Cena

Livro para crianças fala sobre autoestima e ancestralidade

19/06/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

Uma queda de bicicleta, joelhos machucados e uma conversa entre pai e filha deram origem ao novo livro do escritor Carlos Roque. Voltada ao público infantojuvenil, ‘Menina dos Joelhos Feios’ nasceu de uma situação cotidiana, mas se desenvolve em torno de temas como autoestima, pertencimento, diversidade, inteligência emocional, ancestralidade e resolução de conflitos. O lançamento acontece neste sábado (20), às 16h, na Casa das Culturas de Santos, com leitura de trechos da obra e bate-papo sobre o processo criativo.

O livro acompanha a trajetória de Tê, uma menina negra curiosa e observadora que decide investigar por que sua vizinha a chama de “Menina dos Joelhos Feios”. A busca pela resposta a conduz por uma jornada de descobertas marcada por saberes intergeracionais e pelo resgate de um legado ancestral positivo.

A inspiração surgiu quando a filha do autor sofreu uma queda e machucou os joelhos. “Eu a chamei de ‘joelhos feios’, mas ela não gostou”, relembra Carlos. O episódio despertou uma reflexão sobre o peso das palavras na construção da identidade das crianças.

A primeira versão do livro foi escrita como uma espécie de pedido de desculpas à filha. “Eu queria mostrar que nenhuma característica física define quem ela é. Um joelho não determina a identidade de ninguém”, afirma. O texto começou a ser desenvolvido antes da pandemia e ganhou sua forma definitiva após ser contemplado pelo 3º Santos Arte Preta, com apoio da Produtora Signos Possíveis.

Representatividade
As referências autobiográficas atravessam toda a narrativa. A protagonista foi inspirada em Teodora, filha do autor, enquanto a relação entre mulheres de diferentes gerações ocupa papel central na história. Segundo Carlos, a convivência entre sua sogra, sua esposa e sua filha foi determinante para a construção da obra. “Minha sogra é uma mulher muito forte e está presente no livro. Eu cresci sem a presença da minha avó e sempre me emocionou ver a relação entre ela e minha filha. Existe algo muito especial nesse vínculo entre gerações”, conta.

Embora as questões raciais não sejam o foco central da narrativa, a experiência de uma menina negra aparece de forma sutil em diferentes camadas do enredo. “São pequenas sementes espalhadas pela história. A forma como uma família mista é vista e a maneira como uma menina negra é percebida socialmente. Não está dito de forma explícita, mas está presente”, explica.

Inteligência emocional e diálogo
Para o escritor, a presença de personagens negras na literatura infantil é fundamental para que crianças possam se reconhecer nas histórias que leem e ampliar seu sentimento de pertencimento.

Ao longo da trama, Tê enfrenta conflitos com um amigo e com Dona Aurélia e, a partir dessas experiências, inicia um processo de autoconhecimento. “O arco da personagem é aprender a se olhar. Muitas vezes só percebemos determinadas características sobre nós mesmos quando alguém chama nossa atenção para elas”, observa.

Segundo o autor, uma das principais reflexões propostas pelo livro está na maneira como os conflitos podem ser enfrentados e resolvidos. Para ele, desenvolver inteligência emocional é essencial para que crianças compreendam diferentes contextos e aprendam a lidar com situações difíceis sem recorrer à violência. “Os conflitos podem ser resolvidos de diversas formas. Às vezes você não resolve apenas o seu problema, mas também ajuda a resolver o do outro. Muitas vezes a pessoa chegou a determinado ponto por razões que não têm relação direta com você”, afirma.

Leitura participativa
Além da narrativa, a publicação traz uma proposta interativa que nasceu de um erro de impressão. Em determinado trecho, três páginas ficaram em branco após uma fala da protagonista sobre as histórias por trás de seu nome. Em vez de corrigir a falha, o autor decidiu incorporá-la à experiência da leitura. “Fiquei muito feliz com esse erro. Agora as crianças podem escrever, desenhar e registrar suas próprias histórias antes de continuar a leitura”, diz.

A obra também dialoga com pais e responsáveis. Para Carlos, a criação dos filhos exige equilíbrio entre proteção e autonomia. “O papel da família é ser um ponto seguro nessa caminhada pelo mundo, acreditando que eles serão capazes de tomar decisões, aprender com os erros e seguir em frente”.