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Música que transforma vidas

07/12/2019
Música que transforma vidas | Jornal da Orla

Foi preciso um susto – e que susto! – para Paulo Eduardo Mauá interromper a rotina exaustiva de horas e horas diárias de trabalho e reavaliar suas escolhas de vida. Após o impacto de um grave problema de saúde, ele resolveu unir sua paixão pela música ao desejo de ajudar outras pessoas e, assim, há 10 anos nasceu o projeto Música Transformando Vidas – PROMUVI, do qual é regente e coordenador.  

Os alunos do PROMUVI são pessoas com deficiência visual, total ou parcial, que através dos instrumentos musicais e do canto coral descobriram novas formas de se encantar pela vida. Encanto que também se apropriou de Paulo Eduardo que, depois de sofrer um aneurisma hemorrágico há 12 anos, se viu renascer através do trabalho social. “Senti a necessidade de recompensar a vida de algum jeito”, conta o maestro, que é também engenheiro mecânico.

Na época, o Rotary Clube Santos-Oeste abraçou a idéia e ofereceu a estrutura para Paulo tocar em frente o projeto, que funciona em uma dependência cedida pela Casa da Visão, na Avenida Conselheiro Nébias, 267 – altos.

Aprendizado de mão dupla
O foco inicial era usar a música como instrumento de inclusão social, mas sem a preocupação específica de trabalhar com deficientes visuais. Ao mesmo tempo, Paulo dava aula de informática no Lar das Moças Cegas e um dos alunos, Silvio Gonzaga, demonstrou interesse em aprender flauta. “Foi um aprendizado de mão dupla”, confessa Paulo, que aos poucos foi descobrindo e anotando o que funcionava ou não para o novo aluno, que hoje é um dos professores no Promuvi. A experiência atraiu outras pessoas com deficiência visual e o projeto ganhou novo rumo.

Entusiasmado, Paulo saiu em busca de informação sobre inclusão social e, em 2013, participou de um encontro internacional na universidade pública do Rio Grande do Norte. Ali, fez contatos acadêmicos que o levaram a pleitear uma vaga de mestrado em comunicação acessível na Universidade de Leiria, Portugal.

Foi aceito após apresentar sua proposta recheada de anotações, fotografias e até vídeo de apresentação dos alunos na Concha Acústica. Em 2017 defendeu sua tese de mestrado de musicalização para cego em aula aberta e ano passado retornou a Portugal para dar uma oficina e palestra na Universidade Católica de Lisboa.

 

Música na veia


Formado em engenharia pela USP e apaixonado por música desde criança, Paulo Eduardo soube com maestria conciliar as áreas das ciências exatas e da educação, uma inclinação que foi se revelando de forma natural. Estudou no Conservatório de Música e Tecnologia de Boston, Estados Unidos, trabalhou como analista de sistemas e fez especialização em Educação à Distância na universidade federal fluminense. 

“Tenho música na veia”, brinca Paulo, que estudou em conservatório dos 6 aos 15 anos de idade e domina instrumentos diversos, de sopro à percussão. Durante 22 anos possuiu uma empresa de tecnologia, enquanto dava aula de informática em um colégio particular de Santos. “Trabalhava das 6 às 22h, não tinha tempo para nada. Nessa época sai da música, mas a música nunca saiu de mim”.

Permaneceu nesse ritmo frenético até sofrer o aneurisma hemorrágico. “Foi um divisor de águas em minha trajetória de vida”, admite. No lento processo de recuperação, o médico sugeriu que voltasse para a música. “Ele achou que isso ligaria a parte emocional ao lado racional do cérebro, evitando uma intervenção cirúrgica”.

Aos poucos o corpo foi respondendo ao estímulo musical e Paulo sentiu que precisava retribuir a nova chance que a vida estava lhe dando. “A escala de valores muda completamente”, diz ele, que se desfez da empresa e parou com as aulas na escola particular. Virou consultor e é tutor virtual da Universidade Federal de São Carlos. Reduziu a renda mensal e ganhou qualidade de vida.

 

Método inovador de aprendizagem


O projeto começou com o ensino de flauta doce e hoje, com seis professores contratados e cerca de 50 alunos, oferece aulas de baixo, clarinete, teclado, escaleta (teclado de boca), aula de violão, ukulele (guitarra havaiana), percussão, canto coral. 

Segundo Paulo Eduardo, o método que desenvolveu é inovador no país. “É baseado em memorização, solfejo e algumas técnicas de aprendizado. Não utilizamos Braille para ler partitura”. A maior parte dos alunos é formada por pessoas acima de 50 anos de diferentes cidades da região, com cegueira total ou parcial, em sua grande maioria adquirida por doença ou acidente. 

O projeto funciona com uma aula semanal de regência de orquestra e uma aula de instrumento específico e também atende 12 crianças da comunidade em situação de vulnerabilidade social, que aprendem flauta e percussão. Em 10 anos de existência já recebeu cerca de 300 alunos.

Paulo Eduardo Mauá destaca a retaguarda dos professores e o apoio e colaboração da família: a esposa, Malu, as filhas Carolina e Raquel e o genro Marcelo. “Eles cuidam de toda a parte prática, eu fico apenas com a regência da orquestra. Sem eles não conseguiria”. Segundo o maestro, mais do que ensinar música, “o projeto trabalha a auto-estima, promove a cidadania e tira o aluno do desconforto de se sentir excluído. Foi um presente que ganhei. A gente aprende todos os dias”.

Concertos de Natal
A orquestra do PROMUVI, que abriga sopro, cordas e percussão, fará concerto de Natal na próxima quinta-feira, dia 12, às 19h30, na Igreja do Embaré (Avenida Bartolomeu de Gusmão, 32). E dia 18, às 14h, ela volta a se apresentar na formatura curso de inclusão social na UNIMES (Rua Barão de Paranapiacaba, 15, Encruzilhada). Com 20 alunos, esta é a primeira turma do curso de três meses idealizado por Paulo Eduardo Mauá. Mais sobre o trabalho no instagram: @musicatransformandovidas; no Facebook: Música Transformando Vidas e no e-mail: promuvi@outlook.com.
 

 

Fotos: Gabriel Soares