
“Um ovo que no ano passado era vendido por R$ 70, este ano não sai por menos de R$ 120 ou R$ 130”, comenta o confeiteiro e cake designer Marcelo Bellini, 57 anos. Com a Páscoa se aproximando, empreendedores do setor de confeitaria destacam que para esta temporada a tendência é se reinventar. Tradicionalmente impulsionado pelos ovos de chocolate, o mercado enfrenta desafios inéditos devido ao aumento substancial nos preços dos ingredientes. Para se manterem competitivos, os confeiteiros têm se adaptado e buscado soluções para contornar a alta e seguir agradando seus clientes.
Para a pedagoga e empresária Lethicia Alves, 35 anos, e sua parceira, a também pedagoga Fabiane Francisco, 28 anos, a venda de ovos de Páscoa representa mais do que um simples projeto sazonal — é um passo importante para a construção de um negócio próprio. “As vendas serão importantes por estarmos tentando iniciar um comércio paralelo além do trabalho fixo”, comenta Lethicia.
Sem atuar na área de formação, Lethicia encontrou na confeitaria uma maneira de se reinventar. “Esse ano decidimos buscar algo novo e fazer o que nós gostamos”, conta. No entanto, o aumento nos preços dos ingredientes acabou frustrando os planos da dupla. “A alta do cacau acabou nos surpreendendo e muito. Não esperávamos esse aumento, mas estamos fazendo o possível para ter produtos bons e com qualidade”, complementa.
“A Páscoa é uma ótima oportunidade para a expansão tanto de encomendas quanto de novas técnicas de produção, além de uma oportunidade de atingir um novo público-alvo”, destaca o confeiteiro e estudante Bruno Canuto, de 20 anos.
Bruno iniciou sua trajetória no ramo da confeitaria em junho do ano passado, ao abrir uma pequena loja de doces que vendia chocolates e guloseimas industrializadas. O destaque veio com a comercialização de pães de mel gourmet, produzidos por uma amiga, na faculdade onde estuda. A aceitação do público foi imediata, e as vendas cresceram rapidamente, impulsionando a parceria com uma confeitaria, a Drive-Trufa.
Para minimizar o impacto do aumento dos preços e manter a competitividade de seus produtos, o estudante adota uma estratégia flexível de precificação. Ele busca equilibrar os custos repassando apenas uma parte do aumento ao consumidor e investindo em promoções de combos que ajudam a reduzir despesas e ampliar a margem de lucro. “É possível ajustar os preços e agregar valor ao produto sem comprometer a qualidade”, afirma.
“Eu acredito que esse ano as pessoas vão investir em lembrancinhas, ao invés de ovos”, aposta Lethicia. Bruno concorda e observa que o valor sentimental tem ganhado mais destaque do que o preço em si. “As pessoas querem dar algo especial, desenvolvido para ser mais sentimental do que caro, mostrar mais carinho do que o valor gasto”, reflete.
Além das lembrancinhas, Lethicia e Fabiane também estão trabalhando com produtos de tamanho reduzido para este ano. “Estamos fazendo mini coelhos, mini ovinhos e barras recheadas”, conta Lethicia. Bruno segue a mesma tendência e também investe em formatos compactos e práticos. “Há uma demanda crescente por presentes e encomendas menores”, explica.

As pedagogas, que aguardaram a data para iniciar um novo negócio, acredito que as pessoas vão investir em lembrancinhas, ao invés de ovos
Para Bellini, a venda de cupcakes é uma boa opção para essa época do ano. “É um bolinho barato, e o diferencial fica por conta da decoração”, diz. “Dá para fazer um coelhinho em cima e usar um brigadeiro simples, que leva pouco chocolate em pó”, sugere ele, que é profissional no ramo e também ministra oficinas.
Além dos bolinhos, outra sugestão é o ovo achatado. Ele explica que existe uma forma específica que permite fazer um disco de chocolate no formato de ovo. “A pessoa só faz essa placa de chocolate e coloca brigadeiros por cima. Dessa forma, usa-se menos chocolate e investe-se mais em recheios ou enfeites mais baratos”, explica.
O preço do cacau disparou 118% no último ano, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Como resultado, dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) indicam que os preços do chocolate em barra e bombons subiram 16,5% nos últimos 12 meses, o maior reajuste anual desde a reformulação do índice que acompanha a inflação oficial do Brasil, em 2020.
Diante desse cenário, confeiteiro e cake designer Marcelo Bellini sugere evitar manter um estoque. “Investir dinheiro em algo sem saber se vai vender ou não é um risco grande”, diz. Segundo ele, a melhor estratégia é ter um cardápio fechado. “O cliente escolhe dentro daquilo que você já está oferecendo. Se o produto for bom e o preço justo, ele não vai atrás de outro, ele escolhe dentro das opções disponíveis”, afirma.

O confeiteiro e cake designer Marcelo Bellini sugere evitar manter um estoque. Além disso, ele reforça a importância da capacitação e ter um bom planejamento
Para evitar prejuízos, Bellini reforça a importância de planejamento e capacitação. “Muitas pessoas começam a produzir ovos de Páscoa com recheios caros sem analisar os gastos e, no final, percebem que quase não tiveram lucro ou, pior, pagaram para produzir”, alerta.
A escolha pelo chocolate fracionado também é uma opção diante da crise. Segundo confeiteiro e cake designer, a gordura do chocolate fracionado é quebrada de uma forma que o sabor não fica marcante. Inclusive, o confeiteiro afirma que existem chocolates fracionados com sabor melhor que chocolates nobres. No entanto, ressalta a importância de ser honesto com o cliente. “Não use um produto dizendo que é outro. O cliente vai perceber a diferença”, diz.
Para Bruno, a escolha dos ingredientes é um fator crucial na produção de doces e ovos de Páscoa. Essa importância é exemplificada através da diferença entre leite condensado e mistura láctea, que, segundo ele, pode comprometer a qualidade dos recheios. “As chances de você pegar uma mistura láctea e o brigadeiro não chegar no ponto ideal são grandes”, alerta.
De acordo com Bellini, ingredientes como Nutella e Leite Ninho estão saturados pelo público, enquanto considera frutas vermelhas como produtos caros e difíceis de se encontrar frescos nessa época. Sua aposta como tendência para essa Páscoa segue sendo o pistache, mas garante que é possível trabalhar sem ficar preso às tendências.
Bruno, por exemplo, diz que testará novas combinações, incluindo castanhas, conhecidas no ramo como “Nuts”. O estudante também enxerga a data como um momento estratégico para oferecer produtos diferenciados. “Os ovos de colher e a barrinha da felicidade, que é a barra em formato de ovo, estão sendo muito bem aceitos pelo mercado”, destaca ele, que realiza parte das vendas dentro da universidade.

Apesar do alto valor dos ingredientes, Bruno enxerga a data como um momento estratégico para oferecer produtos diferenciados. Para ele, os ovos de colher e a barrinha da felicidade são produtos bem aceitos
No entanto, confeiteiro e cake designer Marcelo Bellini ressalta que, apesar do sucesso, os ovos de colher precisam de atenção com o recheio, que encarece o produto. “Ao comprar um ovo fechado de 50 gramas e usar apenas uma metade para rechear, esse recheio pode pesar quase meio quilo”, explica.
Ele afirma que é possível trabalhar com recheios mais em conta, fugindo do leite condensado e da trufa. “É interessante trabalhar com recheios à base de cremes. Eles têm um bom custo-benefício para quem precisa de coisas baratas”, aconselha. “Infelizmente, é necessário buscar recheios baratos para conseguir ter um preço justo e conseguir vender”, lamenta.
Bellini também ressalta a importância de trabalhar com duas linhas de produtos. “Quem está começando deve oferecer duas opções: um produto acessível e outro de linha premium. Assim, é possível atender diferentes perfis de clientes sem comprometer os custos”, explica.
“Mesmo em regiões mais simples, sempre há alguém que sonha em consumir um produto de qualidade. Tem gente que, mesmo sem tantas condições, junta dinheiro para comprar algo especial”, observa Bellini.
*Matéria produzida pela Agência de jornalismo da UniSantos, Breno Sant’Anna e João Jardim


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