
A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL–Santos Praia) comemora o aumento de 7% nas vendas durante o Carnaval, conforme estava previsto. O Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (Sinhores), apesar de, até quinta-feira (19), não ter fechado o balanço dos dias de folia (14 a 18), registrava sinais de que a meta otimista (88,6% de ocupação dos leitos em hotéis da região) ´caminhava` bem desde o dia 5: pesquisa realizada pela entidade em Santos, São Vicente, Praia Grande, Guarujá e Bertioga apontava que 56,47% dos leitos estavam reservados.
No entanto, nas praias de Santos, comerciantes ouvidos pelo Jornal da Orla entre os canais 1 e 5 agradecem os dias de sol, mas divergem em relação ao sucesso nas vendas. Pé na areia – a caipirinha e outros drinks com preços entre R$ 20 e R$ 45; cervejinha entre R$ 14 e 15 a lata; pastel a R$ 18, em média –, ninguém fala em valores, mas afirmam que “o Carnaval do ano passado foi melhor”.
“Eu esperava mais. O final do ano foi muito bom, mas agora o movimento caiu uns 40% e eu trabalhei 12 horas, todos os dias. Em 2025, com o dinheiro que ganhei no Carnaval, consegui dar entrada no meu carro seminovo. Este ano, o que salvou foi o sol todos os dias”, conta Lurdes Pedrosa. Há quatro anos trabalhando com driks, Nina, como é conhecida, diz que entre sexta (14) e terça-feira (17) diz que usou apenas metade das 200 cadeiras que possui para acomodar fregueses.
Para ela, as obras de recuperação da calçada da praia no trecho onde ela trabalha, a falta de rampas para pessoas idosas e poucos eventos na região contribuíram para a queda nas vendas. Nina também cita, ainda, a questão climática, pois a faixa de areia tem diminuído bastante, principalmente entre os canais 4 e 5 (Embaré e Aparecida): “Antes, a alta da maré era mais previsível, nos horários e nos dias. Agora, sobe e desce várias vezes ao dia”, diz. Com a proximidade do da temporada, Nina já planeja usar o automóvel para complementar a renda. “Talvez, fazer entregas de mercadorias do comércio virtual”, reflete.
NA MASSA
Maria de Fátima dos Santos vive o comércio na areia das praias de Santos desde a infância. Filha de antigos ambulantes da Ponta da Praia, Chico Paraíba e Edmilza, ela acompanhou pai e mãe na venda de milho cozido e suco. Aos 51 anos, 19 deles trabalhando com pastel na praia, Fátima esperava vender entre 30 e 40% a mais durante os dias de Carnaval. “Sou grata pelo sol, mas havia muita expectativa e ficou abaixo. Eu esperava mais. No melhor dia, domingo, eu trouxe 60Kg de massa e voltei com 15 kg. Nos demais, vendi entre 40 e 45Kg, incluindo as casquinhas [tiras de massa fritas e embaladas para comercialização], que nem dão lucro. Já cheguei a vender 80 kg de massa por dia”.
O quilo da massa também é parâmetro para Maria Aparecida Alves, de 50 anos, há 16 trabalhando com pastel na praia. “Entre sexta e terça-feira de Carnaval, eu esperava vender uns 200 kg; vendi uns 120kg. Em 2025, foi bem melhor”, conta. De acordo com Cida, como é conhecida, um rolo com 2,5kg de massa equivale a aproximadamente 20 pasteis.
Usando o 20 como parâmetro, chega-se ao número que 100 kg equivalem 800 pastéis. Porém, a conta não é exata – e não apenas em razão da pouca excelência matemática do repórter. Além da imprecisão dos parâmetros usados pelos próprios comerciantes, há outras variáveis que influenciam como, por exemplo, o tamanho do pastel e o volume de venda das tradicionais casquinhas.
Cida também reconhece que a alta expectativa foi gerada em função do movimento registrado entre dezembro de 2025 e início de janeiro. “Fazia oito anos que eu não via tanta gente na praia como nesse final de ano. Talvez por isso, nós comerciantes esperávamos mais. Mas temos que agradecer os dias de sol”.
Tanto ela quanto Fátima afirmam que Santos precisa promover mais eventos nas praias. “As atrações nas tendas ajudam, mas estão instaladas em pontos específicos, são poucas numa praia muito extensa”, diz Fátima.
Para o quase estreante Kaique Cardoso, que trabalha com pastéis na praia apenas há três meses, o movimento foi “ótimo”, ainda que faça a ressalva de não ter parâmetros para comparações com outros carnavais. Mas ele não é marinheiro de primeira viagem. Vem de uma família que atua no ramo “há anos”, vendendo pastéis e lanches nas proximidades de cinco instituições de ensino da Cidade.
“Para nós foi muito bom, pois em um dia de Carnaval, vendemos o equivalente à venda de uma semana nos outros carrinhos”, declara Kaique. Ele diz que veio para ficar, porém, com o retorno das aulas, o comércio na praia abrirá apenas nos finais de semana e feriados.

´RÉGUA ALTA`
Para Edvan Batista, que há 13 anos trabalha com o comércio de bebidas na praia, “não há do que reclamar: é só agradecer pelos dias de sol”. Ele diz que não costuma criar metas e expectativas em razão de datas específicas, mas admite que o Carnaval é “sempre bom” para as vendas. “A gente precisa vender e tem que trabalhar. Não fico pensando: ah, tenho que faturar tantos reais a mais. Acho que muita gente colocou a régua das vendas lá no alto, porque o final do ano foi muito bom. Então, imaginaram uma situação que não é a nossa realidade”.
Edvan explica que trabalhar com comércio na areia é preciso levar em conta muitas variáveis, além de um dia ensolarado. “Às vezes, a praia está cheia, os guarda-sóis com muita gente, mas o consumo é baixo. Há clientes que preferem vir justamente quando tem pouco movimento, se sentam em duas, três pessoas e consomem bastante. A situação também mudou. Santos é uma cidade cara, tem muita gente trazendo suas bebidas, aí senta aqui e só pede um negocinho para beliscar – a gente não pode reclamar. Às vezes, um dia da semana considerado fraco, você tem que estar aqui, porque tem sol. São muitos os fatores que influenciam. O negócio é pé na areia e trabalho”, conclui.


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