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Resenha da semana: Era Uma Vez em…Hollywood

17/08/2019
Resenha da semana: Era Uma Vez em…Hollywood | Jornal da Orla

Escrevo para o Jornal da Orla desde 2016 e até então, nunca havia escrito sobre um filme de Quentin Tarantino. Todos que me conhecem, sabem que é o meu diretor favorito e, qualquer coisa que ele faça, me deixa extremamente empolgado. Lembro, há dois anos atrás, quando comecei a ler as notícias sobre seu novo longa, o quanto me deixou com a expectativa lá em cima perante sua escolha de elenco, diretor de fotografia, roteiro, enfim. Para mim o cara é genial e traz, em todas suas obras, histórias e personagens inesquecíveis e que empolgam o público. Hoje, acabei de sair da sessão de Era Uma Vez em…Hollywood, sua mais nova obra, onde semelhante ao que o diretor fez em Bastardos Inglórios, mistura personagens reais e fictícios em uma trama original, porém bem menos "tarantinesca" do que eu esperava. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário, pois isso demonstra o quão maduro o diretor se tornou ao longo do tempo, onde aqui ele cria o seu filme mais sentimental e uma verdadeira carta de amor ao cinema, mas sem jamais perder sua marca.

O filme é ambientado em Los Angeles de 1969. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator de TV que, juntamente com seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), está decidido a fazer o nome em Hollywood. Para tanto, ele conhece muitas pessoas influentes na indústria cinematográfica, o que os acaba levando aos assassinatos realizados por Charles Manson na época, entre eles o da atriz Sharon Tate (Margot Robbie), que na época estava grávida do diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha). Quentin Tarantino talvez seja o diretor que mais influenciou a cultura pop de nossa geração. Totalmente consciente de seu sucesso e talento, Tarantino construiu sua carreira em cima de seus filmes preferidos (ele trabalhou em uma locadora antes de virar cineasta) e aqui ele saúda todo esse processo criativo de se fazer um filme, mais como uma celebração ao cinema e, especialmente à década de 60. Sua habilidade em escrever diálogos e criar situações, tanto cômicas quanto tensas, continuam impecáveis (a briga entre Bruce Lee e Cliff Booth é hilária enquanto o encontro com a família Manson parece muito com um filme de terror). O roteiro, sempre escrito por ele, não tem uma trama definida, mas é focado basicamente nos três personagens principais e suas rotinas diárias até chegarem até o derradeiro dia, que acredito todos já conhecerem mas que aqui (não se preocupem pois não darei spoilers) tem a participação da criativa mente de Tarantino. Apenas tenham conhecimento sobre o estrago que um cigarro com LSD, uma pitbull e um lança chamas podem fazer.  Para muitos, o filme pode parecer que não chega a lugar algum, mas os prazeres do diretor estão nos pequenos momentos, da nostalgia do fim da década de 60, ao início da cultura hippie e a perda da inocência, muito personificada na personagem de Sharon Tate. 

Tecnicamente, Era Uma Vez em…Hollywood é uma imersão total no ano de 1969. Desde seus figurinos, sua ambientação, direção de arte com uma maravilhosa recriação de época, passando pela fantástica e viciante trilha sonora que nos acompanha junto às vinhetas na rádio da época, uma fotografia fenomenal de Robert Richardson, que coloca o público dentro daquela Los Angeles cheia de festas suntuosas e suas brilhantes luzes de neón até chegar ao assombroso design de produção de Barbara Ling, onde em uma determinada cena, vemos Brad Pitt acelerando seu carro pela cidade como se estivesse dentro de um documentário. 

Focando seu filme na dinâmica e cumplicidade de seus protagonistas, Tarantino comanda a dupla de atores mais estelares desde Robert Redford e Paul Newman em Butch Cassidy, e eles não desapontam. Leonardo DiCaprio tem sua melhor atuação desde O Lobo de Wall Street e assistir seus chiliques, gagueira e falta de confiança é sensacional. Sua cena no trailer, após um erro de gravação, está nos melhores momentos de sua carreira. A Sharon Tate de Margot Robbie é retratada pelo diretor, claramente como um sinal de pureza e inocência, exemplificada em sua bonita cena no cinema assistindo ao seu próprio filme. Mas, Cliff Booth de Brad Pitt, é disparado meu personagem favorito. Carismático, amigo fiel, desapegado de qualquer responsabilidade e dono de uma fúria descontrolada quando necessário, o personagem rouba todas as cenas em que aparece e talvez seja um dos melhores da carreira do ator, onde arrisco dizer que seja indicado a muitos prêmios.

Era Uma Vez em…Hollywood mostra Tarantino em sua mais clara e madura visão como cineasta, em um filme que é uma declaração de amor ao cinema junto a uma das mais icônicas dupla que o cinema já viu.

Curiosidade: O  título do filme, "Era uma vez" é uma homenagem ao cineasta italiano Sergio Leone, que dirigiu "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984).
 

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