Cena

‘Antropoceno’ investiga colapso ambiental em performance inédita

10/12/2025 Isabela Marangoni
Matheus Vasco

O artista visual, performer e ator Lípari apresenta ao público a primeira etapa de Antropoceno, projeto que nasce de mais de uma década de investigação artística e territorial em Cubatão e marca a inauguração do Projeto de Solos do Coletivo 302. A criação propõe uma discussão acessível sobre a hipótese científica do Antropoceno — a era em que a humanidade provoca mudanças irreversíveis nos processos biofísicos do planeta.

Com dramaturgia de JùpïRã Transeunte e direção musical de Marcos dos Santos, a obra transforma temas complexos — geopolítica, antropologia, sociologia e geologia — em debate público aberto a diferentes classes sociais e níveis de conhecimento. A programação começa hoje (10) no Galpão Cultural, com a abertura da instalação performativa. Na quinta (11) e sexta-feira (12) acontecem as apresentações dos experimentos, e no sábado (13) o ciclo se encerra com um bate-papo com o Coletivo Évora, sobre o tema “Cidades e estratégias para barrar o nosso fim”.

Pesquisa
Lípari explica que o projeto é fruto de um percurso contínuo. “Pesquisei a cidade de Cubatão por muitos anos para os espetáculos Vila Paris e Vila Socorro, que investigavam seu processo de industrialização. A partir disso, fui percebendo questões sobre clima, terra e pautas ambientais de maneira muito mais profunda”.

Ao ampliar o olhar, encontrou no conceito de Antropoceno — ainda debatido na comunidade científica — o ponto de partida para a nova criação. “Essa hipótese fala sobre a mudança permanente que a humanidade causou no planeta. Chegamos a um ponto irreversível, em que as coisas não voltam ao estado natural”, afirma.

Arte como aviso
Reconhecendo a necessidade de ampliar o acesso às discussões climáticas, Antropoceno promove uma convergência entre arte e ciência. O teatro funciona como mediador, desmistificando a ideia de que países do Sul Global são apenas emissores de impactos ambientais. “A arte traduz o que é complexo. Quero colocar essa discussão na mesa de maneira simples e acessível”, diz o artista.

Para ele, a urgência é inegável. “Eventos climáticos extremos já mostram que pessoas em situação de vulnerabilidade sofrem muito mais — pessoas pobres, indígenas, ribeirinhas, moradores de favelas, pessoas LGBTQIA+. Precisamos discutir a pauta climática de forma nítida, para que ela não vire lenda nem caia no negacionismo”.

Arte e ciência
Lípari acredita que o teatro acessa camadas que a ciência não alcança. “Quando bem executada, a cena muda experiências e até rumos de vida. Faz a pessoa sentir quase em primeira pessoa. A ciência exige uma busca ativa e uma bagagem que nem todos têm. Meu trabalho tenta fazer essa tradução”.

O projeto também desloca o foco das narrativas ambientais. “O espetáculo traz o Sul Global como protagonista, para descentralizar o eixo norte-americano e europeu. Nosso caminho até o Antropoceno teve muito sofrimento aqui. A revolução pode começar no Sul Global”.

Criação compartilhada
O processo é assinado em parceria com o diretor Douglas Lima, colaborador de mais de dez anos. “Trabalhar com o Douglas é sempre um prazer. Confio muito na percepção sensível dele”. A equipe conta ainda com Marcos dos Santos na sonoplastia e JùpïRã Transeunte na dramaturgia e pesquisa geográfica. “Essa combinação trouxe algo muito potente ao processo”, diz.

Transformando ciência em cena
Entre os maiores desafios está a tradução dos conceitos científicos. “Ler artigos, livros, teses e transformar isso em performance foi a parte mais difícil. Por isso, esta primeira etapa é um processo aberto: queremos a devolutiva do público para não ficarmos presos a uma linha que não comunique”.

Atividades e oficina
A programação reúne instalação performativa, apresentações experimentais e bate-papo com o Coletivo Évora. Na semana seguinte, Lípari conduz a oficina Ecos do Antropoceno, aberta a pessoas acima de 16 anos, com ou sem experiência.

Como contrapartida, ele oferece ainda uma oficina gratuita nos dias 16, 17 e 18 de dezembro, das 19 às 20 horas, no Galpão Cultural, sobre performance como ferramenta de enfrentamento da crise ecológica. A atividade explora corpo, paisagem, tecnologia e vestígio como motores de criação.

Transformação pessoal
O processo também mexeu profundamente com o artista. “Entendi que tudo no sistema Terra está interligado. Saio desse projeto mais sensível — e isso aumenta até a dor da existência, ao perceber que algumas coisas estão muito longe de serem mudadas”.

Lípari deseja que a experiência reverbere para além da sala. “Espero que o público saia mais consciente e que suas escolhas políticas estejam mais alinhadas ao que o planeta precisa. Se as pessoas perceberem o que acontece por trás dos panos, o espetáculo já cumpriu seu papel”.

E deixa um alerta final. “Temos pouquíssimo tempo para que todos se conscientizem de forma ativa. As mudanças climáticas extremas estão acontecendo agora, não daqui a 50 anos. Quanto antes pensarmos no coletivo, menos doloroso será”.