
O jornalista e consultor econômico Rodolfo Amaral afirma que as demissões anunciadas pela Usiminas terão efeitos dramáticos para a região metropolitana da Baixada Santista, em especial para Cubatão. Por isso, ele defende uma negociação política, com a participação de setores representativos da sociedade e do governador Geraldo Alckmin, para tentar uma solução que evite demissões em massa. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida no programa Jornal da Orla na TV:
O principal problema da região é a crise da Usiminas, antiga Cosipa, que ameaça com demissões de quatro mil trabalhadores. O que isso representa para Baixada Santista?
Rodolfo Amaral – A gente fez um estudo recente sobre essa situação, uma coisa ainda preliminar e representa uma redução da massa de salário desses quatro mil funcionários de R$ 250 milhões anuais, como que se chega a esse valor? Nós pegamos o total de faturamento das usinas do Brasil, que foi de R$ 7 bilhões e R$ 200 milhões no ano passado, dividido por um total de 117 mil de trabalhadores diretos e indiretos do setor siderúrgico, que deu um valor de 62 mil percapita por trabalhador/ano. Multiplicando por quatro mil dá R$ 250 milhões que deixam de circular na massa de salários. Mas ainda há também a perda do valor adicionado de Cubatão, a razão de pelo menos R$ 3 bilhões envolvidos nessa produção que deixará de existir. Isso vai refletir na arrecadação do município de Cubatão, na arrecadação ICMS, algo em torno de R$ 60 a 80 milhões ano.
Isso significa que toda região será prejudicada, além das famílias, naturalmente, que são as mais prejudicadas. Mas há um efeito dominó perverso que atinge toda a economia, do comerciante ao pipoqueiro, não?
Amaral – Com toda certeza, e atinge tambémos serviços públicos. Porque se a gente pra falar de uma massa salarial de R$ 250 milhões e a carga tributária brasileira é de 36%, que dizer que, pelo menos, 90 milhões de impostos indiretos deixam de ser arrecadados pelas prefeituras da região e deixam de serem aplicadas em saúde, educação e tudo mais. Além, evidentemente, como você disse do consumo do dia a dia, no supermercado, farmácia e em todos os estabelecimentos que atuam na região.
E o mais grave é que isso acontece em meio à maior crise econômica do país dos últimos 85 anos. Desde 1930/1931 que o Brasil não tem dois anos seguidos de recessão, não é? Isso agrava ainda mais essa situação. Dá um tom mais dramático, não?
Amaral – Não tenha a menor dúvida. Em que pese eu ainda acreditar que ainda há uma alternativa de se reverter esse quadro, pelo menos se amenizar esse quadro, porque eu não aceito que a Usiminas, se ela tem que enxugar seu quadro e ela atua tanto em Cubatão, como Ipatinga, e praticamente na mesma proporção de 50% em cada uma das unidades. Na hora de cortar, corta 100% de Cubatão e não corta em Ipatinga. É uma questão que o governador do Estado deve discutir com o presidente da empresa e encontrar caminhos a colaborar, eventualmente, no período temporário de redução tributária do ICMS, buscar o apoio de uma medida do governo de proteção ao trabalhador que permita a redução da jornada de trabalho, e o governo federal compensa com uma parte desse salário que acaba sendo reduzido. Eu acho que as autoridades têm de se mobilizar porque a situação é muito grave, como você falou, e vem se somando a outras crises que nós já tivemos.
A saída agora então é a negociação, força política, principalmente, e mobilização do conjunto da sociedade?
Amaral – É, eu acho que o Condesb (Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista) conseguiu um avanço, quer dizer, saiu com uma moção de pedir 120 dias de trégua para se encontrar uma solução. Não sei se a empresa vai aceitar essa condição, até porque se trata de uma S.A, que depende de decisão de conselho de administração de acionistas ou coisa que vai, mas o governo federal agora também interveio dentro do processo. Se nós conseguirmos esses 120 dias de trégua, é possível se estudar formas efetivas de fazer com que a empresa não saia prejudicada, mas também não prejudique os trabalhadores. Quando lhe interessou adquirir a Cosipa, ela veio ficou com o porto, se beneficiou, na época, de R$ 3 bilhões de créditos que a Cosipa tinha naquela ocasião. Então, se foi bom naquela época, que seja bom agora também. Não adianta vir comer a carne e deixar o osso para que a gente roa.
A direção da Usiminas está praticando o capitalismo selvagem aqui. Selvagem ao extremo, não?
Amaral – É, e dentro desse processo, vamos chamar assim, de uma eventual guerra fiscal, nós estamos ficando sozinhos. Então, eu acho que tem que haver o bom senso da empresa. Ela, em 1998, tinha 29% da produção do aço brasileiro e em 2014 tem só 17%. Ela não perdeu só para os chineses, ela perdeu no mercado interno. A empresa também tem de encontrar meios de se tornar competitiva, de conseguir avançar dentro do próprio mercado. A verdade é que ela expandiu e diversificou para várias outras atividades e agora está querendo utilizar o pátio da Cosipa na área portuária, ou seja, vai diversificar um pouco mais e deixar de competir um pouco menos no mercado do aço, prejudicando os trabalhadores da região. Por isso que eu acho que as autoridades devem resistir e devem apresentar alternativas também para que a gente saia desse empasse.
O cenário atual é muito negativo para toda a região, em função dessa crise agravada pela crise nacional, não é. Agora, a situação de Cubatão, da Prefeitura de Cubatão,é muito mais grave ainda, porque a cidade depende muito da Usiminas. Como é que fica, especificamente, a Prefeitura de Cubatão?
Amaral – Cubatão vem sofrendo isso, por pelo menos há 15 anos. Para se ter uma ideia, o valor adicionado gerado pela indústria de Cubatão no passado foi de R$ 13 bilhões e.800 milhões e deveria ter sido de R$ 18 bilhões, ou seja, já encolheu em R$ 5 bilhões a produção do polo industrial.Se acontecer o que está previsto são três a menos e Cubatão, evidentemente, hoje já está arrecadando, pelo menos, R$ 160 bilhões de ICMS a menos do que deveria estar arrecadando em relação a 2001. Portanto, se perder mais 80 milhões, são 240 milhões que uma cidade deixa de arrecadar. Aí, como disse a própria prefeita Marcia Rosa, fica praticamente inadministrável, porque é uma prefeitura que só de folha de pagamento tem quase R$ 500 milhões.
Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV:




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