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Cascione acredita que Dilma não termina o ano como presidente

11/07/2015 Jornal da Orla
Cascione acredita que Dilma não termina o ano como presidente | Jornal da Orla
Em entrevista ao Programa Jornal da Orla na TV, o advogado, escritor e ex-deputado federal Vicente Cascione afirma que a crise política e econômica vivida pelo Brasil é decorrência da perda de valores éticos e morais por parte da sociedade. “A cidadania não é exercida no Brasil há muito tempo”, diz ele. Cascione também diz que a situação da presidente Dilma Rousseff é bastante complicada: “Eu acho difícil ela chegar até o fim do ano como presidente da República”. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
 
Vamos falar sobre o clima político no Brasil. Em Brasília, muitos analistas dão como bastante provável o impeachment da presidente Dilma. O senhor concorda com essa corrente de pensamento?
Vicente Cascione – Primeiro, todas as pessoas que levam um tombo, isto é, que caem, não caem de propósito, caem sem querer.  Por isso é tombo. Quando você tem a performance de dublê de cinema, você cai de propósito.  Quando você está no tatame lutando judô, você cai muitas vezes para derrubar o adversário. Esse não é o caso dela, ela não está fazendo performance. Ela está andando de uma forma trôpega, num terreno escorregadio, dizendo “Eu não caio”. Se ela tivesse convicção que não ia cair, diria apenas uma vez na entrevista que ela deu e que saiu na Folha: “Eu não caio”. Ela disse “Eu não caio”, “Eu não caio” e “Eu não caio”. Depois ela disse “Quem quiser me derrubar, que tente”. Essa insistência é um processo de autoconvencimento, ela está querendo se convencer de que não vai cair e que quem quiser derrubá-la, não vai conseguir. 

Mas a presidente resiste?
Cascione – Eu acho a situação grave, nós já vimos filmes parecidos no Brasil. Se ela ultrapassar esse momento, que é um momento em que está havendo uma espécie de catarse e que as forças convergem todas para o impeachment ou para forçar a renúncia. Eu acho difícil por parte dela para que isso aconteça. Se ela ultrapassar esse momento, que para mim é o de maior turbulência, aí ela pode até seguir adiante e pode vir até a cair amanhã por um outro fato que nós ainda não conhecemos e que pode até acontecer. Eu acho difícil ela ultrapassar essa crise que ela está vivendo porque vai contagiando, é um processo de contágio. Há uma incorporação da ideia do impeachment, do impedimento. Eu acho difícil ela chegar até o fim do ano como presidente da República. 

Essa sem dúvida é a maior crise dos últimos 30 anos. Tem paralelo na história do Brasil essa mistura de crise política com crise econômica?
Cascione –  Tivemos crises parecidas no tempo do Sarney, quando inventaram os fiscais do Sarney. No tempo do regime militar nunca houve uma crise assim, até porque houve o milagre do brasileiro que se deveu a conjunturas que não eram evidentemente devidas a ação competente dos que governavam, dos generais presidente. Quando começou a primeira crise? A crise da inflação chegar a 80% no mês. Aquela crise assustou e era o Sarney, os fiscais do Sarney que congelavam preços, aquela coisa toda. Superamos, depois teve a crise do Collor e que dava para perceber que devagarzinho ia parecendo que ele iria resistir. Devagarzinho, devagarzinho, ele foi perdendo a base de sustentação, foi perdendo o pé e acabou sendo alvo do impeachment, como todo mundo sabe e nem sei se seria cabível comparando com a situação de hoje. Acho que era menos grave a situação dele porque não se provou nenhum ato de corrupção contra o Collor e ele caiu por causa do Fiat Elba.  

Então, os valores do Brasil foram se perdendo, nós estamos perdendo os nossos valores morais e éticos?
Cascione – Sem dúvida. Você pega o Congresso de hoje, não precisa ir muito lá pra trás, de grandes figuras políticas do Brasil. Vamos ficar com a Constituinte de 46, que tinha um Congresso de primeiro time. Pega um Congresso do tempo em que eu fui deputado no primeiro mandato. Pega a Comissão de Constituição de Justiça daquele tempo. Você via o nível das figuras que integravam a Comissão de Justiça. Hoje, você não vê no Brasil uma liderança política em nível municipal, estadual e federal, que você diga: esta é a figura de um estadista. São os mesmos que têm um teto, batem num determinado teto e dali não passam. Você não tem figuras históricas, figuras que entrem para a história ou que tenham vocação para se imortalizar na memória de uma nação. O Brasil hoje, por causa da perda de valores, por causa da promiscuidade que existe não apenas na política, mas em todos os setores da atividade, por causa dos valores da própria sociedade, que é uma sociedade de consumo e de descarte. Consome e descarta e não pára para ver a vida como ela é e como deveria ser vivida na sua essência. Então, quando você vê essa coisa que se estratifica, inclusive hoje nas redes sociais pela linguagem, pelos juízos precipitados, pela maledicência, pelas injúrias, pela banalidade de tudo, seria muito difícil que você pudesse ter hoje um grande Congresso ou um grande governo. O Judiciário está à beira da falência, o Executivo faliu e o Legislativo faliu.

Numa eventual hipótese do impeachment haveria duas possibilidades. A primeira delas é o impeachment pelo TSE, por conta de dinheiro ilegal na campanha, que seriam cassados a Dilma e o Temer e teríamos novas eleições. A segunda, por conta da rejeição do Tribunal de Contas pelas contas da presidente. Dilma teria o mandato cassado pelo Congresso, mas aí o Temer assumiria. Qual dessas duas hipóteses, na possibilidade do impeachment, o senhor acha que seria o risco maior para o atual governo?
Cascione – Eu não conheço as contas, não conheço o processo. Se a rejeição é dada como certa e for aplicada a lei, evidentemente que ela sofrerá o impeachment. Não é só isso que está levando quase que à ingovernabilidade. Eu acho que é por uma série de fatores. Acho, por outro lado, queo discurso da oposição é de uma mediocridade, é de uma falta de nível porque num momento desses, você teria que ter uma voz destoante que fosse, uma voz de peso e houvesse o interlocutor da oposição, um porta-voz da oposição que fosse um estadista. E hoje não temos. Temos o Aécio que, para mim, é um frívolo. Eu fui deputado com ele, não tem muita diferença de tudo que anda aí. Então, como eu disse, nós estamos órfãos. Eu nunca tive dúvida daquela velha e repetida história da base da pirâmide: as instituições são o reflexo de uma sociedade e de uma nação. Quando a nação erige o seu ápice gente despreparada, gente que não tem condição, que não tem nível, é porque isto reflete a base da nação. Claro que têm exceções, mas o povo brasileiro, de uma maneira geral e por várias razões e em seus vários segmentos, uns que não têm culpa porque não tiveram a oportunidade, outros porque tem culpa e foram oportunistas, outros porque foram negligentes e omissos. A verdade é que a cidadania no Brasil não foi e não é exercida há muito tempo.

Nós temos um problema sério. A presidente ainda tem um mandato de três anos e meio e uma crise econômica grave. Para você superar uma crise, nós sabemos que é preciso confiança e a presidente não tem essa confiança, ela só tem 9% de aprovação. Como resolver esse dilema?
Cascione – O problema é que se ela cair, quem assumir o lugar dela vai herdar a crise e não terá condições, na minha visão, de a curto prazo, resolver o problema da crise. Não existe solução a curto prazo. E aí o que vai acontecer: cai a presidente, entra alguém para substitui-la e a crise continua e se agrava. Você tem um descontrole que você não sabe aonde pode chegar, até porque pouca gente deu importância a uma frase do Lula. O Lula não diz uma frase que tenha primeiras, segundas ou terceiras intenções. Ele disse outro dia “Se quiserem me derrubar, vão ter que me derrubar no meio da rua”. Isso significa que ele, na minha visão, tem ideias de arregimentar um contingente da nação, aqueles que o seguirão porque são herdeiros de políticas sociais que parece que foram redentoras, esses podem sair para rua para o tudo ou nada. E você pode ter uma conflagração social eclodindo, aqui, ali, acolá. Eu não estranharia isso porque todo o processo histórico revolucionário muitas vezes começa do caos e vai para o caos e meio. Nem sempre uma revolução começa com equilíbrio, metas, objetivos de fazer uma revolução, isto é, de melhorar e resolver o que havia para chegar a uma condição melhor. Muitas vezes a revolução é a explosão de briga de botequim.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: