
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sempre teve um papel fundamental na história política do Brasil e vai continuar atuando em defesa dos interesses da sociedade. É o que afirma o presidente da OAB-Santos, Rodrigo Julião, em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV. Para Julião, os escândalos apontados na Operação Lava Jato revelam um aspecto positivo: o país está mudando e deixando de lado a cultura da impunidade. “Estou mais otimista com o futuro do Brasil”, diz ele. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
O Brasil vive a sua maior crise política e econômica dos últimos 30 anos. Qual é o papel da OAB e como ela está vendo essa situação?
Rodrigo Julião – A OAB sempre teve um papel fundamental na história política do Brasil. O que eu costumo falar como dirigente da nossa instituição é que nos momentos mais delicados do Brasil, a OAB sempre tomou a frente em prol da sociedade. Infelizmente, nós vemos algumas condutas que envolvem a OAB no âmbito federal que acabam desvirtuando o seu papel institucional. A OAB não tem que estar acima de nenhuma instituição, mas não deve ser subserviente a nenhuma delas. A OAB tem uma função institucional voltada exclusivamente para os direitos e defesas da sociedade como um todo e é isso sempre que deve ser levado em primeiro lugar. Entendo que a OAB mais uma vez vai ter um papel fundamental, ela está participando da reforma política e lançou uma campanha nacional desde o ano passado de combate à corrupção. Nós estamos acompanhando de perto tudo que está acontecendo dentro do poder Judiciário, em prol da coletividade e esse é o nosso grande papel.
As denúncias da Lava Jato, inclusive atingem o Palácio do Planalto, já que nas delações premiadas se fala que houve dinheiro sujo, dinheiro da corrupção, para as campanhas da Dilma, do Temer e também envolvem o presidente da Câmara e o presidente do Senado. O senhor vê risco de uma crise institucional?
Julião – Não, eu não vejo risco de crise institucional. O que eu costumo passar aos nossos pares é que uma denúncia desse porte, de âmbito nacional, com o Brasil inteiro acompanhando, é muito complicado. Muito se comenta se o juiz do caso está certo, se está errado, se está ultrapassando os seus deveres de magistrado ou não está. Isso quem vai decidir é o Poder Judiciário. Nós acreditamos no Poder Judiciário e são eles que vão dar a palavra final. A OAB é uma instituição que tem uma credibilidade muito grande com a população e, se Deus quiser, ela não vai perder essa credibilidade em defesa da sociedade.
Sempre se falou que o Brasil é o país da impunidade e que aqui só pobre ia para a cadeia. Hoje, a situação mudou. Nós temos os maiores empresários e empreiteiros do Brasil presos por conta da corrupção na Petrobras. Isso não representa um avanço para o país?
Julião – Sem dúvida, a questão da impunidade no Brasil sempre foi um dos nossos maiores problemas. A corrupção, infelizmente, é uma coisa cultural, nós não começamos a ouvir falar de corrupção agora; desde criança eu ouço falar de corrupção. Aqui, na nossa sociedade, cada um dentro de suas possibilidades. O jeitinho brasileiro, tem que acabar com isso. Eu, como idealista, acredito no nosso país, nas nossas instituições e acho que a sociedade agora está tendo um retorno. Não porque A, B ou C está na cadeia, mas porque a informação hoje vem sendo divulgada, coisa que não acontecia há 15, 20 anos. Hoje, com a tecnologia e com o acesso à informação, o pessoal começa a ter mais receio. O brasileiro não tem medo de ser preso porque sempre acha que não vai dar em nada. Não, não é assim, se determinadas pessoas estão respondendo, eu posso responder também. Eu tenho o meu dever de cidadania e urbanidade, de zelar para o que é melhor para o nosso país e para a nossa sociedade. Esse aspecto cultural, eu acho que eu vejo que, num futuro próximo, se Deus quiser, nós vamos avançar. Eu estou sentindo uma mudança não apenas por parte da sociedade, mas também dos veículos de comunicação. Todos nós estamos mais esperançosos.
Quer dizer, apesar da crise ou por conta da crise, o Brasil está avançando, as suas instituições estão se mostrando sólidas e o Brasil pode, enfim, deixar de ser o país da impunidade?
Julião – Sem dúvida nenhuma. É como falamos: por um lado, crise, por outro, um avanço. Eu vejo que o Brasil está avançando porque nunca foi discutida essa questão cultural como estamos discutindo hoje em dia. Nunca foi discutida a questão do pensamento voltado para a população como hoje nós temos várias pessoas novas discutindo. Tem muito o que mudar? Tem, a estrutura toda merece modificação, até o acesso ao poder. Acesso ao Poder Executivo, ao Poder Legislativo e ao próprio Poder Judiciário. Os ministros do Supremo como modo de indicação, eu tenho as sérias ressalvas com as indicações ao STF. Não vamos mudar tudo de um dia para o outro, mas o sentimento de crise de um lado, eu vejo de outro um sentimento de esperança por parte da população e isso me deixa muito feliz. É isso que me faz acreditar cada vez mais no nosso país.
O que senhor espera para os próximos meses sobre os desdobramentos da crise por conta da Operação Lava Jato?
Julião – Eu acho que a Operação Lava Jato está tomando uma proporção que ninguém esperava e que ela está chegando a pessoas cada vez mais próximas não apenas do governo, mas próximas do alto escalão dos poderes Executivo e Legislativo. Eu acho que a proporção que vai ser dada para isso é difícil. Eu tenho esperança de que quem eventualmente praticou algum delito, responda por ele.
Como o senhor está vendo a atuação do juiz Sérgio Moro, que é hoje uma espécie de herói nacional e o terror dos empreiteiros?
Julião – Eu gosto muito da participação e atuação dele. Eu sei que a Ordem, em muitos momentos, retaliou as condutas dele, não estou dizendo 100%, mas estou dizendo que o modo de condução de um processo dessa complexidade e sabendo que tem um dos maiores escritórios jurídicos por trás desse processo, é uma dificuldade muito grande para um juiz tocar um processo como esse. Nós, que trabalhamos no Poder Judiciário, sabemos dessa dificuldade e sabemos também da dificuldade do processo com a repercussão que está tendo no país. Eu, particularmente, estou gostando do resultado que eu estou vendo. Não porque está tendo condenação, mas porque está tendo processo, uma discussão sobre um tema relevante e isso tem que ser passado para a sociedade. Nós não estamos aqui para condenar ninguém, mas o Judiciário tem que dar uma resposta e eu estou vendo o Judiciário buscar essa resposta.



.jpg)
Deixe um comentário