
Estudo inédito mede estoque para avaliação e a contaminação do solo por metais
Imersos em lamaçais, ora secos, ora submersos pelo vai e vem das marés, os manguezais são ecossistemas que costumam resistir a mudanças e adversidades. Mas tanta resiliência não está imune aos impactos das mudanças climáticas que atingem o planeta. É por isso que equipes da Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), em parceria com o Centro de Pesquisa em Carbono na Agricultura Tropical (CCARBON), da Universidade de São Paulo (USP) estão a frente de um estudo inédito que envolve os manguezais do Litoral Paulista.
O objetivo é, pela primeira vez, mapear o chamado “estoque de carbono” (conhecido também como carbono azul), além de detectar e quantificar a presença de elementos tóxicos, sobretudo metais pesados, para determinar politicas públicas de preservação ambiental mais eficientes, além das tomadas de decisão e os usos atuais e futuros dos manguezais. Os estoques de carbono servem como contingência deste componente, contribuindo na mitigação das mudanças climáticas e evitando que se acumule na atmosfera, provocando o efeito estufa.
A iniciativa integra o Programa de Gestão Integrada de Manguezais e terá mais dois anos de duração. O estudo é estruturado em quatro eixos temáticos (Biodiversidade; Bioeconomia; Educação Ambiental e Comunicação; e Pesquisa e Enfrentamento às Mudanças Climáticas). Os pesquisadores já começaram o processo de coletas de 2 mil amostras de solo em diferentes trechos da costa local, abrangendo tanto áreas protegidas quanto região fora das unidades de conservação. Essas coletas acontecem nos arredores dos Parques Estaduais Itutinga-Pilões (dentro da Serra do Mar), Xixová-Japuí (em Praia Grande) e Restinga de Bertioga.

PROCESSO
“Na primeira ordem, o trabalho consiste em identificar como que andam esses ecossistemas, a qualidade, a saúde deles, e, para além disso, verificar a questão dos estoques de carbono que o solo dessas florestas consegue sequestrar da atmosfera. Isso tem margem para várias outras ações, inclusive no mercado de carbono e na conservação propriamente dita. É uma ferramenta que vem sendo usada em outros países e a Fundação tem encarado isso com muita seriedade há algum tempo”, explica o chefe da unidade do Parque Estadual da Restinga de Bertioga, Eduardo Ferreira. “Serão mais de 300 hectares de área monitorada”.
O material será processado em laboratórios da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), em Piracicaba. Serão elaborados relatórios técnicos periódicos com informações de qualidade ambiental e estoques de carbono das amostras. Os dados vão permitir comparar a qualidade do solo e o potencial de retenção de carbono entre bosques de mangue com diferentes níveis de impacto humano e proteção legal.
“Pretendemos dimensionar as áreas basais dessas espécies de manguezais nesses bosques, calcular a proporção de jovens e adultos, definição por espécie, por gênero, para a gente conseguir fazer um acompanhamento da saúde desses ecossistemas. Outros estudos demonstraram que esse tipo de ambiente pode armazenar até cinco vezes mais carbono do que florestas terrestres, pela grande quantidade de matéria orgânica acumulada em seus solos”, destaca Ferreira.
O gestor destaca que os estudos também pretendem apontar a diferença de composição entre os manguezais. “Tem terrenos que estão mais próximos ou mais distantes dos centros urbanos, que sofrem tanto influência da maré como também da ocupação humana. No fim do processo, teremos uma fotografia bem interessante da situação dos manguezais no Estado. Cada uma delas tem alguma interface com unidades de conservação ou zonas de amortecimento. E isso afeta diretamente a capacidade de retenção de carbono e a saúde do ecossistema”.

CONTAMINAÇÃO
Outro ponto central da pesquisa é a avaliação da contaminação do solo. Com base nas amostras, os técnicos vão investigar a presença de metais como chumbo, mercúrio, cobre, arsênio e zinco. A compactação do solo que favorece o sequestro de carbono também pode reter por mais tempo os poluentes que chegam aos manguezais por esgoto, resíduos industriais ou outras fontes.
“Queremos entender se as unidades de conservação ajudam a mitigar a contaminação e como isso se reflete na fauna e na vegetação local. Cruzando os dados, poderemos entender, por exemplo, se os manguezais mais poluídos têm menos caranguejos, menos aves ou vegetação mais fragilizada. Isso orienta diretamente a gestão ambiental e o planejamento territorial”, explica Maria Lanza, gestora da APA Marinha do Litoral Centro.
Mais do que um projeto científico, o estudo consolida um novo olhar para a gestão pública dos manguezais. “Colocamos o manguezal em outro patamar. Nosso intuito é tratar esse ecossistema como protagonista nas discussões sobre clima, biodiversidade e sustentabilidade”, destaca Laís Zayas, coordenadora do Programa de Gestão Integrada de Manguezais. “A conservação dos manguezais não é só importante para a fauna e a flora, mas também representa ações de mitigação climática que o próprio ecossistema já está fazendo por nós”.


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