
A relação entre gerações, o olhar sensível para a natureza e a força da imaginação infantil são os eixos de Maria Bailarina – Quem Imita Quem?, novo livro da autora Clara Sznifer. Com ilustrações, design e diagramação de Márcia Okida, a obra nasce de experiências íntimas, especialmente dos momentos compartilhados com os netos.
O lançamento acontece no dia 18 de abril, às 17h, na Livraria Sol e Lua (Av. Cel. Joaquim Montenegro, 53, Aparecida), com atividade voltada ao público infantil. O livro reúne haicais integrados à narrativa e inclui um caderno central com desenhos para colorir inspirados nas personagens, convidando as crianças a interagir com a história.
A origem do projeto está em uma cena cotidiana. Durante um passeio de bicicleta, o neto da autora, então com cerca de quatro anos, interpretou uma sinalização no chão como pegadas de dinossauro. “Aquilo virou, na cabeça dele, pegada de dinossauro. Ele dizia: ‘os dinossauros passaram aqui’”, relembra Clara. A força dessa imaginação permaneceu ecoando até se transformar em narrativa. “Fiquei pensando nisso por muito tempo e resolvi criar uma história”.
Inspiração cotidiana
Se o primeiro impulso veio dessa experiência, o novo livro é atravessado pela convivência com a neta mais nova, que inspira diretamente a personagem Maria. A narrativa acompanha a menina em sua relação com o jardim, os insetos e o movimento da dança, partindo da observação do cotidiano para abordar temas como imaginação, natureza e convivência entre gerações. “Observávamos as árvores, os passarinhos, as formigas levando folhas. Era o nosso jeito de se divertir”, conta a autora.
A partir desse universo, a história mistura realidade e fantasia, associando o gosto da menina pela dança aos movimentos dos animais. “Fiz um paralelo com os bichinhos — a abelha, a borboleta — e fui criando essa relação entre o mundo real e o imaginário”.
Haicais e natureza
O uso do haicai é um dos elementos centrais da obra e reflete a trajetória da autora. “O haicai está em mim. Você passa a olhar o céu, o dia, a noite, tudo vira possibilidade de poema”, diz. No livro, os versos aparecem como respiros poéticos que ampliam a experiência da narrativa.
O próprio título sintetiza uma das reflexões propostas: a relação entre humanos e natureza. “Os animais imitam o ser humano ou o ser humano imita os animais? Na dança, nos movimentos… ficou esse questionamento”.
A parceria com Márcia Okida surgiu de forma espontânea, a partir de uma amizade já consolidada. “Comentei que queria fazer um livro e ela disse: ‘eu faço’”, lembra Clara. O resultado é um projeto gráfico delicado, construído em diálogo próximo com o texto.
Com longa trajetória no design editorial, Márcia estreia em um livro infantil autoral completo. As ilustrações foram feitas manualmente, em aquarela, com um cuidado artesanal que acompanha o tom poético da narrativa. “Foi um trabalho minucioso. Pedi fotos da neta dela para captar traços, não para reproduzir, mas para buscar uma essência”, explica.
A paleta de cores segue a mesma lógica de suavidade. “O haicai pede leveza, contemplação. Pensei em algo como um jardim no fim de tarde”, diz. Para a ilustradora, a ludicidade está mais na ideia do que no excesso visual: “A imaginação aparece na transformação dos bichinhos em bailarinas”.
Além das imagens, o livro propõe a participação ativa das crianças, com páginas em branco para colorir. “São desenhos em traço para que elas pintem do jeito delas”, completa.
Memória e afeto
O livro se constrói como gesto de memória e afeto. A relação entre avós e netos atravessa toda a obra. “Quis deixar um legado. Temos muita vivência para compartilhar, e nem sempre isso é valorizado”, afirma Clara.
A autora também vê o livro como um convite aos pais. “Gostaria que percebessem a importância dessa troca entre gerações”.
Para Márcia, o projeto realiza um desejo antigo. “Sempre trabalhei com crianças e sentia falta de criar algo diretamente para elas. Esse livro preenche esse espaço”. Agora, a expectativa é acompanhar a recepção do público infantil, especialmente entre seus próprios alunos.
Quanto à principal inspiração da obra, a neta que deu origem à personagem, Clara prefere respeitar o tempo da infância. “Ela ainda se dispersa um pouco. Li para ela, mas sei que, mais para frente, vai entender melhor. É dar tempo ao tempo”.


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