Cena

As artes como instrumento de resgate e superação

11/10/2025 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

Entre cursos, projetos culturais e experiências pessoais marcantes, a artista gráfica e educadora Márcia Okida construiu uma trajetória de resistência, aprendizado e transformação. Ela integra o curso de Promotoras Legais Populares (PLPs), iniciativa nacional que capacita mulheres – não necessariamente advogadas – a conhecer e defender direitos femininos, sobretudo em casos de violência de gênero. “Tem coisas que me deixam pensando: ‘Caramba, nós mulheres não temos ideia de tanta coisa que existe’. E tantos absurdos… O atraso histórico entre homens e mulheres é impressionante”, observa.

Dessa vivência nasceu a série Violência Silenciosa, publicada em seu Instagram @marciaokida. Nos vídeos semanais, Márcia aborda desvalorização profissional, assédio e outras formas sutis de agressão. “Passei por situações em que diminuíram meu trabalho e minha profissão… Decidi mostrar que a violência não é só física; ela pode ser moral, intelectual ou emocional, e muitas vezes a gente nem percebe”.

Em 2024, Márcia lançou o livro de crônicas Márcia Okida: cores, formas e sonhos possíveis, que mistura memórias pessoais, reflexões sobre violência e o processo de cura pela arte. A obra, já em sua segunda edição esgotada, surgiu após sua homenagem na 8ª edição do Santos Film Fest, em 2022.

Nos debates do festival, decidiu tornar pública uma dor guardada por mais de 40 anos. “Guardei esse segredo até 2020. Quando contei para minha irmã, ela chorou e brigou comigo: ‘Por que você nunca me falou?’. Eu não me sentia pronta para compartilhar essa parte da minha vida ainda”.

A crônica inaugural, A Busca, narra o abuso que a autora sofreu aos 10 anos por pessoas próximas à família. “Eu me vi no fundo do poço. A única pessoa que me acolheu foi minha tia Beth, que me apresentou à arte. Sem ela, não sei como teria sobrevivido. De verdade, a arte foi a minha grande terapia”.

Luta e ressignificação

O ativismo de Márcia ganhou força no Coletivo Chega – Observatório de Violência Contra a Mulher, onde compartilhou publicamente sua história de abuso. Surgiu a série Chega: Violência Contra a Mulher – Interferência na Obra, em que ela cria releituras de pinturas consagradas, marcando cicatrizes sobre figuras femininas para denunciar séculos de violência. “Toda mulher, seja na arte ou na vida real, já sofreu algum tipo de violência. Eu machuco essas obras para mostrar que essa dor atravessa a história”.

Crescida em ambiente artístico, Márcia herdou referências culturais desde cedo. “Minha mãe era amiga de Plínio Marcos. Meu pai fazia cinema, foi um dos precursores do Super 8 Bar e Cineclube, dedicado ao audiovisual independente em Santos e ganhou vários prêmios. Mesmo sem falar muito comigo, ele me ensinava a fazer. Aprendi muita coisa com ele. Não consigo imaginar outro caminho que eu tivesse”, lembra.

Aos 17 anos, já dava aulas; hoje soma quatro décadas de carreira. Atuou no teatro amador, no canto e em diversas linguagens, mas se consolidou como professora de design e direção de arte, lecionando atualmente no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS). “Nunca me imaginei fazendo outra coisa. Este ano completo 40 anos de trabalho”.

Refletindo sobre sua trajetória, Márcia afirma que falar sobre violência é libertador não apenas para quem sofreu, mas também educativo para a sociedade. “Essa história tem mais a ver com os homens do que com as mulheres. São eles que precisam aprender muita coisa. Acredito que a pessoa pode mudar, sim – mas só se reconhecer que estava errada”.

Entre arte, memórias e ativismo, Márcia reafirma sua fé na transformação. “Se gosto de quem sou hoje, devo a tudo que aconteceu na minha vida. Não agradeço a violência sofrida, mas agradeço a forma como lidei com ela. E se posso ajudar outras pessoas com isso, então valeu a pena”.