
A revitalização do Centro de Santos vem ganhando forma nos últimos anos por meio de um conjunto de ações integradas que envolvem urbanismo, preservação do patrimônio histórico, cultura, turismo e habitação. Mais do que intervenções pontuais, o objetivo é devolver vitalidade a uma das áreas mais simbólicas da cidade, marcada por sucessivos ciclos de ocupação, esvaziamento e degradação.
Dentro desse movimento, a Avenida Senador Feijó desponta como um dos eixos com maior potencial de transformação. A proposta de requalificação ganhou destaque a partir da iniciativa da designer de interiores Graziela Garavati, profissional com mais de 20 anos de experiência e presença constante nos principais distritos de design do mundo.
A aproximação com o projeto ocorreu de forma inesperada, por meio de um concurso privado de arquitetura e design em 3D, a Mostra Arq Digital, descoberto casualmente pela profissional. “Quando vi esse concurso, focado em projeto 3D e criatividade, pensei: ‘aleluia, alguma coisa diferente’”, relembra. Entre as categorias, uma chamou sua atenção de imediato: soluções urbanas. “Quando li ‘Revitalização da Senador Feijó’, pensei: que bacana. Eu já conhecia a avenida e enxergava o potencial daquele espaço”.
Mesmo com o prazo curto, Graziela decidiu participar. O projeto foi desenvolvido em poucos dias, mas sustentado por décadas de repertório profissional. “São 20 anos de trabalho e 12 anos viajando pelo mundo, vivenciando distritos de design. Isso vira prática”, explica.
Inspirado em referências internacionais, como os distritos de design de Milão e Miami, o projeto propõe transformar a avenida em um espaço que integra design, arte, decoração e gastronomia, ao mesmo tempo em que valoriza a identidade local. Elementos como pórticos, bancos, jardineiras e pontos de ônibus adotam formas sinuosas e orgânicas, que remetem às ondas do mar e à letra “S” de Santos, criando uma atmosfera marcante. A proposta adapta essas influências à realidade da cidade, priorizando soluções executáveis e compatíveis com a escala urbana. “Não adianta criar algo surreal, difícil de executar. A ideia foi traduzir essas referências para uma escala possível e viável”, afirma a designer.
O projeto prevê a criação do Distrito Design Santos, com identidade visual unificada, redução da poluição visual, valorização das fachadas e ocupação estética de espaços hoje ociosos. “A ideia é limpar visualmente a rua. Fachadas fechadas seguindo a mesma linguagem, tudo em preto e branco, organizado. Bancos, pontos de ônibus, totens, tudo dialogando entre si”.
Entre os destaques do projeto está a criação de um “portal de entrada” simbólico para o distrito. “Distritos de design pelo mundo sempre têm um marco. Em Milão, é uma agulha gigante; em Miami, algo mais abstrato. Aqui pensei numa cadeira gigante, próxima à Câmara, que se tornaria um ponto turístico”.
O plano também inclui vegetação estratégica, como o uso de bambus nos postes, além de intervenções artísticas com artistas locais. “A proposta é trabalhar tudo em preto e branco, para que um trabalho não sobreponha o outro. Isso valoriza os artistas e preserva a identidade visual”.
Concurso e próximos passos
Graziela foi a vencedora da Mostra Arq Digital na categoria Soluções Urbanas com o projeto de revitalização da Av. Senador Feijó, o que abriu caminho para que a proposta começasse a avançar. Embora o concurso seja privado, o projeto ganhou força ao envolver diferentes atores. “Existe uma associação de lojistas da avenida, com cerca de 50 a 60 estabelecimentos. Eles querem essa melhoria. A associação fez doações, dialogou com a prefeitura e houve todo um processo político”.
Atualmente, a iniciativa caminha para se consolidar como uma parceria público-privada, envolvendo a Prefeitura de Santos, a Secretaria de Economia Criativa e os comerciantes locais. “Estamos alinhando o que a associação consegue investir, o que a prefeitura pode aportar, além da participação das secretarias de Turismo, Obras e Economia Criativa”.
Segundo a designer, o processo exige diálogo e adesão gradual dos lojistas. “Não dá para chegar impondo. Muitos estão ali há anos, acostumados com a rua daquele jeito. A mudança precisa ser aos poucos: apresentar o projeto, mostrar o 3D, explicar que, muitas vezes, é só pintar e padronizar. Quando veem que fica bonito e que isso vende mais, a mentalidade muda”.
Revitalização no Centro
A expectativa é que as articulações avancem a partir do início de 2026. Para Graziela, a proposta se conecta diretamente com o atual momento de transformação do Centro de Santos. “Vejo um empenho grande da prefeitura em revitalizar a região. Tudo isso muda o entorno. A Senador Feijó entra nesse movimento”.
No Centro Histórico, a revitalização também passa pela requalificação de ruas e eixos urbanos, com implantação de bulevares, paisagismo, mobiliário urbano e maior prioridade ao pedestre. A meta é estimular a permanência das pessoas, fortalecer o comércio local e tornar os espaços mais acolhedores para moradores e visitantes.
Outro eixo importante é a reabilitação de imóveis antigos, com incentivo ao retrofit — técnica que moderniza edificações preservando suas características históricas. Programas municipais e benefícios fiscais vêm estimulando a recuperação de prédios antes ociosos, atraindo novos usos, como moradia, serviços e empreendimentos criativos e culturais.
A cultura também desempenha papel central nesse processo. Equipamentos históricos, eventos públicos e iniciativas que incentivam apresentações artísticas em bares, restaurantes e espaços abertos ajudam a movimentar a região, especialmente no período noturno.
Para Graziela, o caminho passa por intervenções possíveis e crescimento gradual. “Se você começa com algo muito grandioso, não sai do papel. Quando se inicia pequeno, fica mais fácil avançar. As pessoas veem que funciona, que está bonito, e dá gosto de estar na rua”.


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