
Acabo de ler um texto do escritor Arthur Nestrovski, onde ele relata sobre ter lido agora, cartas que seu avô escrevera e sobre como elas revelam que havia ali outra pessoa que ele não conheceu, além da figura de avô.
Ah! Escrever cartas. Quanta nostalgia me deu.
Nasci numa época em que escrevíamos cartas.
Um tempo considerável era dedicado a elaborar o texto. Folhas e folhas escritas, revisadas e amassadas depois, até que surgia uma missiva. “A Missiva”
O ritual de envelopar – no meu caso, eu mesma fazia meus envelopes coloridos, cheios de enfeites e cola tenaz – selar e levar até a agência do correio que ficava no Centro da cidade na Praça Mauá. Não me lembro de existirem outras agencias pela cidade.
Uma vez postada, crescia no peito uma dor.
E então conhecíamos o que hoje tornou-se uma doença. Conhecíamos a ansiedade da espera pela resposta. Virá? Como será ela? Minha carta agradou? Minhas piadas foram inteligíveis? Transmiti meus sentimentos e emoções? Era uma ansiedade diferente: não a que nos paralisa, mas a que alargava a imaginação enquanto a resposta não vinha. Era sim um anseio por ser correspondido pela correspondência que viria depois.
E elas vinham, quase sempre vinham. Quanta felicidade ou quanta dor, quando as respostas não eram o que esperávamos. Mas a delícia da espera, do correr até o carteiro, de abrir impaciente aquele envelope dirigido a você, essa delícia era única. Transformava o tempo em beleza. Ligações telefônicas eram para poucos e muito caras. As cartas sim, acessíveis. Bastava uma folha arrancada do caderno escolar e um envelope produzido com cola e amor. Pronto! Você sentia-se dono do seu destino, autor da sua vida. Poucos poderão saber o que era a delícia de enviar e aguardar a resposta.
Lembro-me de uma carta escrita a mim, que não poderia ser lida por mais ninguém. Mas um irmão meu, curioso, conseguiu contrapor o envelope à luz e apesar da dificuldade, a curiosidade maior venceu e ele leu toda a missiva até então secreta.
E ele me confessou: eu li! Que vergonha ter meus segredos ali escancarados. E que alívio que já não eram mais segredos e com ele eu poderia dividir descobertas e esquisitices daquele tempo.
Tínhamos tempo até para essas pequenas transgressões: ler, contra a luz, os segredos dos irmãos e, depois, transformar a vergonha em cumplicidade.
Já em épocas de e-mail e sistemas de mensagens de computador, um de meus filhos já adolescente, se propôs o desafio de trocar correspondência escrita com uma namoradinha que conhecera pela antigo MSN. Intrigado me pergunta: mamãe, como se põe uma carta no correio? Quanta alegria senti em poder ensiná-lo meus passos de adolescente.
Sinto pena por perceber que apesar de termos evoluído tecnologicamente, o anseio pela resposta rápida nos tornou mais ansiosos. Hoje, diante de dois risquinhos que não azulejam, quinze segundos nos tiram a paz. Sintomas que carregamos por todo o dia.
Quando Arthur Nestrovski relê as cartas de seu avô, ele descobre uma pessoa. Será que daqui a alguns anos, quando nossas mensagens forem descobertas por nossos netos – ou pelos escafandristas, como menciona Arthur em seu texto – eles vão conseguir enxergar, através de emojis, abreviações e memes, uma pessoa por inteiro?


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