
O futebol como fenômeno cultural, político, histórico e até mitológico conduz o novo livro do jornalista e escritor Ariel Palacios. Em ‘Futebol Lado B – Entre deuses, dribles, ditadores e delírios’, lançado pela Globo Livros, o correspondente internacional da GloboNews reúne histórias curiosas, reflexões e episódios pouco conhecidos para mostrar que o esporte ultrapassa as quatro linhas e se conecta diretamente à cultura, à política e à identidade dos povos.
O lançamento acontece neste sábado (23), a partir das 16h, na Realejo Livros (Avenida Marechal Deodoro, 2 – Gonzaga). A programação inclui bate-papo com o autor, música ao vivo e sessão de autógrafos. A obra também está disponível no site da editora.
A ideia do livro nasceu de décadas de observação jornalística e do interesse de Palacios em investigar os bastidores sociais e culturais do futebol. “Eu gostava de contar esse outro lado, mostrar o lado político, gastronômico e cultural. Também gostava muito de derrubar mitos”, afirma. Segundo o jornalista, o livro não é um almanaque de curiosidades ou estatísticas, mas um olhar amplo sobre o esporte. “O futebol é cultura, política, memória, identidade coletiva. Está entrelaçado com todas as coisas da sociedade”.
Futebol, ritual e história
Ao longo da obra, o autor percorre desde práticas ancestrais até episódios históricos marcados por guerras e disputas ideológicas. Entre os temas que mais o impressionaram durante a pesquisa está o kemari, jogo medieval japonês em que os participantes cooperam para impedir que a bola toque o chão, sem vencedores nem derrotados. “É um jogo solidário, uma filosofia sublime”, comenta.
Outro episódio que chamou sua atenção foi o pok-ta-pok, praticado por maias e astecas há mais de mil anos. “A bola simbolizava o sol, então ela não podia cair. Quem perdia era sacrificado”, comenta. “Os jogadores de futebol de hoje não podem reclamar quando são xingados”, brinca.
Com narrativa que mistura humor, reportagem e história, Palacios revela como o futebol se relaciona com a geopolítica, a arte e os movimentos sociais. O autor também analisa o uso político do esporte ao longo do século XX. “A Copa de 1930 ainda era um futebol inocente politicamente. Isso muda na Copa da Itália, em 1934, com Mussolini usando o futebol de forma populista para exaltar o regime fascista”, afirma. Segundo ele, a partir dali governos e ditaduras passaram a utilizar o esporte como ferramenta de propaganda e nacionalismo.

Futebol e cultura
O livro também aborda a presença do futebol nas artes e na produção intelectual. “Dmitri Shostakovich fez um balé sobre futebol, William Shakespeare faz referências ao esporte em suas peças, Albert Camus e Jean-Paul Sartre escreveram sobre futebol”, destaca. “O futebol foi entrando gradualmente na cultura até se tornar parte inevitável dela”.
Entre os relatos mais emocionantes da obra está a chamada Trégua de Natal de 1914. Em meio aos combates entre soldados ingleses e alemães nas trincheiras francesas, uma partida improvisada simbolizou um raro momento de paz. “Alguém apareceu com uma bola e começaram a jogar. Colocaram capacetes para marcar o gol. Foi um momento emocionante em meio ao horror da guerra”, conta. “Depois, os governos e os generais trataram de acabar com aquilo porque não interessava essa confraternização”.
Esporte como reflexo social
Embora reconheça que o futebol ajuda a compreender aspectos de uma sociedade, Palacios faz ressalvas sobre generalizações. “O futebol explica parcialmente a identidade de uma parte da população. Nunca um país inteiro”, pontua. “As identidades são multifacetadas. É preciso cuidado para não cair em clichês sobre brasileiros, argentinos, alemães ou qualquer outro povo”.
O processo de escrita levou cerca de dez meses, mas a pesquisa foi construída ao longo de mais de duas décadas de trabalho jornalístico. Segundo o autor, diversos temas ficaram para um segundo volume, incluindo reflexões sobre a Copa do Mundo FIFA de 2026 e os impactos políticos do torneio nos Estados Unidos.
Para o público, a proposta é dialogar tanto com apaixonados por futebol quanto com leitores que normalmente não acompanham o esporte. “O futebol é o idioma principal do livro, mas não é o único idioma”, resume. “É um panorama amplo e não convencional sobre esse jogo que ocupa um espaço tão imenso nas nossas emoções e disputas simbólicas”.


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