
Adriano Dicart, 44, é um dos nomes que despontam da nova cena artística da Baixada. Envolvido em coletivos, movimentos e eventos que unem música, tatuagem, arte de rua e pintura de telas e murais, Dicart é artista autodidata, sensível ao seu tempo e ao meio ambiente, e conectado ao seu chão e às suas raízes.
Nasceu Adriano Azevedo Soares, na Zona Noroeste, e cresceu Dica, apelido que ganhou dos amigos da rua ao rebater a bola “de canela” (leia-se “di canela”) num jogo com amigos na rua: “Di canela virou Dica e aí pegou, depois, resolvi juntar a palavra ‘art’, em inglês, ao apelido, e agora é meu nome artístico”, conta ele, em sua casa-ateliê, na mesma residência em que cresceu, na Zona Noroeste (ZN), na frente a um morro verdinho, sem ocupação, que liga a terra ao céu.
Sua obra é visualmente impactante, vigorosa, intuitiva. Nasce de sua religiosidade de matriz africana, de suas memórias, sonhos e cenas que vê pelas ruas, de ônibus, ou pela TV, e, principalmente, da música, sua maior inspiração. Enquanto pinta, escuta bandas como Coldplay, Pearl Jam, Smashing Pumpkins e The Verve.
Há telas de sua autoria por toda a casa, e o material de pintura se espalha pela mesa da cozinha, com suporte para desenho, rascunho e pintura de pequenas telas, e muitos potes de tinta acrílica no lugar de temperos. Ali, enquanto toma café, almoça ou janta, ele anota e rascunha ideias e finaliza pinturas. “Eu quase me alimento de arte”, brinca.
Num cavalete montado na sala, em meio a instrumentos musicais e amplificadores, Dicart finaliza uma de suas pinturas maiores, com os signos e símbolos que fazem parte de sua identidade como artista, partindo da arte africana e de movimentos e nomes do cubismo e do surrealismo europeu.
Segundo o artista, entre as características visuais que se veem na tela, estão: a figura humana com cabeça quadrada e triangular, remetendo a uma casa e seu telhado (morada da alma); a escada, que simboliza evolução; a Lua, que denota movimento e rege as águas; o Sol, que rege nossa galáxia; a água como os sentimentos humanos (voláteis e volúveis); o peixe, que faz referência à cultura caiçara; a árvore, com suas raízes e folhas representando ancestralidade e cura, respectivamente.
Enquanto Coldplay toca “Yellow” na playlist do artista, ele fala de sua trajetória: “Meu começo nas artes foi com quadrinhos (HQs), aprendendo a fazer anatomia do corpo humano para depois desconstruir. Primeiro, fui para a tatuagem, minha profissão, e então eu senti vontade de desenvolver um desenho que tivesse a minha identidade, e encontrei referências no cubismo, no surrealismo, na arte africana e nos desenhos rupestres”.
São 40 anos desenhando, mas fazendo pintura, são 12. “Sou autodidata em tudo, na vida, na tatuagem, no desenho, não tive formação acadêmica, sempre peguei detalhes de outras pessoas, de artistas famosos que eu me inspiro, como Jean-Michel Basquiat (1960-1988), um artista que começou na rua.”
Foi por volta de 2014 que Dicart sentiu que precisava se aprofundar num estilo de pintura se quisesse se destacar e deixar sua marca no meio e no público. “Eu também faço retrato, um desenho mais realista, gosto de misturar os estilos, para dar um choque e uma identidade visual. Isso vem da arte da rua, do grafite, em São Paulo tem um monte de arte assim”, compara.
Um dos suportes para as artes que mais impressionaram o artista quando menino foram as capas e encartes de discos de vinil e CD. “Na música, quando eu era pequeno, gostava muito de ver capa de disco, observava os desenhos, meu sonho era fazer capa, e eu sempre associava a música às artes plásticas, como se fosse um livro, não só a arte sonora, mas a visual”, lembra Dicart, que canta, escreve letras e toca guitarra: “Na música, eu também sou autodidata. Tenho uma banda, chamada Casa Imaginária, onde comecei tirando tudo de ouvido, não sei o nome de uma nota”.
Sua relação com a religiosidade começou na umbanda: “Para mim, é a base, é a caridade, é falar diretamente com a espiritualidade, meu desenho conversa com isso, e as pessoas identificam os elementos do candomblé, umbanda e do espiritismo na minha pintura”, conta.

Paralelamente à sua pintura de temas variados, Dicart se dedica a uma série de orixás, para, como ele diz, “ter um giro de vendas, porque a arte que eu faço não é muito vendável, as pessoas não têm costume de comprar”, diz o artista, que já ilustrou a capa do Guia de Bares e Restaurantes de Santos, da Revista Nove, e realizou um mural no Beco San Martin (antigo Beco da Morte), em São Vicente, levando cor, beleza e alegria para um cenário que, no passado, foi de muita tristeza.
Integrante dos coletivos La Santista e Sardinhada, e autor do projeto POP (Pare, Olhe e Pense), que mistura a arte dos lambe-lambes com reproduções de suas pinturas em tela, Dicart lamenta não haver, em Santos, um cenário muito propício ao fomento das artes visuais. “Estou indo mais para são Paulo, para ver exposições, conhecer galerias, pois só ficar em Santos não adianta para o artista, acontece tudo em São Paulo, aqui é de vez em nunca”, diz, mas reconhece que algo está começando “a movimentar, com a abertura de quatro novas galerias na Cidade, o que vai fazendo que o povo se acostume com os valores da arte, que não pode ser tão barata”.
Dicart não demonstra ansiedade com sua carreira, e comemora o momento atual: “Eu já fui escravo e morri velho dentro do casarão, descobri isso num terreiro em que eu trabalhava, e daí veio o entendimento para o que sou hoje, pois fui cativo na outra vida, séculos atrás. Hoje, tenho a recompensa de fazer o que quero. Não tenho filho, não tenho esposa, estou livre, leve e solto, vivo para a arte e para a música”.
Reportagem realizada no dia 13 de maio de 2025. @adrianodicart
Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla está publicando um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio, que vão integrar um livro e também serão tema de uma exposição no Centro de Cultura Patrícia Galvão.



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