Cena

Casa Botão: acervo colaborativo que conecta moda e audiovisual

20/01/2026 Isabela Marangoni
Arquivo Pessoal

A trajetória de Viviane Amorim atravessa o varejo de moda, o audiovisual e desemboca, mais recentemente, na criação de um dos acervos de figurino mais singulares de São Pau lo. Figurinista e curadora do Acervo Casa Botão (@casabotao), ela reúne hoje cerca de 15 mil peças, que circulam entre filmes, séries, campanhas publicitárias, editoriais de moda e grandes produções culturais. “Moro em São Paulo há 26 anos. Comecei muito nova no varejo, em Santos, trabalhando na Stiletto”, conta.

A mudança para a capital marcou o início de uma fase intensa de aprendizado e ampliação de repertório. Na Arezzo da Oscar Freire, Viviane teve contato direto com feiras, desfiles e os bastidores da indústria da moda. “A Oscar Freire te dá outra visão de mundo. Naquela época, a Arezzo tinha um sistema muito interessante, que permitia participar de feiras como a Francal e a Couromoda, além dos desfiles dos franqueados”.

Na sequência, passou por marcas como a Patachou e pelo ateliê do estilista Marcelo Mortari, aprofundando o olhar técnico sobre materiais, acabamento e desenvolvimento de produto. “Sempre gostei dessa parte mais detalhista da coisa”.

AUDIOVISUAL

Em 2004, veio a mudança decisiva. Viviane aceitou o convite de um amigo para trabalhar como assistente de figurino no audiovisual. “Eu estava cansada da rotina pesada do varejo e tinha duas filhas. Arrisquei, mesmo saindo de uma estabilidade para uma instabilidade”. O risco deu certo. Foram cinco anos como assistente, seguidos por trabalhos autorais e uma longa passagem por um estúdio fotográfico, onde acumulou funções e ampliou ainda mais sua formação. “A foto grafia me deu muita escola”, afirma.

A CASA BOTÃO

A ideia do acervo, no entanto, só ganhou forma durante a pandemia. Com a paralisação quase total do audiovisual, Viviane precisou se reinventar. “Foram quase um ano e meio sem trabalho. Todo mundo é freelancer. Então pensei: preciso montar um plano de ação”.

A partir de peças acumuladas ao longo de anos de carreira, nasceu o Acervo Casa Botão. Desde o início, a proposta foi clara: criar um espaço colaborativo. “A Casa Botão é o primeiro acervo colaborativo de São Paulo. Tenho o meu acervo e o de mais quatro figurinistas”.

Hoje, o espaço reúne não apenas roupas, mas também acessórios, calçados e peças de luxo — entre elas, uma coleção de tricôs da estilista Alice Capela. “Tenho muita experiência com tricô desde a época da Patachou e hoje guardo peças de desfile lindíssimas”.

DO CONTEMPORÂNEO AO ICÔNICO

O foco principal do acervo é o figurino contemporâneo. “Meu acervo é majoritariamente da década de 70 para cá. Roupa de época exige muito espaço e volume, e São Paulo já tem dois grandes acervos líderes nesse segmento”.

Ainda assim, algumas peças carregam histórias emblemáticas. “Tenho uma malha de metal que foi da Rita Lee — essa é icônica. Também um vestido longo de paetê da Ivete Sangalo e peças usadas por personagens do Tom Cavalcante”. As roupas chegam de forma orgânica, fruto das relações profissionais construídas ao longo dos anos. “São peças que um dia foram usa das por essas pessoas e acabam ficando com os figurinistas. Assim o acervo vai se formando”.

BASTIDORES, CUIDADO E CIRCULAÇÃO

Manter o acervo em funcionamento exige trabalho constante. “As peças saem para locação o tempo todo e voltam. A conservação é contínua. A gente não para de trabalhar nunca”. A Casa Botão já esteve presente em produções como O Auto da Compadecida 2 e no novo longa sobre Bruna Surfistinha, além de campanhas, edito riais e ensaios para revistas como a Billboard Brasil, com artistas como Gloria Groove.

Viviane também destaca a importância da curadoria ativa e do entendimento de mercado. “Sou eu quem faz a curadoria e sei o que está faltando. Estou sempre atualizando: vou a brechós, compro peças novas em promoção, penso no que o mercado está pedindo”.

OLHAR PARA O FUTURO

Mais do que um acervo, a Casa Botão se consolidou como um espaço de troca, formação e acolhimento de novos profissionais. “Hoje ela já é bem conhecida no audiovisual e também entre figurinistas jovens que estão chegando agora”.

Viviane vê com entusiasmo o retorno das revistas impressas e quer investir mais nessa frente. “Moda impressa está voltando. As bancas estão vendendo mais revistas, e isso me anima muito, porque é foto, é imagem”.

Para 2026, o foco está na visibilidade qualificada nas redes sociais. “Não busco milhões de seguidores. As redes são uma ferramenta de trabalho. Quero que quem esteja ali seja contato profissional”. E também no diálogo entre gerações. “A gente aprende com eles e ensina também. Moda é troca”.

Com a experiência de quem já vestiu grandes artistas e hoje ajuda novos profissionais a darem seus primeiros passos, Viviane sintetiza o espírito do espaço. “O acervo só tem graça se estiver contando histórias. Se estiver em movimento, fazendo a diferença”.