Cena

Cacilda Becker, 105 anos de um gênio que transformou o teatro

06/04/2026 Da Redação
Arquivo/Estadão Conteúdo

Cacilda Becker ocupa um lugar fundamental na formação do teatro moderno no Brasil. Não pelo volume de trabalhos apenas, mas pelo modo como passou a ser vista em cena e pelo tipo de exigência que levou para dentro das montagens. Sua presença ajudou a fixar um padrão de atuação baseado em estudo, precisão e continuidade, em um período em que o palco brasileiro ainda buscava esse nível de organização.

A passagem pela cidade de Santos teve papel importante nesse processo. Ainda jovem, ela se mudou com a mãe e as irmãs para a cidade e cresceu em meio a dificuldades financeiras.

A rotina distante de centros culturais mais estruturados não impediu o contato com a arte. Ao contrário, abriu espaço para uma formação menos convencional, feita na prática, com circulação por ambientes variados e aproximação com grupos interessados em experimentar novas formas de expressão. Antes do teatro, o balé apareceu como primeira atividade, e ela chegou a se formar professora, conciliando trabalho e formação.

Quando chegou ao palco, já trazia essa base construída fora de escolas tradicionais. Nos anos 1940, começou em grupos amadores e, em pouco tempo, passou a integrar companhias profissionais. No Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, encontrou um ambiente voltado à renovação estética e à profissionalização do setor. Ali, o trabalho de atores e diretores passou a seguir um padrão mais próximo do que se via em centros internacionais, com atenção ao texto, à encenação e ao preparo do elenco.

Cacilda se destacou nesse contexto pela forma como conduzia seus papéis. Participou de montagens de autores como Pirandello, Sófocles, Tennessee Williams e Edward Albee, em peças como Seis Personagens à Procura de um Autor, Antígona, Longa Jornada Noite Adentro, A Visita da Velha Senhora e Quem Tem Medo de Virgínia Woolf. A leitura de Maria Stuart também aparece com frequência entre os trabalhos mais citados. Em todos esses casos, o que se observa é a construção cuidadosa dos personagens, com atenção ao ritmo, à fala e à presença em cena.

O processo de trabalho seguia uma linha constante. Havia preparação detalhada dos textos, repetição de ensaios e acompanhamento de cada etapa da montagem. O diretor Ziembinski, que trabalhou com ela em diferentes momentos, apontava esse padrão como um dos fatores que diferenciavam sua atuação dentro das companhias.

Inspiração
Essa forma de trabalhar acabou influenciando outros artistas. A presença contínua em montagens de grande porte e a regularidade do desempenho ajudaram a estabelecer um parâmetro para o trabalho do ator no país. A atriz Fernanda Montenegro, ao comentar sua trajetória, indicou essa influência ao destacar Cacilda como uma referência para quem entrou no teatro nas décadas seguintes.

Além do palco, houve participação direta na organização do setor. Fundou companhia própria ao lado de Walmor Chagas e assumiu funções ligadas à gestão cultural. Em um período de restrições políticas, esteve à frente da Comissão Estadual de Teatro e se posicionou contra a censura, mantendo atuação pública em defesa da atividade artística.

Também trabalhou no cinema e na televisão, mas o teatro concentrou a maior parte da produção. Ao longo de cerca de três décadas, esteve presente em dezenas de peças e integrou diferentes companhias, mantendo atuação contínua em um período de consolidação do setor.

Em 1969, durante uma apresentação de Esperando Godot, de Samuel Beckett, passou mal em cena. Foi levada ao hospital e morreu semanas depois, aos 48 anos. Sua trajetória permanece associada a esse momento de estruturação do teatro brasileiro e ao estabelecimento de um padrão de trabalho que segue como referência até hoje.