
O projeto dos canais, idealizado pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito entre o final do século 19 e início do 20, possibilitou a expansão da cidade de Santos, integrando solução de drenagem e concepção de áreas de convivência. “Ele pensa os canais sob forte inspiração de uma cultura de criação de espaços de passeio e convívio. Elabora um método inovador de fazer a água circular, usando a energia das marés”, afirma o arquiteto Carlos Roberto Monteiro de Andrade, professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo, na USP-São Carlos.
Estudioso da obra de Saturnino, ele alerta para a necessidade de manutenção desse patrimônio. “Os canais, ainda que sejam elementos da identidade santista, são vistos como locais com valor imobiliário diferenciado, estão sob pressão das incorporadoras. Não escapam da disputa que a Cidade apresenta entre interesses restritos e uma perspectiva de defesa da memória, do espaço de convívio”.
O professor participou, em 27 de junho, do lançamento do ´Movimento em Defesa dos Canais de Santos`, organizado pela regional do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-SP). “Queremos contribuir para que o conhecimento sobre os canais se amplie. Sem estudos sistemáticos será impossível propor alterações funcionais ou paisagísticas eficientes, visando o futuro atribulado pelas mudanças climáticas”, afirma Fabrício Ribeiro Godoi, coordenador do IAB na região. A primeira reunião será em agosto; para mais informações: [email protected].
Para a arquiteta Jaqueline Fernández Alves, o movimento recoloca os canais no centro do debate público. “Criamos uma frente de acompanhamento crítico das intervenções propostas, exigindo transparência, responsabilidade técnica e respeito ao tombamento. Não é ser contra obras ou melhorias, é exigir critério, projeto e respeito aos valores culturais”.
O arquiteto José Marques Carriço afirma que o movimento dará espaço à sociedade para lutar pela mudança da gestão dos canais. “É chegada a hora de combater a contaminação por esgoto, resíduos e produtos químicos. Garantir a manutenção e restauração das muretas dos trechos de praia e dos remanescentes dos pontilhões originais; entender que tombamento não é renúncia à adaptação às mudanças do clima; lutar pela melhoria da arborização e da caminhabilidade”.
PRÓ-CANAIS
Coordenador do programa Pró-Canais, da Prefeitura de Santos, o arquiteto Alessandro Lopes destaca que, em 2025, foi feito um diagnóstico de todos os canais. “Estão em andamento a limpeza e reparos de taludes, além de obras emergenciais. Está prevista, ainda, a impermeabilização de trechos das calhas”.
Ele diz que a proposta do programa é entender os impactos do crescimento da cidade e do clima nos canais, para agir com critério. “Tombamento não é dizer ‘não’ ao futuro, nem liberar qualquer mudança em nome da modernização. É estabelecer cuidado técnico. Permitir intervenções projetadas, justificadas e avaliadas, para fortalecer a função de drenagem, incorporar novas tecnologias e responder às demandas climáticas, sem apagar a memória e a identidade”.



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