Metrópole

“Existe um novo Brasil nascendo e tentando se reconhecer”

14/06/2026 Gustavo Klein
Imagem gerada por IA

À frente da Aerah House, instituto especializado em comportamento e inteligência de mercado, Fernanda Faria fala sobre a evolução das pesquisas de mercado e de opinião e explica por que acredita que governos deveriam utilizar esse instrumento de forma permanente para compreender as necessidades da população e orientar suas decisões. Ela também comenta os principais resultados da pesquisa O Brasil de Agora, ”que revela uma população mais cansada e cautelosa, concentrada na busca por estabilidade financeira, mas que continua demonstrando orgulho de ser brasileira.

Como começou sua trajetória e sua relação com as pesquisas?

Sou formada em Comunicação Social e Ciências Sociais e depois segui para o mestrado em Antropologia. Foi durante o mestrado que comecei a trabalhar com pesquisa de mercado, ao lado da Clarice Herzog. Ela tinha acabado de sair de uma grande agência de publicidade, onde era vice-presidente, e abriu seu próprio instituto. Tive a oportunidade de aprender pesquisa de mercado com ela, justamente em um período em que essa atividade estava se desenvolvendo bastante no Brasil. Naquele momento já existiam grandes institutos, e a a pesquisa de mercado era muito ligada à necessidade de ajudar empresas a compreender o comportamento dos consumidores.

Sua carreira sempre esteve ligada a esse universo?

Sim. Meu caminho passou pelos institutos de pesquisa e também por multinacionais. Trabalhei na Unilever e isso ampliou muito minha visão sobre o papel da pesquisa de mercado. Costumo dizer aos meus alunos que, conforme o marketing foi evoluindo, a pesquisa acompanhou esse desenvolvimento. Para cada problema de negócio existe uma metodologia capaz de ajudar a entender o comportamento das pessoas e encontrar soluções.

O setor privado parece compreender bem essa importância. O mesmo acontece com o poder público?

Ainda não da mesma forma. A pesquisa sempre existiu para entender comportamento e opinião, mas ela pode fazer muito mais do que medir popularidade ou intenção de voto. A pesquisa tem o papel de ajudar a compreender as razões que estão por trás dos comportamentos e expectativas das pessoas. Ela pode mostrar por que a população está satisfeita ou insatisfeita com determinadas ações. Também pode ajudar governos a compreender melhor o que a população quer e precisa e a desenvolver soluções em conjunto com a sociedade.

Qual seria a principal contribuição da pesquisa para a gestão pública?

Os problemas que enfrentamos hoje são extremamente complexos. A pesquisa também evoluiu muito e, com o avanço das tecnologias, pode se tornar um instrumento de escuta da sociedade. Isso não significa substituir a decisão dos governantes pela opinião pública, mas ampliar sua compreensão sobre as necessidades, expectativas e desafios vividos pela população. Quanto melhor essa compreensão, maior a capacidade de desenvolver soluções aderentes à realidade.

Existe a ideia de que pesquisa é um processo demorado. Isso ainda faz sentido?

Houve um tempo em que um teste de produto ou de conceito podia levar dois ou três meses. Hoje, em cerca de 15 dias, a pesquisa pode ser realizada, analisada e apresentada ao cliente com propostas de solução. Ela pode ajudar tanto em situações de curto prazo quanto em estratégias de longo prazo.

Você acaba de lançar o estudo O Brasil de Agora. Quais resultados mais chamaram a atenção?

A questão econômica aparece como um dos principais fatores. O grande sonho do brasileiro hoje é alcançar estabilidade financeira. Ao mesmo tempo, encontramos uma população que tem dificuldade para pensar no futuro e que está muito concentrada no dia a dia. Na relação com as marcas, percebemos que as pessoas reconhecem avanços nas questões de sustentabilidade e saúde, mas ainda têm dúvidas sobre a capacidade das empresas de entregar aquilo que prometem.

Um dos pontos destacados é o cansaço da população. O que a pesquisa mostrou?

Esse foi um dos resultados que mais chamaram nossa atenção. Encontramos uma população extremamente cansada e sobrecarregada, com a sensação de que o esforço realizado já não produz o retorno esperado. Também identificamos que essa sobrecarga é ainda maior entre as mulheres. Muitas pessoas sentem que continuam se esforçando mas que esse esforço nem sempre se traduz em progresso, estabilidade ou melhora de vida.

A pesquisa também analisou a percepção sobre diversidade?

Sim. Percebemos que as questões relacionadas à diversidade racial e religiosa já foram mais assimiladas pela população. Em relação às questões LGBTQIA+, ainda existe um processo maior de assimilação dessas mudanças. É um tema que envolve diferentes aspectos da vida social e que ainda está sendo elaborado pela sociedade.

Que retrato do Brasil emerge desse levantamento?

A impressão que temos é que existe um novo Brasil nascendo e tentando se reconhecer. O país passou por muitas mudanças e a sociedade ainda está compreendendo quem é esse novo brasileiro. Ao mesmo tempo, permanecem características importantes, como o otimismo e a disposição para aceitar a diversidade. Mas encontramos também uma população mais cansada, mais cautelosa e com a percepção de que o esforço individual nem sempre produz os resultados esperados. Talvez estejamos diante de um país que passou por muitas situações difíceis e está saindo desse processo de uma forma diferente, tentando compreender sua própria transformação.

Qual é a principal mensagem que essa pesquisa deixa?

A principal mensagem é que o Brasil está passando por uma transformação importante. Encontramos brasileiros mais realistas, mais conscientes dos desafios que enfrentam e mais preocupados com estabilidade do que no passado. Ao mesmo tempo, a sociedade está sendo desafiada a conviver com diferenças cada vez mais visíveis e a construir novos consensos. Talvez estejamos diante de um país que ainda está aprendendo a compreender quem está se tornando. E, justamente por isso, precisa voltar a discutir o futuro que quer construir.