
Apesar da vitória de 2 a 0 sobre a aguerrida Costa Rica, o desempenho da seleção brasileira de Tite ainda deixa boa parte da torcida com a pulga atrás da orelha. São várias as razões apontadas, dos comentaristas especializados ao corneteiro comum: escalação equivocada, esquema tático ineficiente, falta de mais "fome de bola", descontrole emocional, pontaria descalibrada… Mas o que parece estar sendo determinante nas atuações abaixo das expectativas é a falta de um Camisa 10 em campo.
Tudo bem, Neymar, o dono da camisa 10, é um craque inquestionável, titular absoluto em qualquer time que se escalar na face da Terra, fundamental na busca do Hexa. Porém, não é igual outros donos da lendária camisa, seja na função tática ou capacidade de liderança.
Nos dois jogos desta Copa do Mundo, e também em anteriores, ficou patente a ausência um distribuidor de bolas, o chamado “garçom”, armador, meia de ofício… Amante e estudioso de esquemas táticos, Tite parece não ter encontrado um jogador para esta posição — ou não se convenceu de sua importância.
Apesar de ser extremamente criativo e capaz de oferecer boas assistências, Neymar não é um jogador com este perfil. Quem o tinha era seu amigo e companheiro no Santos FC, Paulo Henrique Ganso, que por uma série de circunstâncias se perdeu pela História do Futebol e nunca mais encontrou o caminho da Seleção Brasileira.
Neymar também não tem o perfil de Camisa 10 líder, referência dentro de campo, maestro que dita o ritmo do jogo. Aliás, nenhum outro atleta convocado por Tite possui esta característica.
Falta ao Brasil um jogador com o espírito de um Camisa 10, mesmo que use outro número, e Neymar continue com a dele.
Número emblemático

A Camisa 10 de uma seleção, seja qual país for, é uma espécie de manto sagrado. O número começou a ganhar um aspecto mágico com o húngaro Ferenk Puskás, que defendeu a seleção de seu país e depois também a espanhola. Não à toa, o prêmio de gol mais bonito do ano, conferido pela Fifa, leva o seu nome.
Mas ela ganhou um significado mágico com Pelé, o jogador mais vitorioso de todos os tempos. Mais do que o recorde de títulos e gols, o Rei do Futebol consagrou-se com sua postura em campo: além do talento individual, era o grande articulador do trabalho em equipe, referência e inspiração para companheiros veteranos ou novatos.
Diversas seleções tiveram camisas 10 inesquecíveis: Michel Platini na França (Copas de 1978, 1982 e 1986); Diego Maradona na Argentina (de 1982 a 1994), Lothar Matthäus na Alemanha (de 1982 a 1998); Zinedine Zidane na França (de 1998 a 2006).
História repleta de 10

Na Seleção Brasileira, a Camisa 10 sempre foi uma mistura de prestígio e responsabilidade – a ponto de ser considerada “mais pesada” que as demais. Ela inspirou a composição de um samba, em 1973, imortalizado na voz do santista Luis Américo, que fala justamente sobre a dificuldade de substituir Pelé. (“Dez é a camisa dele/ quem é que vai no lugar dele?/É camisa 10 da Seleção/ Laiá-laiá-laiá”).
Em 1970, o técnico Zagallo foi confrontado com o que parecia ser um dilema: como convocar uma seleção num momento em que vários camisas 10 brilhavam em seus respectivos clubes? Pelé, no Santos, Rivelino, no Corinthians; Jairzinho, no Botafogo; Gerson, no São Paulo; e Tostão, no Cruzeiro. O treinador não teve dúvidas, chamou todos eles, colocou para jogar juntos e a equipe foi tricampeã.
Ao longo da história, o Brasil teve 10 emblemáticos: Rivelino, Zico, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho… Mas a responsabilidade de usar a camisa pareceu pesar demais para alguns — casos de Raí em 1994 e Kaká em 2010.
O papel de Neymar

Protagonista incontestável da equipe de Tite, Neymar ainda não apresentou a performance que a torcida brasileira espera. E talvez seja este o problema: criou-se uma expectativa demasiada, de que o jogador é capaz de resolver todos os problemas da seleção. Sem falar nas comparações com outros craques, como o português Cristiano Ronaldo e o argentino Lionel Messi.
Apesar de ser um jogador excepcional, pesa contra Neymar sua instabilidade emocional, a irritante mania de valorizar demais as faltas de recebe e a opção por reter excessivamente a bola.
A favor do craque, pesam a cobrança exagerada (a tal "Neymardependência) e também o fato de ter ficado meses sem jogar, devido a uma fratura no pé, prejudicando o seu ritmo de jogo.
O treinador saiu em defesa dele, na coletiva após a partida contra a Costa Rica. “Ele é um ser humano e precisa de um tempo para retomar um padrão alto”, disse Tite.
Tomara que isso ocorra já na próxima partida.



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