
Você já parou para perceber como a cidade entra em nossa casa sem pedir licença? Ela chega pelo recreio da escola, pela conversa da calçada, pelo cheiro da lanchonete, pela bola no chão, pelo apito do navio, pelo trem na paisagem. Às vezes chega em forma de música, corrida na orla, festa no bairro, criança brincando ou amigos em torno de um churrasco.
E, quase sempre, alguém se incomoda.
Talvez você tenha visto a cena: uma janela se fecha, uma mensagem aparece no grupo do condomínio, alguém pergunta quem autorizou o evento, por que a rua foi ocupada, por que há gente na praça, por que a cidade não pode ficar quieta.
É claro que há excessos, e eles precisam de limite, horário e respeito. Ninguém deve transformar a madrugada do outro em extensão da própria alegria. O direito ao descanso é parte da civilização.
Mas há diferença entre conter o abuso e desejar que a cidade se comporte como uma sala de espera.
Queremos escolas, mas não seus recreios, restaurantes, mas não seus clientes, turismo, mas não turistas, praças, mas sem jovens ou crianças. Defendemos cultura e eventos, desde que aconteçam longe da nossa janela.
Celebramos a cidade vibrante nos discursos e, na prática, esperamos que ela permaneça bonita, organizada e em silêncio.
Só que cidade sem ruído não é cidade, é maquete. Praça sem gente não é ordem, é abandono bem varrido. Cidade que não celebra deixa de ser lar e vira apenas CEP.
Toda cidade viva tem uma música própria, nem sempre afinada, mas sua. Há sons que precisam ser reduzidos, outros organizados, e alguns compreendidos, porque a cidade é o lugar onde a vida alheia atravessa a nossa.
O espaço público é o quintal de quem não tem quintal, a sala de quem mora apertado, o recreio de quem cresceu, o descanso de quem envelheceu. É onde pessoas que talvez nunca entrassem na mesma casa aprendem a dividir o mundo.
Conviver exige concessão, talvez a palavra que mais evitamos. Queremos usufruir de tudo o que a cidade oferece, desde que nada chegue perto demais, desde que a escola não seja ouvida, a festa não apareça, a criança não corra e ninguém permaneça para nos lembrar que o espaço é comum.
Os direitos ao descanso, à presença e à alegria precisam morar no mesmo endereço.
Quando tudo o que vem do outro começa a incomodar, talvez o problema já não esteja apenas no som, no movimento ou na festa, talvez esteja diminuindo, dentro de nós, o espaço reservado para a vida.
E uma cidade só permanece humana enquanto coubermos uns nos outros.


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