Metrópole

“A cidade é um território de disputa. Quem vai ganhar? Qual cidade queremos?”

19/07/2026 Marcos A. Ferreira
Divulgação

Professor aposentado, mas atuante no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP/São Carlos, o arquiteto Carlos Roberto Monteiro de Andrade estuda a obra de Saturnino de Brito desde 1987. Acompanha tudo sobre o engenheiro sanitarista que projetou os canais de Santos, onde Carlos também deu aulas (na UniSantos). Ele esteve na Cidade em junho para o lançamento do Movimento em Defesa dos Canais e conversou com o Jornal da Orla.

Qual a importância do trabalho de Saturnino?

Saturnino trabalhou em 40 cidades brasileiras. Santos foi um momento importante. Ele já tinha trabalhos em Campos (Rio de Janeiro), sua cidade natal. Tinha projeto para Vitória (Espírito Santo), um plano de 1923, mas executado 30 anos depois. Mas Santos foi talvez o primeiro de maior destaque, que dá início a uma série de projetos similares. Ele marca a sua trajetória profissional com os canais de Santos, até por conta de ter planejado, projetado e realizado; acompanhou as obras e deixou sucessor acompanhando, como Lourenço Baeta Neves. É um trabalho que configura a paisagem urbana, com destaque enorme para uma cidade que não tinha infraestrutura.

 

Santos seria viável sem o projeto de Saturnino?

Havia outros planos. O Saturnino vai marcar o seu com os canais a céu aberto. Os canais como um sistema de circulação, conjunto de bulevares onde você tem também o tabuleiro gramado, a calçada arborizada, os passadiços e toda uma arquitetura que acompanha os canais, que é o que marca a paisagem santista até hoje. Os canais são os elementos de identificação do santista, do usuário de Santos. Bulevar no qual você tem canais de drenagem que são concebidos como elemento configurador da paisagem e, ao mesmo tempo, têm funcionalidade muito eficiente.

Saturnino inova em soluções de engenharia?

Como solução técnica de engenharia, os canais são muito bem concebidos. São pioneiros na utilização do concreto armado em grandes obras públicas. Saturnino é um engenheiro que inventa, inova. Foi grande inovador técnico e da paisagem. Além de aspectos que são muito interessantes, porque ele pensa um sistema que vai desde o abastecimento de água domiciliar, o esgotamento domiciliar, em que ele elabora o desenho de elementos componentes desse sistema, como o sifão, por exemplo. Ele vai patentear alguns sifões para usar na separação do sistema de esgotamento das águas residuárias, impedindo que o mau cheiro retorne pelos vasos, pelos ralos. Uma invenção muito engenhosa.

É um contexto de expansão urbana, epidemias e ações higienistas. Os canais são também obra sanitária?

Totalmente. Saturnino é reconhecido na França, por exemplo, pelos técnicos sanitaristas. Ele é uma expressão da cultura higiênico-sanitária que o século 19 formula e lega para o 20. É engenheiro sanitarista. Você tem o século 19 como o da higiene, presente no nascedouro do urbanismo, uma resposta às epidemias decorrentes de más condições sanitárias, aumento da população, adensamento excessivo, más condições de habitação. Enfim, um subproduto da industrialização que vai marcar, sobretudo, as cidades que estão recebendo um grande número de imigrantes, como é o caso de Santos. As epidemias entram pelos portos ou têm nos portos um foco de irradiação eficiente. E o interessante no trabalho de Saturnino é que ele impede que as epidemias continuem, arrefeçam, sobretudo aquelas transmitidas por vetores que se reproduzem em água estagnada. O princípio fundamental que ele formula é que as águas têm que circular. Saturnino elabora um método de fazer as águas circularem ao longo dos canais, usando a energia das marés. Apropria-se de uma forma de energia muito criativa, com abertura e fechamento dos canais, na subida e descida das marés, controle das adufas, de mar a mar. Solução inventiva e eficiente.

Ainda hoje?

Claro. Mas exigem manutenção permanente. O que se constata é que houve períodos em que se teve cuidado na manutenção dos canais, na sua reforma, limpeza, identificação de lançamentos clandestinos, porque os canais são canais de drenagem de águas pluviais apenas. Na hora que você tem lançamento de esgoto, você vai contaminar o canal. Isso varia muito de gestão para gestão. Não houve um processo linear de manutenção contínua, satisfatória. Ao mesmo tempo, os canais de Santos, ainda que sejam elemento da identidade da paisagem, são vistos como local com valor imobiliário diferenciado, estão sob pressão enorme dos interesses imobiliários, de incorporadoras. Eles não escapam da disputa que a cidade apresenta entre interesses restritos, muitas vezes ligados aos negócios imobiliários, e uma perspectiva de defesa da memória, da manutenção de um espaço rico do ponto de vista urbanístico, de convívio. Quando eu coloco no lugar de quatro imóveis de pequeno gabarito um edifício com 30 andares, com andares de garagens fechadas, o que antes era área permeável e rica de atividades vira uma muralha. Você desfigura totalmente o espaço urbanístico, além de criar uniformidade, perda da vitalidade que o espaço dos canais apresentam. Saturnino pensa os canais sob forte inspiração da criação de espaços de passeio, percurso pela cidade. Então, além de passar por variações no processo de manutenção, os canais são periodicamente ameaçados por ideias como: “vamos tamponá-los para fazer estacionamento”; “tirar as árvores porque elas sujam, abrir avenidas”. Uma perspectiva totalmente contrária a uma boa cidade.

Como equacionar essa questão?

Não tem uma solução, nem duas soluções. A cidade é um território de disputa. Quem vai ganhar? Santos é uma ilha, tem uma capacidade de suporte e limite, não adianta querer extrapolar. Em Nova Iorque, o solo está rebaixando pelo peso dos edifícios. O tamponamento de canais, de cursos d’água, em São Paulo é referência de péssimos exemplo. Qual cidade queremos? É uma questão que tem que ser definida com a participação ativa da população.