
Com a correria do dia a dia, muitos dos detalhes que nos cercam passam despercebidos. É a partir desse olhar atento ao cotidiano urbano que nasce Jardim Concreto, exposição da jornalista e fotógrafa Nara Assunção. A mostra fica em cartaz até 9 de maio, com entrada gratuita, na Casa Azul Jardinagem (Rua Goiás, 14, Boqueirão).
A ideia do projeto surgiu quando ainda era apenas um perfil no Instagram (@jardimconcreto), a partir de uma experiência simples, mas reveladora. “Em uma pauta corriqueira, observei uma árvore frutífera no meio de uma avenida. Aquilo me despertou esse olhar para a natureza nascendo em meio ao concreto, em locais inusitados”, conta Nara. A partir desse momento, ela passou a registrar essas cenas e compartilhar as imagens, construindo o conceito que daria origem à exposição.
Pausa e observação
A mostra reúne 15 fotografias autorais, com curadoria da designer Márcia Oquida, além de imagens produzidas por participantes da oficina Percepção do Olhar Fotográfico. Integram a exposição Ana Fernandes, Anthony Anjos, Jorge Miguel, Luigi Raphael, Luna Assunção, Maria Mendes, Matheus Elias, Nicolas Perrupato, Pedro Casimiro e Sofia Oliveira. “Ampliamos o olhar para quem também participou”, destaca a fotógrafa.
As imagens propõem um exercício sensível de observação, revelando manifestações da natureza que resistem no ambiente urbano. Essa relação entre cidade e meio ambiente também levou Nara a aprofundar seus estudos em permacultura — filosofia que defende uma convivência mais harmônica com a natureza, baseada no cuidado com a terra, com as pessoas e com o futuro.
Outro elemento que amplia a experiência é a participação da artista visual Ive Estrela, que traduz esse olhar por meio de pequenas aquarelas distribuídas pelo espaço expositivo. Representando animais, fungos e plantas, as obras funcionam como intervenções sutis, convidando o público à descoberta.
Mais do que um registro estético, Jardim Concreto propõe uma reflexão sobre a forma como nos relacionamos com a cidade. “O objetivo é fazer uma pausa e olhar com outro viés essa natureza que está ali, que muitas vezes as pessoas acham que é só mato”, afirma Nara. Para ela, essas imagens revelam não apenas beleza, mas também resistência. “Ela está ali mostrando que resiste, apesar de tanto concreto. E isso é super bonito”.
A fotógrafa também chama atenção para o que existe sob a superfície urbana. “Esquecemos que, embaixo do concreto, tem terra, tem vida. E ela aparece nessas pequenas frestas”.
Curadoria e perspectiva
O próprio processo de criação transformou a relação da artista com a cidade. Mesmo após reunir imagens suficientes, Nara decidiu refazer o ensaio. “Você começa a observar mais e o caminhar pela cidade se torna diferente, mais demorado. Outro dia, vi plantas formando um caminho no chão. A natureza está ali, basta observar”, relata.
Essa mudança de perspectiva é justamente o que ela espera provocar no público. “A ideia é desacelerar e fazer com que as pessoas saiam olhando a cidade de outra forma”.
Além da exposição, o projeto inclui um fotolivro, reunindo imagens da mostra e registros da oficina, com texto de abertura assinado por Raquel Alves. Os exemplares serão distribuídos ao público, além de destinados a escolas e bibliotecas.
Com planos de circular por outros locais, Jardim Concreto reforça uma provocação simples, mas potente: reaprender a olhar. “O observar é essencial, é a partir disso que construímos narrativas”, conclui Nara.


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