Cena

‘Devoradores de Estrelas’ é aventura interplanetária com foco no humano

28/03/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Que filme sensacional é Devoradores de Estrelas. Mesmo para quem já chega inclinado a gostar de ficção científica, como é o meu caso, ele se destaca com facilidade. Há a presença marcante da atriz alemã Sandra Hüller (estrela de verdadeiros clássicos recentes como o tétrico Zona de Interesse e Anatomia de uma Queda), a segurança de Ryan Gosling como um anti-herói carismático e, principalmente, um roteiro que aposta na inteligência e no humor como motores da história.

Baseado no livro de Andy Weir, o filme mantém a característica do autor de transformar conceitos científicos em algo compreensível, sem simplificar demais.

A trama parte de uma ideia direta: algo está enfraquecendo o Sol e colocando a vida na Terra em risco. A partir daí, a história acompanha um protagonista que acorda sozinho em uma nave, sem memória, cercado por sinais de que algo deu errado.

Essa escolha funciona porque o público descobre tudo junto com ele, passo a passo, mantendo o interesse sem recorrer a explicações longas. É uma construção que prende mais pela curiosidade do que pela ação.

Quando a narrativa amplia sua escala e mostra que outras estrelas, e possivelmente outras civilizações, enfrentam o mesmo problema, a história ganha força. A ficção científica aqui não é só visual, mas também uma forma de discutir cooperação, comunicação e sobrevivência. Há referências claras a outros filmes do gênero (como Contatos Imediatos e Inimigo Meu) e um diálogo interessante com histórias sobre encontros entre espécies diferentes.

O encontro entre o personagem de Gosling e o alienígena Rocky é o ponto mais forte. A relação começa com desconfiança e evolui aos poucos, de forma bem construída. O filme encontra soluções simples para mostrar como eles aprendem a se comunicar e a trabalhar juntos, e isso funciona justamente por não tentar complicar demais.

O jeito leve de Gosling ajuda bastante. Seu personagem é inseguro, às vezes perdido, mas sempre cativante, e ele equilibra bem humor e drama sem exageros.

Visualmente, o filme funciona sem excessos. Os efeitos especiais estão a serviço da história e não tentam roubar a cena. A trilha sonora ajuda a equilibrar momentos de tensão com outros mais leves, com escolhas que reforçam o tom humano da narrativa.

Canções como Two of Us, dos Beatles, e principalmente Gracias a la Vida, na voz de Mercedes Sosa, aparecem de forma marcante e ajudam a criar um contraste interessante entre o isolamento no espaço e a memória afetiva da Terra.

Outro detalhe interessante é o visual do alienígena, que foge do padrão comum e reforça a ideia de algo realmente diferente. Isso torna ainda mais envolvente acompanhar a construção dessa relação.

Nem tudo funciona com a mesma força. Em alguns momentos, o filme simplifica soluções e adota um tom mais leve do que o esperado, o que pode destoar do rigor científico apresentado em outras partes.

Ainda assim, isso não prejudica a experiência. No centro de tudo está uma história que, mesmo sendo grande em escala, foca nas relações e nas escolhas dos personagens, sustentada por curiosidade, humor e uma conexão inesperada.