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Prisão de Dirceu e manifestações complicam situação do PT

08/08/2015 Jornal da Orla
Prisão de Dirceu e manifestações complicam situação do PT | Jornal da Orla
A nova prisão de José Dirceu, um dos maiores nomes da história do PT e as manifestações programadas, para o dia 16, contra o governo, complicam ainda mais a situação do PT e da presidente Dilma Rousseff (PT), que já tem o pior índice de aprovação de um presidente na história recente do país. É o que afirma o cientista político Alcindo Gonçalves, que é também coordenador do IPAT (Instituto de Pesquisas A Tribuna), em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV. Apesar de o governo estar bastante fragilizado, sem base no Congresso, Alcindo tem dúvidas sobre um eventual processo de impeachment. Sobre os desdobramento da Operação Lava Jato, ele afirma que o fato positivo é que políticos e grandes empreiteiros estão indo para a cadeia, o que mostra a força de nossas instituições. “Ninguém está acima da lei”, afirma. Confira abaixo, os principais trechos da entrevista: 
 
José Dirceu, um dos maiores nomes da história do PT, preso novamente por corrupção. O que isso representa para o Partido dos Trabalhadores e para a política no Brasil?
Alcindo Gonçalves – Não se pode, é claro, ter uma posição definitiva. Eu sou daqueles que respeitam o processo legal, que as pessoas tenham o seu direito de defesa e de apresentação dos seus argumentos e o Zé Dirceu deverá ter essa oportunidade mais uma vez, de apresentar as suas legações etc. Do ponto de vista político, evidentemente, é um problema muito sério, muito grave. O PT vem de uma trajetória de desgaste acentuado, com todas essas denúncias que começaram no mensalão, tiveram uma pequena trégua e agora retomaram com muito mais vigor, com muito mais força a partir do Petrolão, da Lava Jato e todos os seus desdobramentos.

E sabe lá Deus o que vem pela frente…
Alcindo – Embora o PT não seja o beneficiário exclusivo, ao que tudo indica, está envolvido nesse processo. Isso representa uma perda de imagem, de credibilidade, de um partido que se construiu baseado em valores, princípios, em defesa da ética e que de repente, no mínimo, acabou se colocado na situação dos outros partidos brasileiros. Está com a imagem maculada. A recuperação disso pode acontecer? Sim, pode, mas vai demandar um longo tempo, reflexão, de certa forma assumir erros e só o tempo vai fazer o seu papel saneador nesse processo todo.

Esse é o lado negativo. O lado positivo não seria a prisão do Zé Dirceu e também dos empreiteiros, que mostram a força das nossas instituições?
Alcindo – Sim, eu acho que sim. Ninguém está acima da lei. A prisão de empreiteiros foi um fato novo, que, bem ou mal, tem o episódio do mensalão, houve prisões de pessoas que não eram políticas e não era nenhum grande empreiteiro. Eram pessoas do setor de publicidade, operadores políticos etc. Eu acho que é muito importante nós atentarmos realmente, por esse aspecto, ver que o Ministério Público, a Polícia Federal e o Poder Judiciário estão atuando e isso pode significar, em um longo prazo, uma mudança substantiva nos padrões de comportamento.

Por exemplo?
Alcindo – De relações público-privado nos financiamentos públicos de campanha, nos financiamentos privados de campanha, para que nós possamos ter um país onde as coisas funcionam e de maneira mais equilibrada e normal.

Até recentemente, nós sabíamos que o Brasil era conhecido como o país da impunidade e que só pobre, negro e prostituta iam para a cadeia…
Alcindo – Não que eu ache que prender todo mundo seja a solução para o crime e a corrupção.

Mas agora se começa a construir a imagem de que a justiça é para todos…
Alcindo – Esse é um princípio republicano, do estado direito. Eu acho que a difusão disso, do enraizamento disso, na cabeça das pessoas, de toda a população, dos empresários, pode significar uma mudança de comportamento muito positiva. Não é prisão, cadeia, pena de morte, isso é bobagem, não resolve coisa nenhuma no mundo inteiro está provado isso. Os EUA são o país que mais encarcera e os índices de criminalidade são mais altos. Os países que praticam a pena de morte estão com os índices de criminalidade muito altos. Não é isso, você tem que impedir que o crime aconteça, esse deve ser o objetivo da sociedade. Criar mecanismos de cultura, educação, saúde, qualidade social e vida, mas também existir um respeito à lei, ao estado de direito, aos princípios fundamentais da lei. Respeitar a lei e cumprir a lei é bom para todo mundo, esse o paradoxo que no Brasil as pessoas não percebem. Aqueles que cometem o pequeno delito, o pequeno suborno, a pequena propina, que de certa forma está enraizada. O jeitinho brasileiro é muito negativo para o país e para cada um de nós. .

Ainda no campo da política, o jornal Folha de S. Paulo publicou, na quinta-feira, a pesquisa Datafolha que mostra uma nova queda na popularidade de Dilma Rousseff. Apenas 8% dos brasileiros consideram o governo da Dilma ótimo ou bom, enquanto 71% dizem que é ruim ou péssimo. Como governar no Brasil por mais três anos e meio nessa situação?
Alcindo – Pois é, esse é um grave problema. Os índices de aprovação do governo Dilma foram os piores de toda a história do Datafolha, iniciada em 1990. Pior do que o Collor às vésperas do impeachment. Superou quem até então era o recordista de impopularidade.. Isso é muito grave e se explica facilmente: é a crise econômica, em primeiro plano, quer dizer, recessão, crescimento negativo, desemprego em alta, renda caindo, os investimentos despencando, déficit fiscal, esse emaranhado de problemas na questão econômica que atinge todas as pessoas indistintamente. Já na crise política a Dilma não tem base congressual, que está esfacelada, seu partido está bastante enfraquecido e tem a crise  ética-moral com as denúncias de corrupção etc. Você junta tudo isso e o resultado é esse que nós estamos vendo, o desgaste absoluto. No sistema presidencialista, eu considero muito difícil, se fosse um regime parlamentarista o governo cairia. 

Nós conhecemos os nossos deputados, ninguém quer segurar a alça de caixão. Não pode acontecer o impeachment?
Alcindo – O impeachment não é impossível, evidentemente. Mas o impeachment não pode ser uma técnica para tirar presidente que não está indo bem, porque vira uma violação. O impeachment é uma situação extrema, radical, traumática, que já houve uma situação recente no Brasil com o Collor. A Dilma, até o momento, não foi envolvida pessoalmente em nenhuma denúncia..

Tem envolvimento e denúncias de dinheiro para a campanha dela e do Temer, as pedaladas fiscais…
Alcindo – Não para ela pessoalmente. O que resta como alternativa, que é o que tem hoje um pouco mais de força, seria a rejeição de contas pelo Tribunal de Contas da União. Uma coisa que me assusta como cidadão, como pessoa, é dizer: bom e daí?

A história se repete como farsa. Michel Temer está com cara de Itamar Franco. Sobre as manifestações do dia 16, o que acontece a partir dessa data? 
Alcindo – Se a manifestação for muito expressiva, com 71% (de desaprovação) ninguém vai ficar surpreso. É mais um ingrediente a dificultar e comprometer o atual governo, mas não acho que as manifestações por si só vão ser suficientes para liquidar o governo.

Como dizia um velho político brasileiro: depois do dia 16, o futuro a Deus pertence?
Alcindo – O futuro a Deus pertence todos os dias. Eu acho difícil nós querermos fazer especulações. Podemos traçar cenários, ver as possibilidades, dizer que é um governo fraco, que terá muitas dificuldades. Eu não sei se acaba em impeachment.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: