Cena

Mostra literária celebra a potência de autores negros em Santos

03/04/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

O que nasceu como um gesto íntimo e coletivo se consolidou como um espaço potente de encontro e reflexão. Criada em 2021, a Mostra Literária Autores Negros do Brasil, idealizada por Maycon Benedito, ganha nova edição entre os dias 7 e 15 de abril, no Instituto Procomum (Rua Sete de Setembro, 52 – Vila Nova), com entrada gratuita.

Mais do que uma exposição, a mostra se sustenta como território de escuta, reconhecimento e provocação em torno da literatura negra brasileira. Ao longo do percurso, o público é convidado a atravessar poemas, memórias e trajetórias que conectam diferentes gerações de autores.

O projeto teve início ainda na pandemia, quando Maycon foi incentivado por um amigo a desenvolver uma iniciativa ligada ao poeta Solano Trindade. Até então, seu contato com a obra do autor se dava principalmente pela música, não pela leitura.

A ideia retoma uma experiência anterior, durante um estágio no Sesc Prainha Florianópolis, onde participou de uma mostra dedicada a Paulo Leminski. Assim nasceu a primeira versão do projeto, inicialmente centrada em Solano Trindade. Com o tempo, a proposta se expandiu e, impulsionada por editais, passou a incorporar novos nomes da literatura negra brasileira, como Conceição Evaristo e Odailta Alves.

Hoje, a iniciativa se estrutura em dois pilares: dar visibilidade a autores negros e estimular o interesse pela leitura — especialmente da poesia. Em um cenário de queda nos índices de leitura no país, o recorte poético ganha ainda mais relevância.

Motivação e poesia
A curadoria segue um caminho sensível e pessoal. “É muito do que me toca. É o que eu leio e me emociona”, explica Maycon. Nesta edição, a mostra homenageia Solano Trindade, Conceição Evaristo e Odailta Alves — nomes fundamentais para compreender a literatura negra no Brasil. Ao destacar esses autores, o idealizador também evidencia a dimensão histórica e política de suas trajetórias.

De Solano, ressalta o papel como agente cultural. “Em cada lugar que ele passou, plantou algo ligado à arte — teatro, dança. Ele deixou marcas”. Sobre Odailta, contemporânea e também pernambucana, destaca a atuação em educação e letramento racial. Já Conceição Evaristo surge como referência incontornável. “Hoje ela é uma grande dama das letras, com o conceito de escrevivência, fundamental para pensar a literatura negra”.

Realizada em Santos, a mostra também busca estabelecer pontes com a realidade local. Embora os autores apresentados não sejam da cidade, suas obras dialogam com experiências vividas na região. “As pessoas se identificam com muitas questões. É também uma forma de pensar a presença e a memória das pessoas negras em Santos”, afirma.

Desde sua criação, o projeto já alcançou mais de 1.400 pessoas. Para Maycon, no entanto, o impacto ultrapassa os números. “O que me toca é o que acontece ali, na hora: as pessoas lendo, se emocionando, com os olhos marejados”. Ele lembra encontros marcantes com estudantes e grupos de mulheres idosas, muitas das quais se reconheceram nas palavras de Conceição Evaristo. “Parece que acende uma luz no olhar”.

Essa dimensão sensível também se reflete na relação do público com a leitura. “Na correria do dia a dia, a leitura vai ficando de lado. A mostra vira um momento de reconexão”. Muitas vezes, diz, o contato com os poemas desperta algo adormecido. “A pessoa lembra que gostava de ler ou descobre que isso existe”.

Apoio e propósito
Realizada pela Lukaya, em parceria com a N47, e contemplada pelo 3º Concurso Arte Preta de Santos, com apoio da Secretaria de Cultura, a mostra ainda depende de editais públicos para se manter. “Só consigo desenvolver com apoio. Preciso produzir material, circular. Sem isso, não dá”, afirma Maycon.

E resume a proposta da iniciativa: cultivar sensibilidade. “A mostra é uma forma de manter essa chama acesa. Se a gente não alimenta, a vida apaga isso na gente”, afirma. Mais do que uma experiência pontual, a proposta é que o encontro com a poesia reverbere no cotidiano do público. “Espero que as pessoas levem a poesia para a vida, que preservem um certo encantamento. Se isso despertar leitura, interesse pelos autores, vontade de comprar um livro, já valeu”.