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PT deve perder muitas prefeituras, diz cientista político

20/06/2015 Jornal da Orla
PT deve perder muitas prefeituras, diz cientista político | Jornal da Orla
Em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV, o cientista político Fernando Chagas afirma que o PT deve sofrer uma grande derrota nas eleições do próximo ano. Para ele, a presidente Dilma Rousseff (PT) também dificilmente conseguirá recuperar bons índices de popularidade. “Esse é um mandato perdido. O problema é a economia”. Com o agravamento da crise econômica, ele afirma que os prefeitos precisam cortar despesas e as pessoas só devem gastar o necessário. Abaixo, os principais trechos da entrevista.
 
O Brasil vive um momento delicado, com crise política e crise econômica. Como você vê essa situação?
Fernando Chagas – São irmãs gêmeas. Há um pouco de crise política e um pouco de crise econômica.

Nós temos o agravante de que no ano que vem teremos eleições…
Chagas – E eleições municipais são fundamentais para quem tem pretensão de ser presidente da república. Para ganhar a presidência da república, tem que ter um número razoável de prefeituras nas mãos. Tem que ser forte nos municípios,  forte de vereador e prefeito, isso é fundamental. Aliás, quem trabalha muito bem nisso é o PMDB. Só que a finalidade do PMDB não é a presidência da república, mas dominar o Congresso Nacional. O ônus é do Poder Executivo e o bônus é do PMDB, assim ele vai levando. E hoje o PMDB está muito fortalecido porque temos uma presidente fraca (Dilma) e essa presidência fraca acaba criando um vácuo. Isso não existe em política. O vazio é ocupado e hoje é ocupado pelo PMDB, com o Eduardo Cunha como presidente da Câmara, Renan Calheiros como presidente do Congresso e Michel Temer, que além de ser vice-presidente, também é o articulador político do governo Dilma, deixando o PT em segundo plano. A questão econômica, eu vou até arriscar dizer que nós estamos entrando em uma estagflação. O que é isso? Uma inflação muito alta que deve chegar a 8,5% no fim do ano e com uma retração do crescimento do PIB em 2%. 

É o que os economistas chamam de ‘o pior dos mundos’…
Chagas – Pior dos mundos e errado de acontecer. Como que se tem um país com retração de 2% no fim do ano e uma inflação ascendente? A inflação deve chegar em agosto/ setembro em 9,1 ou 9,2%. É um mundo impossível e que está acontecendo por erros do passado. Essa não é uma inflação do Joaquim Levy, o ministro da Fazenda, mas há uma inflação corretiva do represamento dos preços administrados do passado pelo governo Dilma. O que são preços administrados? São preços de tarifa de energia, combustível e transporte público. Uma hora isso tinha que se soltar, estava represado e tinha que aumentar. No momento que aumentou, mesmo com um país com um crescimento baixo da economia, a inflação estoura.

A responsabilidade, basicamente, é do governo Dilma …
Chagas – A verdade é que o PT não aceita isso, mas o governo Lula, de 2002 a 2008, deu continuidade a um modelo econômico do FHC. Com a queda mundial da Bolsa de Valores, das questões bancárias, quando estourou a bolha mundial dos imóveis nos EUA, isso abalou todo o sistema bancário mundial e atingiu o Brasil. Aí mudou-se o modelo econômico do Brasil, a nova matriz macroeconômica. Essa nova matriz macroeconômica não deu certo. Primeiro o governo Lula no final de 2008 e depois o governo Dilma entenderam que era preciso incentivar no Brasil o consumo ao invés da produção. Eles achavam que o problema era o consumo.

Mas o modelo esgotou-se?
Chagas – Esgotou, acabou acelerando o esgotamento. Esse modelo ia se esgotar em algum momento. Com essa mudança do modelo do FHC para o modelo da nova matriz econômica de Guido Mantega e Arno Augustin, chefiado pela Dilma Rousseff, uma hora ia estourar e eles aceleraram esse estouro. Daí hoje, o Joaquim Levy tem que equilibrar as contas e fazer o ajuste fiscal, diminuindo despesas. O que é muito difícil diminuir despesas no poder público e aumentar tributos. Se não fizer isso para equilibrar as contas, o Brasil vai continuar patinando e nós vamos sair da estagnação que nós estamos e entrar numa grave recessão.

É possível o Governo Dilma reverter esse quadro? Os níveis de popularidade da Dilma são baixíssimos, talvez os mais baixos da história política recente do Brasil…
Chagas – Muito difícil. Eu vejo que esse mandato está perdido, por mais articulação política que ela tente fazer. O nosso problema hoje é economia. Nós vamos ter um PIB muito baixo este ano, uma retração de 2%. No ano que vem, vai ficar em torno de 0% e, nos dois próximos anos, em torno de 1,5%. Isso aí não recupera a popularidade de ninguém. Então, aquela maravilha que nós vivemos de 2002 a 2008, que o Brasil cresceu, distribuiu renda, criou a nova classe média, isso aí esquece. É um mandato perdido e sendo um mandato perdido pelo lado da economia, mesmo que ela recupere a articulação política, que eu acho difícil. Ela não salva esse mandato. Eu vejo uma situação muito difícil para a atual situação manter o poder em 2018.

O grande problema do PT foi também que aparelhou o Estado. Usou o Estado como se fosse propriedade dele, do PT, aí deu no que deu. O que você espera para o PT em termos de eleições em 2016?
Chagas – Em 2016, eles vão perder muitas prefeituras e vai estar muito enfraquecido em 2018. A situação do PT hoje é muito difícil, ao ponto de pesquisas internas do partido mostrarem que a presidente Dilma tem apenas 8% de aprovação. Isso é muito pouco e numa economia recessiva que nós vamos entrar é muito difícil recuperar. .

Apesar do desastre do governo do PT, o Congresso Nacional, a classe política com raríssimas exceções, também não ajuda nada. Muito pelo contrário, nós vemos um Congresso insensível, com os políticos cada um procurando tentar levar vantagem para si e para seu grupo político. Até shopping center vão construir no valor de R$ 1 bilhão na Câmara Federal. A que se deve essa insensibilidade política?
Chagas – Brasília isola os políticos e falta sensibilidade aos políticos brasileiros. É impressionante, mas eles não sentem isso. Uma pesquisa recente mostrou que o brasileiro rejeita 80% dos partidos, 80% os políticos e quando fala-se político são os do Congresso, e 77% duvidam da democracia. Isso que é mais grave. O político brasileiro ainda não percebeu isso, que eles estão com um desgaste enorme. Eles pensam que o desgaste é só da Dilma e não é só da Dilma. O desgaste é de todos os políticos, do Congresso, da Dilma, menos do Poder Judiciário. 

Você falou do Poder Judiciário, mas eles também não têm sensibilidade. Teve um reajuste recente de 32% e agora eles querem outro reajuste de quase 70%. Eles estão mudando a lei da magistratura. Os juízes querem receber 17 salários por ano e um monte de privilégios. Quer dizer é o país dos privilégios. Não é uma espécie de suicídio coletivo em que estão jogando a sociedade para o caos?
Chagas – Isso realmente está ocorrendo. Você falou sobre misturar o patrimônio público com o patrimônio privado. É o patrimonialismo, uma característica do poder público brasileiro, seja o Executivo, Legislativo ou Judiciário. Eles não têm uma noção geral, eles misturam o particular com o privado.

E quais serão os reflexos dessa crise nos municípios, nas prefeituras, com a queda na receita? Como devem agir os prefeitos e os vereadores?
Chagas – Só vejo uma maneira: contenção de despesas. Não pode aumentar tributo, então a única maneira é conter despesas e é muito difícil no município. É difícil porque a despesa do município é de custeio, o dia a dia que nós temos que pagar. Só que é muito difícil cortar, mas não tem alternativa, tem que cortar. .

Diante da crise, que conselho você dá para as pessoas?
Chagas – Quitar o cheque especial e o cartão de crédito. E gastar apenas o necessário, o fundamental. Do contrário, ele vai se endividar e ficar com o nome sujo.