Cena

Série policial da Disney não nega origem e diverte com qualidade

07/07/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Há séries que tentam reinventar o suspense. Se É Terça-Feira… É Assassinato, nova produção espanhola do Disney+, prefere um caminho mais inteligente: abraça sem vergonha a tradição do romance policial clássico e se diverte com ela. O resultado é uma mistura irresistível de mistério, humor e turismo, que transforma Lisboa em um enorme tabuleiro onde qualquer personagem pode ser o assassino.

Lembra produções bem antigas como o clássico Assassinato por Morte mas também outras mais recentes como Entre Facas e Segredos e a série Only Murders in the Building. E tem muitas referências a produções do gênero e até fora do suspense policial, como as óbvias, em especial no primeiro capítulo, a Twin Peaks, série dramática e de horror de David Lynch.

A premissa é simples e eficiente. Um grupo de turistas espanhóis chega à capital portuguesa para uma excursão organizada. O hotel já conheceu dias melhores, os viajantes carregam pequenas neuroses e grandes segredos, e a viagem mal começa quando um deles aparece morto.

Enquanto a polícia segue seus próprios caminhos, quatro passageiros, fãs de romances policiais e de histórias de crimes reais, resolvem investigar por conta própria.

É impossível não pensar em Agatha Christie. Há ecos de Assassinato no Expresso do Oriente, de Convite para um Homicídio e de tantos outros clássicos do gênero em que o prazer não está apenas em descobrir o culpado, mas em observar pessoas aparentemente comuns revelando suas excentricidades. A série encontra personalidade suficiente para não parecer apenas uma homenagem ao gênero.

Boa parte desse charme nasce da fotografia. Lisboa nunca aparece como simples cartão-postal. Alfama, Belém, Baixa, Bairro Alto e Sintra não funcionam apenas como cenários bonitos; tornam-se parte da investigação. As ruas estreitas, os bondes, os miradouros e os edifícios históricos ajudam a construir uma atmosfera em que cada esquina parece esconder uma pista — ou um suspeito. Não por acaso, os episódios recebem o nome dos bairros visitados durante a excursão.

Mas talvez o maior trunfo seja aquilo que o audiovisual espanhol faz tão bem: flertar com a loucura. Há um tipo de exagero muito próprio das produções espanholas, uma disposição para levar situações perfeitamente comuns até um ponto de completo absurdo sem perder a elegância. Os personagens discutem como se o mundo fosse acabar em cinco minutos, tomam decisões questionáveis com absoluta convicção e transformam pequenos conflitos em óperas de bolso. Em qualquer outra cinematografia isso poderia soar artificial. Aqui, faz parte do encanto.

Essa energia ajuda a série a escapar da solenidade que costuma contaminar muitos suspenses contemporâneos. Em vez de personagens sisudos caminhando sob chuva ao som de um piano melancólico, há turistas atrapalhados, detetives improvisados, suspeitos excêntricos e diálogos que encontram humor mesmo diante de um cadáver. O crime continua sendo levado a sério, mas a narrativa nunca esquece que o espectador também está ali para se divertir.

No fim, Se É Terça-Feira… É Assassinato confirma que o velho modelo de Agatha Christie continua funcionando quando encontra bons personagens, uma cidade fotogênica e roteiristas dispostos a rir de seus próprios clichês. É um mistério saboroso, elegante e deliciosamente espanhol — e isso, por si só, já é um excelente motivo para embarcar nessa excursão.