A primeira imagem que tenho de Santos veio pela janela lateral do citroen preto do meu tio José. Lá do alto da Anchieta, já noite adentro, foi um impacto. A descrição mais precisa me chegou muito mais tarde em um samba que dizia que as luzes pareciam muito mais um céu no chão.
Eu era muito menino, até tirei retrato no cangote do leão do Gonzaga, e foi a primeira vez que peguei um bonde sozinho, para ir do José Menino até o Aquário Municipal. Falava-se assim, o nome inteiro. Santos tinha um ar refinado para quem vivia na periferia de São Paulo. Já era tudo arrumadinho e faz quase cinqüenta anos isso.
Cheguei a Santos de vez em 1970 e nunca mais fui embora. A cidade sempre me pareceu de tamanho e jeito perfeitos, sem que faltasse nada de essencial. A idéia de morar onde as pessoas vêm passear me seduziu totalmente. Foi quando comecei a prestar atenção à minha volta, o que pouco fazemos normalmente. Ela é sempre tão bonita! Aqui está minha mulher, estão meus filhos e meus amigos. Minha cidade completa.
Mas posso garantir, depois de tantos anos, que é preciso treinar para não se perder da magia que dela emana. Recomendo passear por aí com um olhar estrangeiro. É bem simples. O truque é reparar nos detalhes, porque eles nunca se repetem, e variar de caminhos e ruas, para desabituar a mente. No mais, preste atenção porque tudo será novidade.
Ao caminhar lembre que onde quer que você ponha o pé, muitos outros já terão feito o mesmíssimo gesto antes, em diferentes momentos de uma história tão comprida que se perde no tempo do continente. A cidade ensina, portanto, que tudo passa, que nada é permanente. Relaxe.
Dependendo de onde você vá, haverá construções de pedras assentadas com óleo de baleia, lá dos tempos coloniais, ou prédios remanescentes dos tempos do café, de cem anos atrás. Dá pra suspeitar o passado em toda parte.
O Centro da cidade já freqüenta com certa intimidade a tela da tevê. Apareceu como Santos de antigamente, é claro, mas a preferência das novelas é de que ele represente ruas de São Paulo ou do Rio, e até um outro centro, o de Belo Horizonte, como recentemente ocorreu. Anda fazendo papel de passado de outras cidades, pode? O Centro é artista, meu!
Siga caminhando com vagar, busque os canais arborizados, pare nas pequenas pontes e fique fazendo nada. Repare no reflexo daquele túnel verde das árvores na água da maré alta, nas garças que baixam aqui e ali. Assista como um telespectador à vida passar, cada pequeno momento do presente se tornando passado bem ali na sua frente.
Acompanhe os navios deixando o porto preguiçosamente, com o Atlântico inteiro à frente. Passeie por dentro do jardim da praia pra variar, percorra as curvas daquelas alamedas, como pouca gente faz. Descanse ao lado de uma fonte prestando atenção no lugar, que é dessa atenção que vem o novo olhar sobre o que conhecemos de tanto tempo. Sinta o cheiro de terra molhada que chega com a chuvarada de verão na ressaca de um dia de 40 graus. Sinta a cidade com todos os sentidos, como um estrangeiro faz.
Essa é a matéria-prima com que se fartam os cronistas – e Santos sempre teve e ainda tem uma porção deles. Lydia Federici sempre foi a mais exímia de todos nessas artes de ver a cidade. A última vez que conversei com ela, me contou de um flamboyant. Insistiu que eu fosse lá ver, até me deu o endereço da árvore, e valha-me Alceu Valença. Daí que, de Lydia, o que mais lembro é do flamboyant vermelho no desmantelo da tarde.



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