Cena

Segunda noite do Carnaval de Santos 2026 reúne fé, crítica social e paixão popular

08/02/2026 Da Redação
Isabela Marangoni

A segunda e última noite do Carnaval de Santos 2026 começou com a promessa de encerrar a festa em grande estilo na Passarela do Samba Dráusio da Cruz. Ao longo da noite, oito escolas de samba desfilam pela avenida, levando alegria, emoção e muito samba no pé ao público.

Para o prefeito Rogério Santos, o Carnaval é parte da identidade da cidade. “É o nosso DNA, a nossa base cultural. Desde o período dos quilombos — como o Quilombo do Pai Felipe, de Quintino de Lacerda — o batuque já estava presente. A história da cidade se confunde com a do Brasil e com a trajetória de compositores e escolas que foram precursoras do Carnaval paulista. É um espetáculo belíssimo, que representa alegria para a população, fortalece a cultura, movimenta o turismo e reafirma o Carnaval como a principal festa cultural do país”.

A vice-prefeita e secretária de Educação, Audrey Kleys, também destacou a força coletiva e simbólica da festa. “O que estamos vivenciando aqui, na Passarela Dráuzio da Cruz, é um Carnaval construído com alegria, emoção e encantamento. Cada detalhe revela o trabalho de uma grande equipe, dedicada a contar histórias de personagens fundamentais para a nossa cidade, para a região e para o país. O Carnaval é isso: reconhecimento das nossas raízes. A cada ano, ele cresce, fica mais bonito, atrai turistas de outros estados e até de outros países, ao mesmo tempo em que acolhe os santistas, oferecendo infraestrutura e segurança. É isso que as famílias merecem. Agora é celebrar e curtir esse Carnaval”.

O deputado federal Paulo Alexandre Barbosa, destacou a força e a evolução do Carnaval na cidade. “A energia é incomparável. É a maior festa popular que temos. Ver as arquibancadas lotadas e as escolas, a cada ano, caprichando mais e fazendo desfiles maravilhosos deixa a gente muito feliz”. Ele também ressaltou que o espetáculo apresentado na avenida é resultado de um trabalho contínuo ao longo de todo o ano. “Muitas vezes quem está em casa vê só os dois dias de desfile, mas isso aqui retrata um ano inteiro de dedicação. É um trabalho feito ao longo do ano para preparar fantasias, alegorias e carros alegóricos. É muito bonito ver a paixão das pessoas pelo Carnaval”.

Grupo de Acesso

Abrindo os desfiles do Grupo de Acesso, a Imperatriz Alvinegra apresentou o enredo “No Maior São João em Fevereiro – A Imperatriz em Cordel”. A escola levou para a avenida uma celebração vibrante do São João, uma das festas populares mais importantes do país, tendo a literatura de cordel como fio condutor. O desfile destacou ainda a força cultural das quadrilhas juninas de São Vicente, parceiras históricas da agremiação.

Com cerca de 700 componentes, distribuídos em 10 alas e três alegorias, a Imperatriz transformou o Carnaval em um grande arraial. Presidente da escola, Matheus Eduardo destacou a importância da proposta. “É muito importante trazer o São João para o Carnaval. Temos uma parceria de cerca de oito anos com as quadrilhas juninas de São Vicente, então esse enredo é uma homenagem a elas, que estão sempre presentes com a gente”, afirmou.

Sobre desfilar à frente da escola, Matheus ressaltou o simbolismo pessoal. “Comecei na escola com 10 anos e hoje, aos 33, estou no meu segundo Carnaval como presidente. É algo muito gratificante, uma experiência surreal”.
Carregada de simbolismo, a Dragões do Castelo levou à avenida o enredo “Não Adianta Mandinga, Muito Menos Olho Gordo… Dragões do Castelo, Olha Nós Aí de Novo!”. A escola abordou simpatias, superstições e rituais presentes no cotidiano brasileiro, destacando também a ancestralidade e a fé nos orixás como formas de proteção espiritual.

O desfile reuniu 800 integrantes, distribuídos em 10 alas e duas alegorias. Para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Bruno Gallego e Nathally Wonsuit, o momento foi de pura emoção. “É sempre um nervoso, mas a emoção fala mais alto. A gente vem com a mente limpa, confiante, sabendo que apresentou na avenida tudo o que foi ensaiado durante o ano”, afirmou Bruno.

Com um enredo forte e de cunho social, a Unidos da Zona Noroeste apresentou “Falsa Abolição – Somos Netos dos Negros Que Vocês Não Conseguiram Matar”. A escola propôs uma reflexão crítica sobre o racismo estrutural e questionou se a Abolição da Escravatura, de fato, garantiu liberdade plena à população negra. O desfile se afirmou como um manifesto em defesa do protagonismo negro na sociedade contemporânea.

A agremiação desfilou com 700 componentes, divididos em 10 alas e uma alegoria.
O mestre de bateria Mutchatcho destacou o trabalho coletivo como diferencial do desfile. “Foi muito estudo e dedicação. Tivemos ansiedade, dificuldades, mas montamos uma equipe de diretores comprometida em buscar a melhor afinação e um som diferente. A levada dos agogôs foi o nosso grande diferencial. Para mim, foi perfeito”, afirmou.

Fechando os desfiles do Grupo de Acesso, a Sangue Jovem homenageou o Santos Futebol Clube com o enredo “Santos Futebol Clube – O Maior Espetáculo da Terra”. A escola reedita o enredo campeão de 2006, revisitando a história, os títulos e os grandes ídolos do clube, além da tradição da Vila Belmiro e da consagração internacional do time.

A agremiação levou para a avenida 700 componentes, distribuídos em 10 alas e uma alegoria. Coreógrafa da comissão de frente, Nayma Ita ressaltou o simbolismo da escolha. “Esse foi um enredo de um ano de vitória, e a gente busca essa nova vitória para voltar ao Grupo Especial, onde a Sangue Jovem merece estar. Foi especial fechar o Grupo de Acesso, ainda mais com o tempo ajudando e tudo dando certo”, concluiu.

Grupo Especial 

A abertura do Grupo Especial ficou por conta da Padre Paulo, quinta escola a desfilar na noite. Campeã do Grupo de Acesso em 2025, a agremiação estreou na elite do Carnaval santista com cores vibrantes e um enredo de forte impacto social.

Com “Guerreiro Menino e a Jornada ao Eldorado Social”, a escola homenageou o empreendedor social Alex Thadeu, idealizador do projeto UACEP – Minha Comunidade, que desde 2007 atende centenas de crianças e suas famílias no bairro da Aparecida, em Santos. A iniciativa atua por meio da educação ampliada, do esporte e da inclusão social. O enredo percorreu a trajetória de Alex, destacando sua ancestralidade e o alcance transformador de seu trabalho na comunidade.
A escola levou à avenida 1.200 componentes, distribuídos em 11 alas e três alegorias. O intérprete da escola, Gustavinho, destacou a emoção de cantar um enredo com forte ligação comunitária. “É gratificante estar aqui resgatando a história de um professor sensacional, que faz tanto pela nossa gente. Só tenho a agradecer por esse momento”, afirmou.

Diretamente de Guarujá, a Mocidade Amazonense chegou à passarela envolta em magia e encantamento com o enredo “Enawené! Amazonawê! O Feitiço da Amazonense Tem Poder”. A proposta conduziu o público por uma viagem pela história dos feitiços ao longo do tempo, explorando suas múltiplas formas — do imaginário infantil ao feitiço do Carnaval.

O desfile também prestou homenagem à própria bateria, Feitiço da Ilha, além de dialogar com baterias de escolas co-irmãs, como a Brasil (Feitiço Brasileiro) e a X-9 (Magia Xisnoveana). A escola apresentou 13 alas, três alegorias e 1.200 componentes. O presidente da agremiação, Leonardo Teixeira, o Dinho, celebrou a apresentação. “É uma sensação maravilhosa. Foram meses de trabalho para ver essa escola linda na avenida. Tenho 48 anos de Amazonense, minha família toda é da escola, então é uma emoção enorme estar aqui nessa segunda noite”, destacou.

Campeã do Grupo Especial em 2025, a X-9 entrou na avenida em busca do bicampeonato com o enredo “Eu Vim Aqui Pra Te Mostrar Que o Mar Está em Todo Lugar”. A escola abordou a importância do mar para a existência humana, explorando seu simbolismo, misticismo, a diversidade da vida marinha, o sustento dos pescadores e a urgência da preservação ambiental dos oceanos.

O desfile reuniu 1.370 integrantes, distribuídos em 17 alas e três alegorias. Mesmo sob chuva torrencial durante sua passagem, a escola manteve a energia elevada e contagiou o público. O intérprete Bolinha comentou a coincidência climática. “No ano passado caiu uma garoa, e este ano a chuva veio de vez. Nada mais justo no ano em que homenageamos o mar. A água foi convidada e apareceu. A energia da arquibancada foi incrível, e a escola veio cantando forte. Acredito que estamos novamente na briga pelo título”, afirmou.

Encerrando o Carnaval de Santos 2026, a Unidos dos Morros apresentou o enredo “O Bicho Nosso de Cada Dia… Um Jeitinho Brasileiro de Sonhar”. Com tom bem-humorado e provocador, a escola revisitou a história do jogo do bicho no Brasil e homenageou Maneco Perneta, um dos primeiros e mais conhecidos incentivadores da loteria popular em Santos.

A agremiação desfilou com 13 alas, três alegorias e 1.800 componentes. O casal de mestre-sala e porta-bandeira Marquinhos e Lyssandra Grooters celebrou o encerramento da festa. “É uma emoção muito grande fechar o Carnaval de Santos com esse enredo. Sou cria da Baixada, saí daqui e voltei depois de muitos anos. Estar no Morro, uma escola forte e tradicional, é uma honra imensa. O enredo traz uma brasilidade que é a cara do Carnaval”, destacou Lyssandra.

Com enredos potentes e forte presença popular, o Carnaval de Santos 2026 reafirmou sua vitalidade e diversidade cultural. Marcada pela emoção na avenida e pelo diálogo entre tradição e contemporaneidade, a festa mais uma vez confirmou o samba como elemento central da identidade santista e parte de sua história.