Cena

Regina, como toda grande mãe, não se divide: é puro coração

10/05/2026 Gustavo Klein
Gustavo Klein

A história de Regina Gonçalves não começa na dor — mas é a partir dela que ganha um novo sentido. Mãe de quatro filhos, ela sempre se viu como alguém abençoada pela família que construiu. “Deus me abençoou com meus filhos”, resume. A vida, no entanto, impôs rupturas profundas: primeiro, a perda do marido, quando ainda criava crianças pequenas; depois, anos mais tarde, a morte de dois filhos.

“Você nunca está preparada”, diz, com a pausa de quem ainda organiza sentimentos que não cabem em palavras. Criou os quatro sozinha. Com dificuldade, fé e uma união que, segundo ela, sempre foi a base de tudo. “O que faltava para um, os outros compreendiam. Nunca teve briga, ciúme. Isso, para mim, já era uma vitória.”

Mas foi diante da perda mais dura — a de um filho — que nasceu algo que mudaria não só a trajetória da família, mas de milhares de pessoas. A ideia era simples: uma homenagem com missa, um gesto de despedida. Virou a Ação do Coração.

“Era para ser só ali, na praça”, lembra. Não havia estrutura, planejamento ou dimensão do que estava por vir, a multidão que desde a primeira edição aderiu ao movimento. Uma resposta coletiva difícil de explicar. “Foi uma repercussão tão grande… deslumbrou todo mundo.”

Desde então, o que nasceu como luto se transformou em missão. Uma missão sustentada por algo que dona Regina repete como princípio: nunca houve revolta. “Eu sempre pedi força. A gente não consegue ser a mesma pessoa… mas também não pode deixar de seguir.”

A Ação do Coração cresceu, se espalhou, ganhou braços ao longo do ano inteiro — de hospitais a campanhas sociais —, mas mantém no centro o mesmo gesto simbólico: o coração de tecido, feito à mão, carregado de intenções e de amor. Pequeno no tamanho, enorme no significado. “Eu acho que o mundo está sedento de amor”, afirma.

A dor, no entanto, não desaparece. Ela muda de lugar. Dona Regina sente — especialmente em datas como o Dia das Mães ou no próprio dia da ação. “Todo ano eu choro. Tem uma falta que nunca vai embora.” Ainda assim, há algo que sustenta: os relatos de quem recebe, de quem participa, de quem encontra ali algum tipo de conforto. “Tem gente que leva o coração para uma cirurgia. Tem gente que volta para agradecer. Isso é muito gratificante.”

Sem se ver como símbolo de força, ela se surpreende ao perceber o impacto que causa. “Muitas mães chegam para mim e perguntam: ‘como eu faço para continuar?’. Eu penso: quem sou eu para responder? Mas dou uma palavra de carinho”. Talvez seja justamente isso que a transforma em referência: não a certeza, mas a presença, a doçura, o acolhimento.

Ao seu lado, o filho Alexandre Camilo, o idealizador de toda a Ação, ajuda a traduzir o que muitas pessoas enxergam nela. Fala do cuidado, da atenção aos detalhes, da postura de quem acolhe. “É um papel de mãe. De quem cuida, organiza, percebe o outro.”

E é esse simbolismo — mais do que qualquer discurso — que sustenta a ação. Um cuidado que se replica em voluntários, em histórias, em encontros. Um gesto simples que cria conexão.

Dona Regina não fala em legado. Fala em missão. E, para ela, tudo se resume a um exercício cotidiano: “olhar para dentro e olhar para o lado”. Olhar para dentro, para reconhecer o que se tem. Olhar para o lado, para entender o que se pode oferecer.

É isso que a Ação do Coração propõe. E é isso que a história dela revela: que mesmo nas perdas mais profundas, ainda é possível escolher o que fazer com o amor que permanece.

AÇÃO DO CORAÇÃO
Se fossem só os corações, já seria muito. Mas além de todo o processo de produção dos corações de pano, produzidos em oficinas em escolas, associações, shoppings e outros locais, que envolve muita dedicação, há a troca destes corações, que no fundo é uma troca de amor.

O mais importante é que o evento celebra o amor na forma de corações. É uma iniciativa que tem como principal eixo a celebração do amor. E isso já é muita coisa, é muito importante.

Mas o trabalho de Regina, do filho Alexandre e de centenas de voluntários se estende por todo o ano, em hospitais, na distribuição de alimentos, de brinquedos e muito mais. Mas esta é uma outra história, para outra edição, porque o dia hoje é de dona Regina e de todas as mães que, como ela, são o coração do mundo.