Cena

Artista visual santista investiga o tempo em exposição inédita

12/11/2025 Isabela Marangoni
Raphael Ângelo

A artista visual Camila Bernardo, conhecida no meio artístico como Mila, apresenta sua maior exposição individual até hoje: “Inventário: O tempo nas coisas”, em cartaz na G. Galeria, na Vila Matias. A mostra convida o público a refletir sobre o tempo e a vida dos objetos, revelando o potencial poético do que foi descartado. A visitação é gratuita e vai até 6 de dezembro, de quarta a sábado.

A artista desenvolve uma pesquisa que transita entre colagem, pintura, instalação e assemblage, tendo como eixo o reaproveitamento de materiais. Sua produção parte da relação entre o humano e os objetos — as marcas, memórias e vestígios que o tempo imprime nas coisas.

A mostra reúne 47 obras inéditas, resultado de três meses de imersão criativa em que Mila se dedicou integralmente à construção de um conjunto coeso e narrativo. “Foi uma loucura total”, conta. “Fiquei 100% imersa nesse trabalho porque queria criar um corpo de obras que realmente dialogasse entre si, com uma linha narrativa em que tudo se conversasse”.

A proposta surgiu após uma exposição menor realizada no Futrica Economia Criativa, no início do ano. Desta vez, o objetivo foi expandir a reflexão sobre tempo, memória e materialidade — temas recorrentes em sua trajetória. “Gosto muito de reutilizar materiais. Já tinha séries feitas com discos e livros, mas quis ir além. Tudo começou com um pianinho usado que comprei, e depois fui achando, comprando e ganhando outras coisas”, explica Mila.

Entre os materiais estão livros, discos, pandeiros, carteiras escolares e um piano infantil. “As carteiras, por exemplo, foram penduradas no teto. Rodei a Baixada Santista atrás de duas que servissem para virar obra. Ficaram prontas no dia anterior à inauguração”, conta, rindo.

O conceito do tempo, segundo a artista, emergiu naturalmente a partir dos próprios objetos. “Foi uma reflexão sobre por quantas mãos eles já passaram. Nada nos pertence de fato — as coisas estão só emprestadas para gente. O nome provisório da exposição era, inclusive, Empréstimos”.

Essa investigação aparece também em um autorretrato instalado na fachada da galeria, dentro de um relógio antigo de mais de 1,20 metro — uma metáfora visual da inevitável passagem do tempo, inspirada na obra Sísifo, presente no interior da mostra. “Era um relógio de bolso quebrado, e relacionei com o mito de Sísifo e a ideia de carregar o tempo nas costas. Quando o Felipe [Landahl, curador da mostra] sugeriu um mural, pensei nesse autorretrato dentro do relógio. Achei que sintetizava bem o conceito do inventário e do tempo nas coisas”.

No texto curatorial, Felipe Landahl define a exposição como “uma escavação poética que vasculha os resíduos da vida cotidiana para revelar, entre objetos desgastados e vestígios de infância, as camadas invisíveis do tempo. Nada aqui é apenas o que parece: tudo guarda histórias”.

Formada em Design Gráfico, Camila nunca teve formação acadêmica em pintura — o que explica a liberdade e experimentação em suas técnicas. “Comecei na tentativa e erro. Fico entediada com facilidade, então estou sempre querendo misturar, experimentar. Tem uma obra feita num disco com 25 cigarrinhos de argila pintados à mão. São pequenos detalhes que às vezes passam despercebidos, mas adoro essa materialidade, essa fuga da tela retangular”.

A artista pretende ainda aproximar o público de seu processo criativo com visitas guiadas e oficinas. “Trabalho sozinha no ateliê, então não tenho muita troca. Na inauguração, uma senhora me pediu para explicar três obras — e foi muito interessante. Quero repetir isso, conversar e ouvir o que as pessoas veem”.

Mais do que falar sobre o tempo, Mila quer provocar uma relação afetiva com os objetos. “Quero que as pessoas olhem para as coisas de outra forma — não de maneira materialista, mas pensando nas histórias que elas carregam. Ao mesmo tempo em que trazem uma sensação de posse, também lembram que nada nos pertence de verdade”.

Ela acredita que o público se reconhecerá nas obras. “Muita gente se emociona. Fiz algumas peças com joguinhos antigos, e as pessoas diziam: ‘Nossa, quanto tempo não via isso!’. São temas sérios, mas tratados com leveza”.

Com obras já expostas no exterior — como Bound and Unbound VIII, na Universidade da Dakota do Sul —, Mila percebe diferenças na recepção do público internacional. “Lá fora, o trabalho costuma ser mais valorizado, mas é uma questão de público. No Brasil, as pessoas estão começando a entender que arte não precisa estar emoldurada, com vidro e moldura. Um piano na parede também pode ser arte”.

A relação com a G. Galeria começou de forma curiosa. “Foi numa exposição no Trem Bélico. O Felipe, um dos donos da galeria, viu uma obra minha e comentou com a minha mãe: ‘Essa é uma das melhores artistas de Santos’. Ela me mandou ir falar com ele — e aí começou tudo”, lembra.

Mais do que reconhecimento, Mila espera que o público saia tocado e atento. “Espero que as pessoas parem um pouquinho para olhar as coisas ao redor, que normalmente passam despercebidas. Que a exposição traga boas reflexões — e também boas memórias”.