Cena

‘Quando o Cinema Te Olha!?…’ propõe imersão sensorial e debates

27/04/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

Em uma proposta que vai além da exibição de filmes, o jornalista e cineasta Eduardo Ricci apresenta o ciclo “Quando o Cinema Te Olha!?…”, realizado pelo Cineclube Lanterna Mágica, da Universidade Santa Cecília. A programação segue até 25 de junho, sempre às quintas-feiras, no 5º andar do bloco E (Rua Cesário Mota, 8, Boqueirão), com entrada gratuita.

Mais do que sessões para cinéfilos, o projeto convida o público a uma experiência sensorial e reflexiva. A proposta parte de uma investigação que Eduardo define como “geografia do cinema” — os atravessamentos que ocorrem entre filme e espectador. “Quando o cinema te olha é como transformar a pergunta em algo mais direto: quando o cinema te atravessa”, explica. O próprio título do ciclo sintetiza essa ideia: começa como afirmação, se transforma em pergunta e termina em aberto, como convite à reflexão.

Para o cineasta, assistir a um filme está longe de ser um ato passivo. “Às vezes nos sentimos dentro da tela. Então, quem atravessa quem? O filme ou você atravessa o filme?”, provoca. O objetivo do ciclo é ampliar essa percepção de forma acessível, estimulando um olhar atento aos detalhes da narrativa — e também da vida.

Geladeira no cinema
Um dos elementos mais inusitados da proposta é a presença de uma geladeira na sala de exibição. O objeto funciona como dispositivo simbólico e sensorial. “Não é só para criar estranhamento. É para expandir sentidos: o que a gente guarda, o que fica esquecido, o que precisa de tempo para curar”, diz Eduardo.

A metáfora dialoga com a ideia de maturação. “A cura não é só um remédio, é um tempo de espera, de depuração — como um queijo que precisa dos seus fungos para desenvolver sabor”. Segundo ele, a iniciativa é rara no contexto cineclubista e amplia o debate para além da tela, incluindo temas como memória, tempo e alimentação — literal e simbólica.

Clássico e contemporâneo
A curadoria do ciclo combina filmes recentes e clássicos a partir de diálogos com questões contemporâneas. Entre os destaques estão O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho; Hamnet – A Vida Depois de Hamlet, de Chloé Zhao; e Pecadores, de Ryan Coogler. Ainda assim, Eduardo relativiza a ideia de protagonismo individual: “O destaque não é um filme específico, mas a forma de debater a partir da experiência”. Ele aponta, no entanto, O Agente Secreto como especialmente potente para discussões atuais.

A programação percorre diferentes países e épocas. No dia 30 de abril, será exibido A Voz de Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania; em 7 de maio, Foi Apenas Um Acidente, de Jafar Panahi; e, no dia 14, O Agente Secreto. Na sequência, no dia 21, entra em cartaz Vermelho, Branco e Sangue Azul, dirigido por Matthew López, seguido por Valor Sentimental, de Joachim Trier, no dia 28.

Em junho, o ciclo começa no dia 1º com o clássico Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, em uma sessão que também revisita a trajetória de Marilyn Monroe, discutindo a construção de sua imagem e o star system. No dia 11, será exibido Pecadores, de Ryan Coogler; no dia 18, Hamnet – A Vida Depois de Hamlet, de Chloé Zhao; e, encerrando a programação, no dia 25 de junho, Nouvelle Vague, de Richard Linklater.

O filme de encerramento dialoga diretamente com o legado de liberdade estética associado ao movimento francês que lhe dá nome. “Começamos com o passado e terminamos com o presente, sempre em revisitação”, resume Eduardo.

Cinema e experiência
Outro eixo importante do ciclo é a articulação entre cinema e saúde mental, com referências à psicologia analítica de Carl Gustav Jung. “Não é sobre violência pela violência, mas sobre entender o que estamos vivendo e buscar alguma forma de sanidade”, afirma.

A proposta não é explicar os filmes, mas expandir suas camadas por meio de debates e experiências sensoriais. “É degustar o filme, deixar que ele nos convide para dançar”, diz o cineasta.

“Desformação” de público
Para Eduardo, o papel do cineclube em Santos vai além da formação de público. Ele prefere o termo “desformação”. “Tentamos tirar o espectador desse formato pronto, para que ele crie outras maneiras de ver o mundo pelo cinema”.

O projeto também revela o impacto do acesso cultural. “Tem gente que nunca entrou num elevador. Isso já é uma experiência transformadora antes mesmo do filme começar”, observa.

Ao mesmo tempo, o cineasta aponta desafios na cena local, como a falta de integração entre agentes culturais. “Muitos grupos se fecham em si mesmos, e isso limita o potencial da cidade”.

Cinema que olha de volta
Entre suas referências pessoais, Eduardo destaca “Tudo Sobre Minha Mãe”, de Pedro Almodóvar. “É um filme que olha profundamente para a gente, atravessando questões de identidade e humanidade”.

A escolha resume o espírito do ciclo: um cinema que não apenas se assiste, mas que também devolve o olhar. Um cinema que atravessa — e é atravessado.