
Natália Brescancini, 40, é uma mulher multifacetada: artista visual, produtora cultural, pesquisadora e educadora, doutora em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pós-doutora em Bellas Artes, pela Universidad Complutense de Madrid, na Espanha. Desde a graduação, em 2007, sua investigação dentro da linha de pesquisa Poética Visuais alimenta a sua produção e vice-versa.
De espírito gregário, ela realiza projetos em rede, sobretudo com outras mulheres artistas, promovendo cursos, orientações, encontros e parcerias a partir do seu ateliê, o Jiboia, inaugurado há dois anos, num prédio histórico no Centro de Santos. O nome do espaço se deve à espécie de planta que mantém em casa e no ateliê, “a única que vingou sob meus cuidados”, brinca Natália, que completa: “é uma escolha baseada no fato de ser um nome dúbio, de planta e de cobra, e do significado desse animal dentro de diversas tradições de povos indígenas”.
Encontrar a sala de número 216, no segundo andar do edifício Pedro Santos, à Rua do Comércio, 25 (esquina com a Rua XV de Novembro) é uma aventura: após o visitante se identificar na recepção, sobe por um elevador pantográfico, que abre para um corredor imenso, adornado por azulejos originais e com placas indicando as salas de escritório. O ateliê Jiboia é identificado com uma pequena tela vermelha, com a imagem da planta que lhe dá o nome, pendurada à porta.
A ampla janela se abre para a agitada Rua João Pessoa, e para as copas das árvores da Praça dos Andradas. A luz natural preenche todo o espaço do ateliê, que, graças ao pé direito alto, possui um mezanino de madeira, onde Natália pinta e guarda suas telas de grandes dimensões. Na parte de baixo, duas grandes mesas servem às aulas individuais ou em grupos. Alguns trabalhos em monotipia estão pendurados num varal ao lado de uma pequena biblioteca, com pufes, cadeiras e tapete.
ESPAÇO
Natália nos recebe com um copo d’água e café passado na hora, enquanto apresenta o Jiboia e fala um pouco sobre a procura de artistas mulheres por seus cursos e orientações: “Existe uma produção feminina muito forte em Santos, e eu queria que o Jiboia fosse um espaço acolhedor e seguro para as artistas, inclusive ocupando o Centro Histórico, que tem um imaginário de medo, pois todo centro de cidade é hostil aos nossos corpos”, reconhece.
Em seus projetos, Natália investiga a produção autorreferente de mulheres artistas, linhagem feminina e memória, trabalhando principalmente com retrato e autorretrato por meio da pintura, desenho, livros de artista e arte de ação, em processos autobiográficos e de escuta com mulheres.
JORNADA
Nascida em Jundiaí, filha de pais matemáticos, Silvia e Arnaldo, Natália passou um périplo antes de se radicar em Santos, em 2012: morou em Campinas, durante a faculdade, entre 2003 e 2007; mudou-se para São Paulo logo após a formatura, onde conheceu seu marido, o ator e diretor Erik Morais, com quem fundou o coletivo (a)gente; e começou o mestrado em Poéticas Visuais, também na Unicamp, indo e voltando à Capital.
“Depois de quase cinco anos de São Paulo, resolvemos dar uma escapada, e escolhemos morar em Santos”, conta Natália, que logo ganhou bolsa de estudos para doutoramento pela Unicamp, que concluiu em 2016, emendando num pós-doc, em Madri, onde morou entre 2018 e 2019. “Meu processo de criação ficou muito vinculado à pesquisa dentro da linha Poéticas Visuais, que tem um jogo entre o fazer e o refletir sobre o fazer, de buscar referências e conceitos. Em meu trabalho artístico, eu vou construindo pesquisas, num processo que tem muito a ver com a experiência acadêmica”, relaciona.
Em seu ateliê, uma paleta de cores quentes descansa sobre uma das mesas, que Natália preparou com tinta acrílica, para continuar a pintura de uma tela na qual retrata sua avó materna, já falecida, Dorothy (a quem Natália chama, afetivamente, de Dorotí, com ênfase no “i): “Minha avó vivia me corrigindo, mas desde criança eu a chamo assim”, lembra a artista, que se baseou numa pequena foto preto e branco para realizar a pintura, que integra a série Antes de Ser Vó. “Meu desejo é buscar que mulher foi essa, que relações que ela tinha, as histórias que foram ficando de fora com o Alzheimer (doença que acometeu sua avó e piorou durante a pandemia de Covid-19)”, conta.
TRABALHO
Antes de Ser Vó integra o projeto Entre Apagamentos e Afetos, iniciado em 2021, a partir dos prints (captura de imagens) das chamadas de vídeo com a avó Dorothy, durante o distanciamento social causado pela pandemia. “Minha avó em Jundiaí e eu morando em São Paulo, ela com o Alzheimer avançando, tendo minha tia como principal cuidadora e a minha mãe ali, transitando. Elas passaram a me ligar, em chamadas de vídeo, e, para a minha avó, eu fui deixando de ser a neta, e virei a moça que ia para o café, alguém que a visitava. Tinha momentos em que ela falava comigo normalmente, em outros, ela queria me dar bolo pela tela”, lembra.
As imagens capturadas inspiraram uma série retratos da avó, feitos a nanquim, que resultaram em exposição virtual e livro. Dorothy morreu durante a produção desse material: “O livro saiu muito atravessado pelo luto, e as pinturas aconteceram depois disso, com uma exposição virtual e, ainda, em outra série de pinturas, chamada ‘Mãos’, com recortes feitos de nossas mãos”.
Em seu ateliê, sentada num banquinho, com uma grande tela encostada na parede, Natália dá pinceladas delicadas, recriando a carnalidade de seu antepassado feminino, numa antropologia muito pessoal, perpassada pelo afeto e pela saudade.
Reportagem realizada em 26 de junho de 2025. @jiboia_atelie.
Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla está publicando um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio. A exposição coletiva dos 10 artistas ficou em cartaz até o dia 28 de novembro, na Galeria Braz Cubas, no Centro de Cultura Patrícia Galvão. Os 10 artistas também integram o material de um livro, que foi lançado em outubro pelos jornalistas.



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