
O general Eduardo Pazuello foi escolhido para ser ministro da Saúde por conta de uma suposta competência em logística. Mas os fatos demonstram justamente o contrário: incapacidade de planejar e executar um plano eficaz de combate ao novo coronavírus.
Além de deixar testes de detecção do covid-19 estragando no Aeroporto de Guarulhos, Pazuello deixou de fazer um plano de aquisição não só de vacinas, mas também insumos —pode faltar agulhas e seringas.
O desempenho de Pazuello nas negociações para a compra de vacina é desastroso. Seus dois principais erros foram demorar para acertar as aquisições e descartar fornecedores.
Ao declarar que as vacinas seriam compradas “conforme a demanda”, o ministro da Saúde, Eduardo Pazzuelo, demonstrou completo desconhecimento do assunto, já que a compra das vacinas já deveria ter sido formalizada há pelo menos seis meses — como fizeram diversos outros países.
Os Estados Unidos, por exemplo, já acertaram a compra de seis fornecedores diferentes, entre eles o laboratório chinês Sinovac. A Argentina, país de 44,9 milhões de habitantes, garantiu a aquisição de 20,6 milhões de doses da Sputinik V, fabricada pelo consagrado laboratório russo Gamaleya e negocia com outros fornecedores.
O Chile, que tem 18,7 milhões de habitantes, já adquirou 84,4 milhões de doses (60 milhões da Sinovac, 14,4 milhões da AstraZeneca e 10 milhões da Pfizer) —mais do que o dobro do necessário para imunizar toda a população.
Ideologia X ciência
Pazuello descartou a aquisição da Coronavac, por ela ter sido desenvolvida por um laboratório chinês (Sinovac), em parceria com o Instituto Butantan, entidade subordinada ao governador João Doria —inimigo político de Bolsonaro. O ministro não levou em consideração que, em seus 120 anos de existência, o Butantã criou, produziu e aplicou diversas vacinas e antídotos.
O Instituto Butantan vai funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, para a produção da coronav. A fábrica, que conta com 245 profissionais, terá o reforço de 120 novos funcionários. A capacidade de produção da vacina chegará a um milhão de doses por dia.
Mas, ainda assim, é pouco. Neste ritmo, seria preciso mais de um ano para imunizar toda a população brasileira, já que cada pessoa deve tomar duas doses (seriam necessárias cerca de 420 milhões).
Assim, o controle mais rápido da doença no Brasil só será alcançado com a aquisição conjunta de vacinas de várias procedências. O problema é que o governo federal esnoba essa estratégia.
No início, Pazzuelo descartou a vacina da Pfizer, por conta da necessidade de as doses serem armazenadas a 70 graus negativos. Não acreditou na solução oferecida pelo próprio laboratório: um caixa com gelo seco capaz de preservar a vacina durante 15 dias e depois mais 5 dias em refrigerador comum (entre 2 e 8 graus positivos).
O governo Bolsonaro havia decido apostar na compra apenas na vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, por meio da participação no Covax Facility, um consórcio de países liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, a quantidade de doses reservadas pelo Brasil foi irrisória, suficiente para imunizar apenas 10% da população brasileira —e havia a possibilidade de adquirir até 50%.
Disk-vacina?
Pressionado pelos fatos, o presidente Bolsonaro mandou o ministro Pazuello fechar com a Pfizer a compra de um microlote de vacina “pronta entrega” para imunizar uma minúscula parcela da população ainda este ano. Na prática, uma clara tentativa de passar a imagem de que o governo federal iniciou a vacinação antes do Governo de São Paulo.
O plano não deu certo. O ministro Pazuello foi desmentido pelo próprio presidente da Pfizer Brasil, Carlos Murillo, que disse, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que a empresa só poderia entregar vacinas no primeiro trimestre de 2021 e, ainda assim, o suficiente para imunizar apenas 2 milhões de brasileiros. As primeiras 500 mil doses só em janeiro. Murillo explicou que o motivo foi a demora de o governo brasileiro tomar uma decisão.
A Pfizer informa que terá capacidade para produzir 1,3 bilhão de doses em 2021, mas elas estão reservadas a “países que fecharam acordos antecipados”. Em resumo: como não fez o pedido antes, o Brasil vai ter que esperar no fim da fila os outros países serem atendidos primeiro.
Até o momento, o governo brasileiro assegurou a compra de 300 milhões de doses de vacinas para o próximo ano (100 milhões da AstraZeneca/Oxford; 160 milhões do mesmo imunizante, produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e 40 milhões do consórcio Covax Facility). O problema, que até agora o ministro Pazuello não soube responder, é quando finalmente essas vacinas serão aplicadas nos brasileiros.



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