Cena

A delicada beleza da arte de Rachel Midori

08/11/2025 Da Redação
Claudio Vitor Vaz

A educação, a discrição e os gestos delicados no manuseio da ponta seca sobre o acetato não negam a ascendência japonesa de Rachel Midori Sugo Miyagui, 37 anos. Gravadora, desenhista e professora, a artista dá aulas de gravura no projeto Fábrica Cultural, da Secretaria Municipal de Cultura de Santos (Secult), onde ensina interessados em geral na milenar técnica de impressão sobre papel.

De sua família, Rachel faz parte da segunda geração nascida no Brasil: seus avós maternos e paternos emigraram do Japão, entre 1930 e 40. Imprimir memórias pessoais não costuma estar entre os temas de Rachel, mas, ao longo de seus 15 anos de investigação de técnicas de gravura, ela decidiu revisitar uma série baseada em álbuns de sua família. “Eu tinha começado a trabalhar nessas fotos faz uns dez anos, em cujas impressões eu gosto de colar, desenhar e mudar um pouco o contexto original, e que estou retomando agora, pois nunca encerro bruscamente uma série”, conta.

Sobre uma grande mesa branca, em seu ateliê, em uma casa em que mora com o marido, o designer gráfico e psicólogo Renan, na Vila Belmiro, estão espalhadas diversas fotografias de seus pais, avós e tios, em preto e branco e em tons de sépia. Rachel seleciona as imagens com base na composição das mesmas, e decide com qual tipo de gravura irá trabalhar a partir do tamanho da imagem, dos detalhes e dos espaços em branco que possui, podendo ser madeira, acetato, metal ou serigrafia.

Para a foto de sua mãe, menina, rodeada das tias, que posam em frente a uma embarcação no porto, Rachel escolhe o acetato, sobre o qual desenha os contornos que cortará com a ponta seca. “O meu avô trabalhou na Taiyo, uma empresa de pesca, e minha mãe conta que tinha essa coisa das pessoas irem visitar os navios que atracavam. A infância da minha mãe, do meu pai e tios me interessa porque tento captar e entender uma memória que não é minha, e faço uma interpretação, com distanciamento”, diz.

Mais do que a história que a fotografia conta, Rachel sente-se desafiada a registrar as nuances de claro e escuro, “a luz intensa insinuada no branco da roupa e no céu; as cores e contrastes, os tons e os meios tons”.

Para as fotos menores e com mais detalhes, prefere a gravação com acetato, conhecida como “gravura em côncavo”, em que a tinta penetra a linha rebaixada, ao contrário da gravura em relevo, que se deposita na parte alta. “Sinto que a linha, na gravura em côncavo, e no acetato, assim como no metal, se aproxima mais do meu desenho, formando uma linha aveludada e mais fina do que na xilogravura”, explica.

Durante o preparo da matriz, Rachel não reproduz as feições das pessoas retratadas. Ela diz que esse “apagamento” é proposital, pois imprimir o rosto de alguém fecha muito a interpretação da imagem final: “Quero falar da composição, apesar das camadas de memória, afeto e relações. Ao apagar o rosto dessas pessoas, tenho mais liberdade para mexer na imagem e mudar a narrativa”.

Foi o que ela fez com a foto de seus avós maternos dançando: ao descolar os rostos deles, ela retirou qualquer informação de ascendência, idade, sobrando, claro, detalhes como vestuário.

Infância

Nascida em Santos, Rachel não foi uma criança que visitava museus, mas ia ao teatro, circo e cinema. Na escola, desenhar era sua maneira de se integrar: “Eu sempre fui muito introspectiva, e o desenho era minha maneira de interagir”, lembra.

Foi também na escola que Rachel visitou uma grande exposição de artes visuais, em excursão para a extinta Bienal de Santos, onde viu coisas de arte contemporânea, o que lhe causou atração e estranheza.

O interesse pelo desenho a levou a frequentar aulas da Secretaria Municipal de Cultura (Secult), com a professora Sandra Regina Alves e, mais tarde, à faculdade de Educação Artística, na Universidade Santa Cecília (UniSanta), na qual conheceu a gravura numa exposição de três docentes: Márcia Santtos, Ana Kalassa e Lídice Moura.

Foi amor à primeira vista: “A gravura me chamou muito a atenção por se parecer com o desenho, mas ter algo a mais, e quando abriu uma vaga de estágio na Secult, eu me candidatei e entrei, e lá pude participar do Grupo de Gravura Mariana Quito, coordenado pela Márcia Santtos”. “Quando comecei a ter gravura, no segundo ano da faculdade, eu já tinha um pouco de experiência, e isso foi determinante para minha produção e carreira”, reconhece Rachel, que concluiu a faculdade em 2008, emendando especialização em Artes Visuais.

Em 2021, fez parte da coletiva “Portos – Processos Orientados Via Territórios e Ocupações Santistas”, no Sesc Santos, com mais 60 artistas da Baixada Santista e Litoral Sul. No mesmo período, iniciou mestrado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concluído em 2022, no qual dissertou sobre o Clube de Gravura, fundado em 1951, por Mario Gruber.

Num grande painel de metal, em uma das paredes de seu ateliê, Rachel pendura uma xilogravura feita com prensa, de embarcações na Ponta da Praia, baseada em fotografias feitas por ela. Durante a entrevista para este projeto, a artista realizou mais uma impressão da mesma matriz, mas com impressão manual.

“Uma das coisas que mais gosto da gravura é que são muitas etapas, não é um processo tão imediatista, na gravura você vai desvelando o resultado, e nessas várias etapas, a gente acaba percebendo a possibilidade de mudar e experimentar outras coisas, é uma técnica bem processual e bastante experimental, com possibilidade de misturar com outras coisas. Também me interessa a questão do múltiplo, de ter várias cópias, e de séries que vão e voltam”, conclui.

Reportagem realizada em 10 de junho de 2025. @rachelmidori

Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla está publicando um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio. A exposição coletiva dos 10 artistas está em cartaz na Galeria Braz Cubas, no Centro de Cultura Patrícia Galvão (Av. Pinheiro Machado, 48, Vila Mathias, em Santos) até o próximo dia 28. Visitas das 13 às 18 horas.