Cena

‘A História Sem Fim’, um clássico dos anos 80 que enfureceu seu autor

07/10/2025 Gustavo Klein
Divulgação

Nos anos 1980, o Brasil vivia uma efervescência cultural marcada pela abertura política, pela explosão do videocassete e pela chegada de produções estrangeiras que moldaram o imaginário de toda uma geração. Entre elas, poucas causaram tanto impacto quanto A História Sem Fim, filme alemão lançado em 1984 e dirigido por Wolfgang Petersen.

Baseado no livro homônimo do escritor Michael Ende, o longa se tornou um fenômeno de bilheteria no país, conquistando crianças e adultos com sua estética fantástica, personagens memoráveis e uma trilha sonora que virou hit nas paradas musicais. A canção-tema, interpretada por Limahl, embalou sonhos e danças, tornando-se um dos maiores sucessos radiofônicos da década.

A trama acompanha Bastian, um garoto solitário que sofre bullying na escola e encontra refúgio nos livros. Ao fugir de colegas que o perseguem, ele se esconde em uma livraria e descobre um livro misterioso: A História Sem Fim. Ao começar a leitura, Bastian percebe que está envolvido na narrativa, que se passa em Fantasia, um mundo mágico ameaçado por uma força destrutiva chamada “O Nada”. Lá, o jovem guerreiro Atréyu é convocado para salvar a Imperatriz Criança e restaurar a esperança no reino. A cada página, Bastian se vê mais conectado à história, até perceber que sua imaginação é a chave para salvar Fantasia.

O conceito de Fantasia como um mundo criado pela imaginação humana é central na obra. O Nada, por sua vez, representa a perda da capacidade de sonhar, a apatia, o esquecimento. A destruição de Fantasia é, portanto, uma metáfora para o colapso da criatividade e da esperança. O filme celebra o poder da imaginação como força vital, capaz de transformar realidades e curar feridas emocionais. Essa mensagem ressoou profundamente com o público brasileiro, que vivia um momento de transição e buscava novos horizontes após anos de repressão.

Os personagens de Fantasia são ricos em simbolismo. Atréyu representa a coragem e o sacrifício; Falkor, o dragão da sorte, é a personificação da esperança; o gigante de pedra, o caracol veloz e outros seres fantásticos compõem um mosaico de arquétipos que reforçam a ideia de que a imaginação é plural e essencial.

A Imperatriz Criança, figura central da trama, é retratada como uma entidade pura e benevolente, cuja salvação depende da intervenção de Bastian — que precisa dar um novo nome a ela para que Fantasia renasça.

No entanto, essa representação está longe da visão original do autor. Michael Ende, escritor alemão responsável pelo livro que inspirou o filme, ficou profundamente insatisfeito com a adaptação. Ele chegou a pedir que seu nome fosse retirado dos créditos, alegando que o longa distorcia completamente a mensagem da obra.

Para Ende, a versão cinematográfica transformava uma história filosófica e complexa em um conto superficial voltado apenas para o entretenimento. A crítica mais contundente dizia respeito à Imperatriz Criança, que no livro não é uma figura inocente, mas sim a grande vilã da história.

Ela manipula Bastian para seus próprios fins, conduzindo-o por uma jornada de vaidade e poder que culmina em sua transformação em um tirano dentro de Fantasia.

EDIÇÃO MARCANTE

O livro original, lançado em 1979, chegou ao Brasil com uma edição peculiar e marcante: os trechos que se passavam no mundo real eram impressos em vermelho, enquanto os que se desenrolavam em Fantasia vinham em verde. Essa escolha gráfica reforçava a dualidade entre os dois mundos e ajudava o leitor a navegar pela narrativa complexa.

A obra de Ende é uma crítica à sociedade moderna, à perda de valores espirituais e à banalização da fantasia. Ao contrário do filme, que termina com a salvação de Fantasia, o livro continua com a jornada de Bastian, que se perde em seus próprios desejos e precisa aprender a renunciar para encontrar o caminho de volta.

Uma das maiores fãs brasileiras da obra original é a atriz e cantora Lucinha Lins, que tem vários exemplares em casa e de vez em quando presenteia um amigo com uma cópia. “Quando preciso dar uma boa chacoalhada em alguém, dou este livro de presente para a pessoa”.

Apesar das divergências entre autor e cineastas, A História Sem Fim se consolidou como um clássico do cinema. No Brasil, sua exibição em salas lotadas e posteriormente nas tardes de televisão marcou a infância de milhões.

A estética do filme, com efeitos especiais inovadores para a época (mesmo que hoje eles pareçam bastante datados, para dizer o mínimo), cenários exuberantes e criaturas fantásticas, contribuiu para seu sucesso duradouro.

A música de Limahl, com sua melodia envolvente e letra inspiradora, tornou-se um símbolo da década, sendo tocada em festas, programas de TV e até hoje evocando nostalgia.

O impacto cultural do filme foi tão grande que gerou duas continuações, lançadas em 1990 e 1994, embora sem o mesmo sucesso da obra original e muito menos sua qualidade.

Nenhuma delas conseguiu capturar a magia e o frescor do primeiro longa, tampouco resgatar a profundidade filosófica do livro. A crítica de Ende permaneceu: para ele, a adaptação negava os aspectos mais importantes de sua obra, transformando uma reflexão sobre o poder e os limites da imaginação em uma aventura simplificada.

Polêmicas à parte, A História Sem Fim permanece viva no imaginário coletivo. Sua mensagem sobre a importância de sonhar, de acreditar na fantasia como força transformadora, continua relevante. Em tempos de incerteza, o filme oferece um lembrete poderoso: a imaginação é uma ponte entre mundos, uma ferramenta de cura e resistência. E mesmo que sua história tenha sido adaptada de forma controversa, o legado de Michael Ende e de sua criação permanece — infinito, como prometido no título.