
Marcada por uma economia fortemente baseada em comércio, serviços e turismo, a Baixada Santista vem sentindo de forma mais intensa os efeitos das taxas recordes de juros no crédito ao consumidor. A combinação entre renda sazonal, necessidade recorrente de capital de giro e custo elevado do dinheiro tem ampliado a vulnerabilidade financeira de famílias e pequenos empresários da região, em um cenário que se conecta a um movimento observado em todo o Estado de São Paulo.
Levantamento realizado pelo Procon-SP revela que a taxa média de juros do empréstimo pessoal, anualizada, chegou a 8,13 pontos percentuais, o maior patamar da série histórica iniciada em 1997. Em dezembro de 2025, ao considerar contratos de 12 parcelas, a taxa média alcançou 8,35 pontos percentuais ao mês, aumento de 4,11% em relação à média de 8,02 registrada em janeiro do mesmo ano.
Segundo especialistas do órgão, os juros dessa modalidade de crédito vêm atingindo patamares mais elevados após a limitação do cheque especial, estipulada pelo Banco Central em novembro de 2019, além de refletirem a alta da taxa Selic, que em 2025 foi elevada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) de 12,25% para 15%. A decisão foi influenciada por expectativas de inflação acima da meta, desvalorização cambial, aquecimento do mercado de trabalho, riscos externos e necessidade de ajustes fiscais.
Para a advogada Mayra Saitta, especializada em Direito Empresarial e Tributário na Baixada Santista, esse cenário tende a ser ainda mais sensível por conta do perfil econômico regional.
“A economia da Baixada Santista é fortemente marcada por comércio, serviços e turismo, setores que têm renda sazonal e maior instabilidade ao longo do ano”, explica. Segundo ela, a dependência de meses de maior faturamento aumenta a exposição ao crédito caro, levando famílias e pequenos empresários a assumirem compromissos financeiros que se tornam difíceis de sustentar nos períodos de baixa.
Avaliação semelhante é feita pela Associação Comercial de Santos (ACS). Para o diretor executivo da entidade, Adalto Corrêa de Souza Jr., os juros elevados funcionam, na prática, como um custo adicional permanente sobre a atividade econômica. “Para o comércio e os serviços da região, isso encarece o capital de giro e pressiona o caixa das empresas. Entre micro e pequenos empresários, o impacto é ainda mais intenso, pois o crédito chega com taxas mais altas e prazos mais curtos, reduzindo margem, investimento e capacidade de crescimento”, afirma.
A sazonalidade da economia regional, segundo Adalto, amplia essa vulnerabilidade. “A economia da Baixada Santista exige crédito para atravessar períodos de menor movimento. Com juros elevados, esse crédito deixa de ser um instrumento de apoio e passa a ser um fator de risco. O empresário acaba usando dívida cara para resolver oscilações temporárias, o que fragiliza a saúde financeira ao longo do tempo”, observa.
RISCO
Mayra Saitta alerta que, com juros elevados, essa dinâmica pode evoluir rapidamente para um endividamento estrutural. “Com taxas altas como as atuais, regiões com esse perfil econômico sentem de forma mais intensa os efeitos das taxas recordes de juros”, diz.
Ela destaca ainda fatores estruturais do sistema de crédito brasileiro que agravam o problema. “A carga tributária impacta o crédito de forma direta e indireta. Diretamente, porque operações de crédito estão sujeitas ao IOF, previsto no Decreto nº 6.306/2007, que aumenta o Custo Efetivo Total do empréstimo. Indiretamente, porque a estrutura tributária elevada das instituições financeiras acaba sendo incorporada ao spread bancário”, explica.
O levantamento do Procon-SP também aponta grandes disparidades entre instituições financeiras. A taxa média mensal do Banco do Brasil para empréstimo pessoal foi de 6,58 pontos percentuais, enquanto no Santander chegou a 9,99, uma diferença superior a 51,8%. No cheque especial, a taxa média em 2025 foi de 7,97 pontos percentuais ao mês, com todas as instituições encerrando o ano no teto máximo permitido pelo Banco Central.
Na avaliação da ACS, essa estrutura compromete a concorrência e limita o acesso a linhas mais competitivas. “A concentração do sistema financeiro e a grande diferença entre taxas fazem com que muitos empresários utilizem as linhas disponíveis, e não necessariamente as mais adequadas — perpetuando um crédito caro e pouco eficiente”, afirma Adalto. Ele ressalta que o risco de endividamento estrutural é concreto quando juros elevados se prolongam, com impacto direto sobre consumo, inadimplência e nível de atividade econômica.
Diante desse cenário, a orientação converge para o planejamento. “A principal recomendação é olhar para o crédito de forma estratégica, e não apenas emergencial”, afirma Mayra, destacando a importância de comparar o Custo Efetivo Total das operações.
Adalto reforça a mesma linha: “O crédito deveria ser um instrumento de crescimento, mas no Brasil passou a ser uma ferramenta de sobrevivência. Os pequenos negócios estão especialmente vulneráveis a essa dinâmica”.
Segundo os especialistas, informação, organização financeira e planejamento tornam-se fundamentais em um ambiente de juros elevados, especialmente em uma economia regional marcada por sazonalidade e forte dependência do consumo



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