ampliar esse debate. “Uso o cinema para pensar questões que considero importantes de serem vistas e discutidas. E percebemos que falar sobre alimentação através do audiovisual poderia alcançar muita gente”.
Ao longo da série, cerca de 30 personagens de diferentes regiões do Brasil compartilham histórias ligadas à comida, à memória e ao território. A escolha dos participantes reuniu pesquisa, encontros e referências acumuladas por Isis em sua trajetória na gastronomia e nos estudos sobre alimentação. “Queríamos reunir cozinheiras, pensadoras, vozes indígenas, quilombolas, artistas e pessoas comuns. Todo mundo tem uma história para contar através da comida”, explica.
As gravações passaram pelo litoral, interior e capital de São Paulo, além do Vale do Ribeira, sul e Recôncavo Baiano, visitando comunidades caiçaras, hortas comunitárias, quilombos, aldeias indígenas e assentamentos. A série também conta com convidados da Paraíba, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
O próprio título da série sintetiza essa multiplicidade de sentidos. “Gosto quando um nome abre diferentes leituras”, comenta a diretora. “Tem a ideia da comida acessível, da comida compartilhada, mas também de uma boca que se expressa, que tem autonomia, que pode ser livre de agrotóxicos e de amarras”.
Para ela, a comida também pode funcionar como ferramenta concreta de transformação social. “Quando a gente começa a mudar o sistema alimentar, mexe em muitas estruturas. E como todo mundo vive isso diariamente, existe um potencial enorme de mobilização”.
Atualmente, a equipe negocia a exibição da série em canais de televisão e plataformas de streaming. As novidades são compartilhadas nas redes sociais do projeto @bocalivre.serie. Paralelamente, o grupo pretende investir em sessões públicas acompanhadas de debates. “Queremos que as pessoas saiam instigadas”, resume Cibele. “Provocadas a olhar para a alimentação de outro jeito. A série mostra também o que é bonito, o que é possível. E é daí que pode surgir a transformação”.


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