
As atividades econômicas estão sendo retomadas gradativamente (os shoppings foram reabertos na quarta-feira, 24), as praias foram parcialmente liberadas e já se cogita a volta de competições esportivas? Mas e as escolas. A retomada das aulas é, certamente, o aspecto mais complexo e delicado nos esforços de flexibilização do isolamento social necessário, por conta da pandemia.
As variáveis nesta equação são inúmeras: pais que voltam a trabalhar mas não têm com quem deixar os filhos; o transporte dos alunos às escolas; o risco de contaminação de crianças e profissionais de saúde; o risco de as crianças se contaminarem e, sem apresentar sintomas, levar o vírus para dentro de suas casas, adoecendo familiares —inclusive os idosos; os prejuízos no aprendizado dos estudantes.
Por mais que governadores, prefeitos e profissionais de saúde se esforcem para adotar protocolos seguros para esta retomada das atividades escolares, são os educadores que vão indicar o que, na prática, funciona e o que deve ser evitado.
A secretária de Educação de Santos, Cristina Barletta, e a professora de Pedagogia da UniSantos, Marly Saba Moreira, acreditam que é possível promover esta retomada com tranquilidade e os prejuízos, que inevitavelmente vão ocorrer, não são irrecuperáveis.
Risco ao ano letivo
“Nenhum aluno será prejudicado. O ano letivo foi retomado em 28 de maio, de maneira remota, com a utilização de canais de comunicação entre as escolas, alunos e famílias, Portal da Educação e a entrega de materiais didáticos. Todo o conteúdo tem como referência o Currículo Santista. E, no retorno das aulas presenciais, haverá um período exploratório destinado a atividades de sondagens para que sejam identificadas as maiores dificuldades de cada aluno, a fim de estabelecer estratégias para o atendimento”, afirma Barletta. “A Seduc já definiu em período de formação em janeiro para planejar 2021, considerando as habilidades não trabalhadas em 2020”, completa.
Do ponto de vista formal, não haverá prejuízo, tranquiliza Marly Saba Moreira, que é mestre em Educação. “As exigências legais serão cumpridas. Caso não tenhamos 200 dias letivos, podemos considerar o mínimo de 800 horas de trabalho pedagógico. Esta carga é atendida no ensino remoto”, explica.
Prejuízos
A secretária de Educação garante que não haverá nenhum prejuízo irrecuperável. “Os profissionais da educação estão empenhados e comprometidos nesta missão, uma vez que tiveram que se reinventar neste momento de pandemia”, diz, alertando que o envolvimento dos familiares dos alunos é fundamental. “O maior desafio são as necessidades socioemocionais e manter os vínculos de convivência interpessoal. Há um esforço máximo para que sejam nutridos estes vínculos, mesmo a distância. Marly Moreira reforça: “Se a escola e a família continuarem unidas em prol da aprendizagem, não vejo prejuízo irrecuperável. Poderia ocorrer defasagem no ensino se os governos não tivessem elaborado materiais escritos, especialmente às crianças e jovens que não têm acesso à internet”, argumenta, acrescentando que há ainda o recurso de estender o ano letivo até o início de 2021.
Retorno às aulas
Cristina Barletta explica que as aulas presenciais em Santos só serão retomadas quando houver a liberação dos setores competentes, seguindo os protocolos de saúde.
Na quarta-feira, o governador João Doria anunciou que as aulas podem retomar dia 8 de setembro, caso todas as regiões do estado permaneçam em alerta amarelo por 20 dias. As unidades reabrirão seguindo regras como uso de máscaras, o distanciamento de no mínimo 1,5 metro entre as pessoas, medição de temperatura e reforço em medidas como lavagem das mãos e uso de álcool gel. Entrada e saída e horários de recreio serão feitos em escalas.
Mestre em Educação e ex-diretora escolar, Marly Moreira alerta: “Fico um pouco apreensiva em relação às escolas públicas, que, em geral, comportam 35 alunos por sala. O diretor precisará cuidar da higiene, do distanciamento sugerido e o atendimento pedagógico. Vai necessitar de uma estratégia cuidadosa para cumprir as orientações. Nas escolas privadas, talvez o desafio seja menor, pois há menos alunos em sala”.
Ensinamentos
Embora haja mais sofrimento do que resultados positivos, a pandemia trouxe alguns ensinamentos, também na educação. “O maior legado seja a valorização da escola, o reconhecimento da função social que exerce e sobretudo a oportunidade que as famílias tiveram de entender a relevância do trabalho do professor. Os docentes, por sua vez, foram desafiados a buscar novas formas de ensinar”, afirma Marly Moreira. “E os governantes perceberam a importância do ensino remoto”, completa.
Segundo a secretária de Educação, Cristina Barletta, mais que a adaptação de transmitir o conteúdo curricular de forma remota, o maior aprendizado nessa crise foi a dose de sacrifício dada por toda a equipe. “Foi uma situação abrupta, sem planejamento. Estou muito contente com os resultados. Tenho até me emocionado com vídeos que professores preparam para os alunos. Só tenho a agradecer e parabenizar a todos”, afirmou.
Ensino a distância
A mestre em Educação Marly Moreira explica que, apesar de ser uma ferramenta poderosa, o ensino a distância tem suas limitações, como a falta de acesso à internet de qualidade entre as populações mais carentes, a própria dificuldade dos educadores de preparem e apresentar conteúdo remotamente e o prejuízo causado pela ausência de contato presencial.
Cristina Barletta ressalta que o ensino remoto deve ser trabalhado como modalidade complementar, mas não para substituir a escola. “A Seduc já utilizava ferramentas digitais para complementar o ensino e redesenhou o portal para atender as necessidades nessa crise, pois foi observada a dificuldade de acesso às novas tecnologias por várias famílias. Assim, a Seduc teve que criar diferentes modalidades remotas para contemplar os diversos contextos familiares, respeitando a rotina de cada casa (horários, equipamentos), não deixando ninguém para trás”.



Deixe um comentário