Cena

‘Touch’ da Netflix, foge do óbvio ao mostrar como o tempo nos modifica

30/06/2026 Gustavo Klein
Divulgação/Netflix

Touch estreia recente da Netflix, é um raro exemplo de cinema romântico que escolhe a maturidade em vez da conveniência. A história acompanha um homem que decide revisitar o passado para encontrar uma mulher japonesa por quem se apaixonou décadas antes, mas o filme está muito menos interessado em criar suspense ou arrancar lágrimas fáceis do que em observar como o tempo transforma pessoas, lembranças e sentimentos. O roteiro conduz essa jornada com delicadeza, inteligência e uma notável confiança na capacidade do público de compreender emoções sem que elas precisem ser explicadas a todo momento.

Em uma época em que tantos romances apostam em coincidências improváveis, reviravoltas artificiais e diálogos excessivamente explicativos, Touch segue o caminho oposto. Tudo parece nascer de experiências possíveis. Os encontros, as despedidas, as dúvidas e os silêncios têm uma autenticidade que aproxima o espectador dos personagens. A narrativa evita soluções fáceis e nunca trata o amor como uma fantasia perfeita, mas como um sentimento sujeito às circunstâncias da vida, às escolhas individuais e a acontecimentos que ninguém controla.

As interpretações são fundamentais para esse resultado. O elenco trabalha com enorme contenção, encontrando emoção em olhares, pausas e pequenos gestos. Não há espaço para exageros nem para atuações que busquem chamar mais atenção do que a própria história. A química entre os protagonistas é construída de forma gradual, respeitando suas diferenças culturais e permitindo que a relação floresça de maneira convincente. Cada personagem secundário também contribui para enriquecer a narrativa sem parecer apenas um recurso para mover a trama.

A direção acompanha essa proposta com discrição e elegância. A fotografia valoriza ambientes e rostos sem transformar cada cena em um exercício de estética, enquanto a trilha sonora sabe exatamente quando permanecer em silêncio. O resultado é um filme que não manipula o espectador a cada sequência.

Touch confirma que ainda há espaço para romances adultos, escritos com inteligência e interpretados com absoluta naturalidade. Sua maior qualidade está justamente em confiar na força de uma boa história e na verdade dos personagens, sem recorrer aos clichês que há décadas dominam boa parte das produções hollywoodianas.