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Sem cobrança por parte da sociedade, o país não muda, afirma economista

31/10/2015 Jornal da Orla
Sem cobrança por parte da sociedade, o país não muda, afirma economista | Jornal da Orla
Em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, afirma que o brasileiro ainda vai enfrentar um período de dificuldades em razão de uma sequência de erros cometidos pelos governos petistas. Segundo ele, é preciso mais transparência, redução de gastos e investimentos em infraestrutura para o Brasil superar a atual crise econômica. Um processo lento, que exige, também, cobrança por parte da sociedade. Abaixo, os principais trechos da entrevista:
 
Vamos falar sobre os rumos da economia brasileira. O que está acontecendo com a nossa economia?
Alex Agostini – É uma coisa bastante interessante, porque hoje nós estamos vivendo o resultado de tudo aquilo que foi feito pelo governo brasileiro, aliás, não feito pelo governo brasileiro nos últimos 10 anos. Ou seja, houve sempre uma grande preocupação em estimular o consumo, em estimular o crédito, mas nunca se preocupou em olhar para as medidas estruturais, como controle de inflação, aumento de investimentos, ganho de eficiência, qualificação profissional. Isso sempre foi deixado à margem de toda a política econômica.Então, agora, infelizmente, nós estamos colhendo os maus frutos dessa política econômica que foi focada em um modelo de crescimento amparada pelo consumo. Nos EUA é assim, mas os EUA são uma economia desenvolvida, tem ganho de escala, tem infraestrutura.  
 
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro investiu R$ 1 bilhão no Porto de Cuba e não investe no Porto de Santos ou em obras estruturais no Porto de Santos. Existe uma questão ideológica também…
Agostini – Hoje, o grande mal do Brasil, infelizmente, ainda é o ambiente político. Tem aí um viés comunista,claramente. Não adianta dizer que não, nós estamos ao lado da Bolívia, da Venezuela, de Cuba, que têm problemas com a sua gestão econômica. São países que vivem, como a Venezuela, praticamente uma guerra civil, que têm filas para as pessoas comprarem alimentos básicos. O Brasil, infelizmente, está ao lado dessa visão, dessa mentalidade e isso é aplicado aqui em algumas áreas. Infraestrutura, por exemplo, ela é deixada de lado no Brasil. Têm algumas ações que o governo tem feito e que devem ser reconhecidas. O governo olhou para o lado de uma parte da população que estava à margem do consumo.
 
Houve uma grande inclusão social, sem dúvida…
Agostini – Sim, agora parte dessa inclusão social não é exclusivamente de ações como o Bolsa Família. Não, engana-se quem acredita nisso. Não é exclusivamente, isso é uma parte da melhora da situação da pobreza. Outra parte, sem dúvida alguma, é essa estabilidade monetária. São mais de 20 anos com uma única moeda. Nunca houve na história deste país uma estabilidade monetária, que foi a implementação do Plano Real em 1994, que reduziu a inflação, melhorou a expectativa de retorno e de longo prazo, melhorou o investimento em algumas áreas.. O setor de telefonia, por exemplo, no Brasil, ainda está engatinhando, mas melhorou muito em relação ao que era lá atrás. Mas o governo brasileiro foi muito relapso naquilo que a gente precisa melhorar, na competitividade, em investimento. Você diz o Porto de Santos, mas os aeroportos, as estradas, 61% do que é transportado no país é por via terrestre. Se você for sair dos grandes centros e for para o norte do país, você não consegue nem transitar por via terrestre. O governo atual vem ainda deixando de lado o que é importante para o país melhorar. Não só para melhorar a pobreza, mas para melhorar as condições do padrão de vida de toda a sociedade. É isso que o governo não enxerga.
 
O senhor falou do modelo comunista. Só que o modelo comunista está sendo somado à malandragem, porque nós vimos grandes lideranças  envolvidas em escândalos de corrupção, de enriquecimento pessoal, o que é muito mais grave ainda. O que é preciso ser feito para mudar essa situação e tentar fazer desse país, um país melhor?
Agostini – Primeiro de tudo é ter uma transparência maior, o governo precisa ser mais transparente com as suas intenções, de política econômica, principalmente. Como que eu vou ajustar a casa? Hoje o governo gasta muito mais do que arrecada, justamente por essas benevolências que ele realizou ao longo do tempo e que agora a conta chegou e é muito cara. A primeira coisa é transparência para recuperar a credibilidade das nossas instituições, que hoje estão bastante desacreditadas. 
 
Como se faz isso?
Agostini – Cumprindo as leis, cumprindo os contratos e fazendo a lição de casa. A lição de casa na parte econômica: equilíbrio. Gastar menos do que arrecada, tem que ter um caixa, uma poupança para passar para o nosso investidor uma segurança maior no país. Se eu estou seguro com o futuro do Brasil, eu vou realizar investimentos.
 
Mas como fazer isso com um governo em que a presidente tem menos de 10% de aprovação? E, no Legislativo, o presidente da Câmara e do Senado envolvidos até em denúncias de corrupção? Falta credibilidade e não existe uma grande liderança, um estadista neste país. Como nós conseguimos recuperar a credibilidade do Brasil nessas circunstâncias?
Agostini – É um processo bastante lento e prolongado. O grande problema do Brasil e de outros países emergentes é que a gestão pública, ela sempre visa a um ciclo de quatro anos, que é o ciclo do governo. Então, eu quero deixar o meu legado para quatro anos, eu tenho que deixar a minha marca. Não, você tem que deixar um legado para a sociedade. Enquanto não mudar a prática da gestão política para uma gestão pública, para o público, não vai ter uma mudança. Claro, os caminhos eles sabem quais são, mas para chegar nessa mudança, nesse amadurecimento político, tem que abrir mão do sou eu, e ninguém, nenhum político no Brasil, já demonstrou isso
 
Não é uma questão cultural?
Agostini – É cultural, mas pode ser transformada ao longo do tempo. Precisa ter vontade e instituições sérias. Eu acho que o Judiciário, recentemente na figura do juiz Sérgio Moro, tem resgatado a sua credibilidade. Eu acho que é um processo lento, mas é um caminho. Temos uma esperança de melhora? Sim. Vamos ter essa melhora agora, talvez nos próximos 20 anos? Duvido. Uma melhora significativa? Duvido. O Japão demorou, pelo menos, 50 anos para ser uma grande potência pós Primeira Guerra. Os EUA levaram duas gerações para ser uma grande potência. O Brasil tem tudo para ser uma potência. É a oitava maior economia do mundo, as suas dimensões continentais. O que falta é a mudança de sentimento em relação à gestão pública. Você precisa abrir mão do seu eu para entregar ao próximo, aquilo que de melhor pode ser feito: educação, segurança, saúde. O governo brasileiro, infelizmente, ainda não tem essa maturidade,  como todos os políticos brasileiros na Câmara, no Senado. Eu acho que é um processo natural, que a sociedade cobrando como tem feito com manifestações, começa a ter alguma mudança. Só que ela é lenta e silenciosa.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: