Cena

Alê Vilaverde, talento que vem de berço e paixão pelas artes

04/10/2025 Da Redação
Claudio Vitor Vaz

Alê Vilaverde não sente necessidade de definir seu trabalho artístico. “Eu sou muitas em uma só. Não consigo ser aquela artista que faz somente uma coisa para definir sua marca. O que tenho definido em mim é que eu falo do feminino, e a relação disso com o mundo, a natureza, o amor, a fé”.

Com mais de 15 anos dedicados à pintura, ela costuma produzir diferentes séries ao mesmo tempo. Durante essa entrevista, Alê pintava a terceira tela para a série intitulada “Trampolim”, com a figura de mulher prestes a se jogar num vazio vermelho.

Nascida em São Vicente e radicada em Santos, num apartamento-ateliê no bairro do Campo Grande, Alessandra Vilaverde Ruta Lopes é amadora no sentido literal da palavra: ama mesmo as artes visuais, e pinta por necessidade de expressão. “Minha mãe fala que eu tenho alma de artisata, fui sempre um peixinho fora d’agua, olhando o lado sensível das coisas”, conta.

Ela reconhece que o fato de ter um pai artista (o “seu” Zuza) lhe deu acesso aos materiais e às referências culturais, pois cresceu vendo-o pintar e escutar música boa. Contador de profissão, Zuza desenhava e pintava por hobby, e assinava suas telas como Vilaverde.

“Meu pai era um multiartista, compunha, cantava e pintava. A primeira vez que fiz um quadro, foi por volta de 10 anos. Meus pais saíram pra jantar, eu entrei no quarto onde ele guardava o material, peguei uma plaquinha de eucatex e fiz um quadro com tinta a óleo”, lembra Alê, que, em vez de levar bronca do pai, foi inscrita por ele num salão de artes em Santos. “Posso dizer que participei do meu primeiro salão aos 10 anos de idade”, diverte-se.

Apesar do início promissor, Alê não seguiu formalmente nas artes visuais. “Sempre desenhei, pintei, fui bailarina, modelo, e cantei por bastante tempo”, enumera, mas seguiu o conselho de sua mãe para estudar contabilidade – conhecimento que aplicou durante os 13 anos em que ajudou na administração do empreendimento dos seus pais. “Eu trabalhava com eles, e foi um aprendizado maravilhoso.

Infelizmente, perdi meu pai para a Covid-19, pouco antes de chegar a vacina”, lamenta a artista, que decora uma parede da sala com três pinturas do “seu” Zuza.

A ÚNICA ARTISTA

Alê tem quatro irmãos. Nasceu na festa de aniversário de 3 anos de um deles. “Brinco que nasci querendo festa”, diz ela, que foi a única a ir para as artes plásticas e que, por sua vez, virou a referência artística da família que formou com o marido, o funcionário público Antonio Ruta.

As duas filhas do casal, Carolina, 34 anos, e Giulia, 30, cresceram vendo a mãe pintando esporadicamente. “Enquanto as meninas estavam por aqui, correndo de lá pra cá, eu pintava como hobby, pois gostava muito desse lado de cuidar das crianças. Quando elas foram estudar e morar em São Paulo, não sei se foi por causa da síndrome do ninho vazio, decidi me dedicar à carreira, participando de exposições e feiras, mas só depois dos 40 anos.”

O apartamento-ateliê de Alê parece uma galeria alternativa, com pinturas em papel craft, telas e painéis, objetos e desenhos de sua autoria, espalhados pela cozinha, sala, corredores, quartos. “Todo mundo é ligado em artes aqui em casa. Meu marido é o maior leitor, e ele escreve muito bem, tem coisas guardadas, esperando”, orgulha-se. As filhas foram para a comunicação: Carolina fez Jornalismo, com mestrado em Ciências da Comunicação pela USP, e Giulia formou-se em Comunicação e Multimeios pela PUC-SP.

Entre as referências artísticas de Alê, estão Frida Kahlo, Tarsila do Amaral e Cândido Portinari, mas o que gosta mesmo é de ser espectadora: “Sou apaixonada pela arte dos outros, gosto muito de fazer, mas gosto muito mais de olhar, de ter acesso, pois a maior riqueza que tem nesse mundo não é o luxo, mas ter acesso à cultura”.

Seu cavalete é montado na sala, e Alê pinta acompanhada da cadelinha vira-lata Marie (homenagem à cientista franco-polonesa Marie Curie), cercada de livros de escritoras como Bell Hooks (que a alimentam de temas para novas pinturas) e de cantores e compositores da MPB (que ela escuta enquanto dá forma e cor às suas etéreas figuras femininas).

“Tudo me inspira, começando pelo meu pai e pela minha mãe, que me ensinaram que dá para ser forte e doce ao mesmo tempo. O lado espiritual vem da minha mãe, que é aquela que vai à igreja e ao centro, que tem todas as religiões como suas. Eu estudei o espiritismo durante muitos anos, desenvolvi esse lado e, hoje, me sinto espiritualista, acredito que o mundo espiritual é o real”.

Alê não tem pressa para deslanchar como pintora: “Encaro a minha carreira como um estilo de vida, mais do que uma profissão. Não gosto de colocar pressão numa coisa que quero fazer por amor”, declara. Ela também faz parte do coletivo La Santista, com coletivas e intervenções em espaços públicos de Santos. “Independentemente se alguém gostar ou não, vou continuar fazendo, porque é uma necessidade da minha alma. Quero participar de salão? Quero, mas se eu conseguir inspirar alguém com o meu trabalho já está bom”, espera.

Reportagem realizada no dia 30 de maio de 2025. @alevilaverde

Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla está publicando um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio, que vão integrar um livro e também serão tema de uma exposição no Centro de Cultura Patrícia Galvão.