Cena

Carly Simon chega aos 82 anos com muita força e personalidade

25/06/2025 Gustavo Klein
Divulgação

A cantora e compositora Carly Simon completa 82 anos nesta quarta-feira, 25 de junho. Voz emblemática da música americana, Simon marcou os anos 1970 com sucessos românticos. Seu maior hit, You’re So Vain (1972), tornou-se um clássico instantâneo — e um dos maiores enigmas da música pop. A letra, sobre um homem vaidoso e enigmático, gerou décadas de especulações: teria sido escrita para Warren Beatty, Mick Jagger ou outro dos famosos pretendentes da artista?

Nascida em Nova York, em 1943, Carly Elisabeth Simon cresceu em um ambiente de cultura e arte. É filha de Richard L. Simon, cofundador da editora Simon & Schuster, e teve uma infância musical, cercada por livros e pianos. Sua estreia profissional foi ao lado da irmã Lucy, com quem formou a dupla The Simon Sisters, que gravou álbuns de folk nos anos 1960, incluindo a faixa infantil Winkin’, Blinkin’ and Nod, que chegou às paradas da época.

Carly lançou seu primeiro álbum solo em 1971. A canção That’s the Way I’ve Always Heard It Should Be, que aliás é belíssima e muito intimista, chamou atenção pela sinceridade ao abordar o medo do casamento, algo incomum em uma época marcada por canções românticas idealizadas. No ano seguinte, o álbum No Secrets estourou nas paradas, liderado por You’re So Vain. A faixa, que teve Mick Jagger nos vocais de apoio, levou Carly ao topo das paradas e vendeu mais de três milhões de cópias nos Estados Unidos.

Durante a década de 1970, Carly Simon acumulou sucessos como Anticipation, The Right Thing to Do e Haven’t Got Time for the Pain. Em 1977, foi escolhida para interpretar a música-tema do filme de James Bond O Espião Que Me Amava. A canção Nobody Does It Better foi indicada ao Oscar e se tornou outro grande sucesso de sua carreira, marcando seu nome no universo das trilhas sonoras.

Em 1988, Carly conquistou a tríplice coroa da música e do cinema: venceu o Oscar, o Grammy e o Globo de Ouro com Let the River Run, trilha do filme Working Girl (Uma Secretária de Futuro). Com isso, tornou-se uma das poucas artistas a vencer os três prêmios com uma única composição autoral.

Sua vida pessoal foi intensamente acompanhada pela imprensa. Casou-se com o cantor James Taylor em 1972, com quem teve dois filhos, entre eles o também músico Ben Taylor. O casamento durou até 1983 e inspirou diversas canções em ambos os repertórios. Carly também teve relacionamentos com nomes como Cat Stevens, Kris Kristofferson e Warren Beatty, que influenciaram diretamente suas composições.

Ao longo das décadas seguintes, Carly lançou mais de 20 álbuns, experimentando novos estilos e públicos. Destacam-se os discos de standards e jazz como Moonlight Serenade (2005), os álbuns natalinos como Christmas Is Almost Here (2002), e o acústico Never Been Gone (2009), no qual revisitava seus clássicos com novos arranjos. Também é autora de livros infantis e da autobiografia Boys in the Trees (2015), onde compartilhou memórias marcantes, como abusos na infância e sua luta contra a ansiedade.

Com mais de 30 milhões de discos vendidos, Carly Simon recebeu o reconhecimento formal de sua contribuição à música. Em 1994, entrou para o Songwriters Hall of Fame, e em 2022 foi finalmente incluída no Rock and Roll Hall of Fame — um reconhecimento aguardado e merecido.

Recentemente, Carly voltou ao centro da conversa cultural ao defender a cantora pop Sabrina Carpenter, que foi alvo de polêmica ao divulgar a capa de seu novo álbum, Short n’ Sweet. A imagem, com uma estética abertamente sensual, remete diretamente à capa de No Secrets, na qual Carly aparece de blusa colada e calça justa, encarando a câmera com confiança e vulnerabilidade.

Na década de 1970, a capa de No Secrets provocou escândalo. Carly foi criticada por parecer “demais”, tanto no sentido estético quanto no simbólico. Questionaram sua autenticidade, seu corpo, sua sexualidade — como se sua beleza traísse seu talento. Anos depois, a história parece repetir-se. Sabrina, jovem cantora em ascensão, foi acusada por parte do público de se apoiar em “sexualização” e “cópia estética” para promover seu trabalho.

Com a experiência de quem enfrentou críticas semelhantes em outra geração, Carly reagiu com generosidade e força. “Fico lisonjeada por ser referência para uma nova geração de artistas. Sabrina está maravilhosa, ousada e no controle da própria narrativa”, declarou. E foi além: “A arte é diálogo entre épocas. É assim que a música evolui. O que fizemos nos anos 1970 ecoa hoje — e que bom que ecoa com mulheres livres e criativas.”

O apoio público à jovem cantora emocionou fãs e críticos. Em tempos de cancelamentos fáceis e patrulhas morais disfarçadas de crítica, Carly Simon mostrou o que é verdadeira maturidade artística. Ela não apenas validou a escolha de Sabrina como celebrou a continuidade de uma luta que começou há décadas: o direito das mulheres de se expressarem plenamente, seja com palavras, melodias ou imagens.

Mesmo sem lançar novos discos de inéditas nos últimos anos, Carly permanece como referência para gerações de cantoras e compositoras. Artistas como Taylor Swift, Alanis Morissette, Fiona Apple e Olivia Rodrigo já a citaram como influência direta. Suas músicas continuam presentes em trilhas sonoras, playlists e memórias afetivas mundo afora.

Aos 82 anos, Carly Simon segue sendo símbolo de elegância e integridade artística. Sua obra prova que vulnerabilidade é também uma forma de força — e que, às vezes, a melhor resposta ao moralismo de ontem e de hoje ainda é uma boa canção. Ou uma capa inesquecível…