Cena

Yoko Ono, artista referência e de vanguarda, chega hoje aos 93 anos

18/02/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Yoko Ono completa 93 anos hoje como uma das artistas mais influentes e incompreendidas do último século. Durante décadas, seu nome foi reduzido a um papel secundário, quase sempre ligado a John Lennon. Para muita gente, ela foi apenas a companheira do ex-Beatle. Para alguns fãs mais radicais, virou até símbolo de um ressentimento histórico, tratada injustamente como a responsável pela separação dos Beatles.

Essa narrativa nunca foi verdadeira, mas se espalhou com força, alimentada por machismo, xenofobia e pelo desconforto que parte do público tinha diante de uma mulher asiática ocupando espaço no centro da cultura pop ocidental.

Ono já era uma figura respeitada nas vanguardas artísticas muito antes de conhecer Lennon. Nasci da em Tóquio, em 1933, ela se aproximou do movimento experimental que flores cia em Nova York nos anos 1960. Seu trabalho atravessava performance, música, poesia, cinema e artes conceituais. Era uma artista ligada ao grupo Fluxus, que defendia a quebra das fronteiras entre arte e vida cotidiana. Suas obras muitas vezes exigiam participação do público e buscavam provocar reflexão, não entretenimento fácil.

PIONEIRA

Um dos exemplos mais emblemáticos é Cut Piece, performance em que ela ficava sentada imóvel enquanto pessoas eram convidadas a cortar pedaços de sua roupa (imagem deste momento ao lado). Era um gesto radical sobre vulnerabilidade, violência, olhar público e corpo feminino. Nada disso tinha relação com Beatles ou fama pop. Era arte dura, séria e pioneira.

Quando ela conheceu Lennon, em 1966, ele ficou fascinado pelo universo artístico dela. A relação dos dois foi também criativa. Trabalharam juntos em discos experimentais, filmes e ações políticas. O casal se tornou símbolo de um ativismo pacifista que marcou época, como os bed-ins contra a guerra do Vietnã. Para Lennon, Ono abriu portas para outras formas de expressão, mais livres e menos presas à lógica do mercado.

Mesmo assim, a presença dela ao lado dele virou combustível para teorias e ataques. A separação dos Beatles foi resultado de conflitos internos antigos, disputas empresariais e divergências artísticas, algo documentado amplamente. Colocar a culpa em Yoko foi uma simplificação cruel e conveniente.

As controvérsias também se alimentaram de episódios transformados em meme. Um dos mais repeti dos é o vídeo em que ela vocaliza de forma estridente durante uma jam com Lennon e Chuck Berry, deixando Berry visivelmente desconfortável. Outro meme popular, ofensivo e misógino, usa seu corpo como piada. Esses recortes dizem mais sobre o público e suas projeções do que sobre a artista. Yoko Ono sempre foi alvo fácil porque nunca tentou ser palatável e muito menos ligou ou lutou por aceitação.

MAY PANG

Nos anos 1970, o casamento com Lennon passou por uma crise conhecida como o “lost weekend”, período em que ele se separou temporariamente e viveu em Los Angeles com May Pang, assistente do casal. Pang descreveu a relação como mais complexa do que a caricatura pública sugeria, e há quem veja o episódio como uma tentativa de reorganização emocional. Lennon e Ono acabaram se reconciliando, e dessa fase surgiu um retorno artístico e familiar importante. Em 1975, nasceu Sean Lennon, e Yoko se afastou por um tempo dos holofotes para se dedicar à vida doméstica.

O ASSASSINATO DE JOHN LENNON

Tudo mudou brutalmente em 8 de dezembro de 1980, quando John Lennon foi assassinado em frente ao edifício Dakota, em Nova York. Ono estava com ele naquela noite. O crime chocou o mundo e marcou para sempre sua trajetória. A partir dali, ela se tornou guardiã do legado de Lennon, mas também precisou continuar existindo como artista em meio a um luto público permanente.

Ela administrou com firmeza o patrimônio musical e cultural do ex-marido, apoiou projetos, relança mentos e ações de preservação, mas nunca abandonou sua própria produção. Ao longo das décadas seguintes, continuou criando, expondo e sendo redescoberta por novas gerações. Suas instalações, filmes e performances ganharam espaço em museus e bienais, e sua influência sobre a arte contemporânea se consolidou de forma definitiva.

Nos anos 1990 e 2000, sua música experimental também foi reavaliada, e ela chegou a frequentar as pistas de dança com remixes eletrônicos de suas canções, algo improvável para quem era vista apenas como figura “difícil”. Yoko sempre atravessou linguagens com liberdade.

Hoje, aos 93 anos, ela é reconhecida como uma das grandes artistas conceituais do pós-guerra. Uma mulher que pagou caro por existir fora do molde, mas que nunca recuou. Reduzi-la a vilã de uma história que não lhe pertence é ignorar seis décadas de trabalho sólido, radical e transformador.