Cena

Pianista mantém viva a tradição da música ao vivo no balé

07/03/2026 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

Para muitas mulheres, a arte não é apenas escolha profissional — é chamado. Com a pianista Cybele Pilipavicius foi assim. Ainda criança, começou a desenhar, sem saber, o caminho que se tornaria sua trajetória.

Nascida em São Paulo e criada na Baixada Santista, foi nos corredores da escola onde a irmã estudava que o primeiro encantamento aconteceu. “Eu ouvia a movimentação, as crianças nas aulas, e aquilo me despertou”, lembra.

Em casa, o ambiente também vibrava música. “Sempre gostei de cantar com a minha mãe. Ela tocava violão de ouvido. Era uma família musical, a gente ouvia muito vinil”. O piano surgiu como consequência natural — e permaneceu. Aos oito anos, iniciou os estudos. Foram nove anos de conservatório, seguidos pela graduação em Piano. Antes mesmo de concluir a faculdade, já dava aulas na escola onde havia se formado. “Disseram que precisavam de professora. Acabei fazendo uma espécie de estágio”. O roteiro parecia previsível: aulas, eventos, casamentos. Mas a trajetória mudaria de direção.

Música com movimento
Indicada por sua professora, Cybele começou a acompanhar aulas de dança. “Na minha cabeça, eu daria aula de piano e tocaria em eventos. Acompanhar dança não estava nos meus planos”, diz.

Hoje, atua em diferentes frentes — já trabalhou com coro, manteve um grupo vocal de MPB (atualmente em hiato), é co-repetidora de ballet e conduz aulas de canto em cursos de teatro musical —, mas reconhece seu principal nicho: o piano para dança.

Função ainda pouco conhecida, inclusive entre músicos. “Muitos pianistas nem sabem que essa é uma possibilidade de trabalho. E você só aprende a acompanhar aula de dança tocando aula de dança”.

Não basta dominar o instrumento. É preciso compreender a estrutura da aula, o tempo do movimento, a respiração do bailarino. “O que está gravado não muda, não respira. É uma interpretação engessada. Com a música ao vivo existe troca”.

Para ela, é nessa troca que mora a essência. “Se eu acelero um pouco, se faço um rallentando – redução gradual da velocidade de uma peça para efeito dramático –, isso precisa ser percebido. Essa sensibilidade é construída”.

A defesa da música ao vivo se tornou propósito. Assim nasceu o projeto Piano em Movimento.

Muitas escolas não têm pianista fixo — algumas sequer possuem piano. Cybele decidiu atravessar essa lacuna. “Eu só dei um nome ao que já fazia”.

Com um piano digital portátil, circula por cidades e estados, oferecendo aulas com música ao vivo. A iniciativa dialoga com a tradição de metodologias como a Royal Academy of Dance (RAD), que historicamente exigia execução ao vivo nos exames. Após a pandemia, tornou-se opcional — mas muitas instituições mantêm a prática. “Muita gente percebe que a diferença é grande”.

Para ela, música e dança nasceram juntas. “São artes complementares, praticamente uma coisa só”.

Escuta em tempos de excesso
Em um mundo saturado de estímulos, Cybele faz um diagnóstico sensível. “A escuta das pessoas está difícil. Tudo virou ruído”.

Ela observa o público em shows e teatros. “Às vezes a pessoa vai ao show e não vê o show. Filma tudo”. No teatro, onde ainda existe um ritual de silêncio, a dispersão resiste. “Parece estranho que a gente tenha que pedir para desligar o celular”.

A mudança também impacta as alunas de dança, habituadas às gravações fixas. “Elas viciam o ouvido. Quando escutam algo diferente, têm dificuldade de responder à musicalidade”. A música ao vivo, explica, exige presença. “Você precisa se conectar 100%. Senão, perde”.

Mulheres na música
Ao falar sobre o espaço feminino na música, Cybele é objetiva. “Melhorou, mas ainda falta”.

O piano sempre esteve associado à educação das mulheres — mas não necessariamente ao protagonismo artístico. “Quando se fala em grandes pianistas, os primeiros nomes que vêm à cabeça quase nunca são de mulheres. E há muitas mulheres instrumentistas”.

Como símbolo de resistência, ela cita Chiquinha Gonzaga. “Foi a primeira maestrina. Olha há quanto tempo já vinha fazendo um trabalho. E tantas outras vieram depois, mas quase não se fala”.

O desafio, para ela, é o reconhecimento pleno. “Enxergar a mulher de igual para igual, profissional e artisticamente. Esse respeito ainda falta”.

Processo, palco e permanência
Sobre momentos marcantes, prefere valorizar o processo. “A apresentação mais importante é sempre a que vai vir”. Ainda assim, admite que o teatro provoca um “friozinho na barriga” especial. “Tem uma atmosfera diferente”.

Às meninas que sonham ocupar espaço na música, deixa um conselho. “Não desistir. Vai dar vontade, é normal. Mas é acreditar no seu processo, estudar. Sorte pode ser uma pitada — mas você precisa ir atrás”.

Nos próximos meses, pretende expandir o Piano em Movimento, retomar o grupo vocal e continuar defendendo a música ao vivo — não apenas na dança, mas em todos os espaços possíveis. “Porque música ao vivo não é barulho. É presença”.

Em um mundo acelerado, onde tudo parece ruído, Cybele escolhe ser respiro. O piano não apenas marca os passos — devolve humanidade ao movimento.

Para ela, a arte não é ornamento. É resistência. É espelho. É bálsamo. E segue — em movimento.