
Com uma proposta que articula memória, sensorialidade e espaço urbano, o cineasta e fotojornalista Eduardo Ricci estreia uma nova versão do projeto Café Aroma Cine. Desta vez, o trabalho assume o formato de live cinema e convida o público a mergulhar nas camadas invisibilizadas da história de Santos.
A estreia acontece nos dias 7 e 9 de abril, às 19h, na Sala Maurice Legeard de Cinema (Bloco E, 5º andar), na Universidade Santa Cecília (Unisanta), com entrada gratuita. Para participar, é necessário realizar inscrição prévia pelo site. No dia 9, a sessão será destinada a alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Com projeções em múltiplas telas, o espaço se transforma em um ambiente vivo de imagens, sons e sensações. Em tempo real, Eduardo constrói a narrativa a partir da edição das imagens, enquanto a trilha sonora se entrelaça à experiência, compondo uma paisagem audiovisual que atravessa história, afetos e a memória da cidade.
A experiência começa com uma recepção imersiva, segue para a sessão e se encerra com um bate-papo aberto ao público. A proposta é direta: chegar, experimentar e sair atravessado por novas percepções sobre a cidade.
Mais do que uma exibição, Café Aroma Cine se configura como um espetáculo de cinema em tempo real. O trabalho investiga a presença da ancestralidade afro-brasileira e da cultura cafeeira na formação de Santos, propondo um olhar sensível sobre o colonialismo inscrito na arquitetura e na paisagem urbana.
O ponto de partida é a Rua XV de Novembro, no Centro Histórico, símbolo das contradições da cidade. “A Rua XV tem uma simbologia muito forte, mas não vemos ali a representatividade dos povos negros, fundamentais na construção do Porto e na cultura do café. Esse apagamento precisa ser observado”, afirma Eduardo. “Não se trata de demonizar o passado, mas de compreender esses processos e trazer as questões à tona”.
Experiência sensorial
A narrativa incorpora elementos da mitologia afro-brasileira e propõe uma travessia sensorial que desloca o olhar do espectador. Entre imagens, sons e atmosferas, o público é convidado a reconhecer tanto a mise-en-scène da cidade quanto os territórios internos que carrega. “A ideia é criar uma ambiência. O público assiste a um tipo de documentário ao vivo, em que a edição final acontece na memória de cada espectador”, diz.
A proposta adota uma perspectiva decolonial ao revisitar símbolos da formação da República e tensionar seus limites. “Trabalhamos com a ideia de que a República é o espaço do público. Mas que público é esse? Por que só uma parte teve esse lugar?”, provoca Eduardo.
Tecnologia e ancestralidade
Equilibrar recursos tecnológicos contemporâneos com saberes ancestrais é um dos desafios do projeto. “A proposta não é vingança, mas entendimento. É falar sobre o apagamento sem desumanizar ninguém, buscando uma transmutação”.
O trabalho também dialoga com o pensamento do geógrafo Milton Santos, cujo centenário de nascimento, celebrado em maio, inspira as próximas ações do projeto. “Ele pensava a relação entre o homem e a paisagem, a geopolítica e as desigualdades. Isso atravessa diretamente a pesquisa que venho desenvolvendo”, afirma.
Debate e pertencimento
Após a sessão, o público é convidado a participar de um bate-papo voltado à escuta coletiva. “Não é para eu explicar a obra, mas para ouvir as impressões. Cada pessoa terá uma leitura, e isso faz parte da experiência”.
Mais do que oferecer respostas, o live cinema busca provocar reflexões sobre identidade e pertencimento. “A ideia é que as pessoas se sintam parte dessa história. A cultura afro-brasileira atravessa todos nós”, completa.
A experiência também incorpora elementos contemporâneos, como o fluxo de imagens das redes sociais, deslocados para um ambiente offline. “Quero trazer esse excesso de informação para um espaço onde seja possível sentir, sem distrações”.
O projeto é uma realização da Ricci Filmes e do Cineclube Lanterna Mágica – Unisanta, com apoio cultural do Sistema Integrado de Bibliotecas da universidade e patrocínio da Política Nacional Aldir Blanc, do Ministério da Cultura, Prefeitura de Santos e Secretaria Municipal de Cultura.
Além da sessão, o evento contará com uma degustação inspirada na cultura afro-brasileira, mantida em sigilo até o dia da apresentação. Mais do que assistir a um filme, o público é convidado a atravessar uma experiência: sentir o cinema como paisagem, escutar a cidade como trilha e perceber que, nas encruzilhadas do tempo e da memória, novos sentidos podem emergir.


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